Os riscos de um governo bolsonaro

minimize-risk-maximize-availability

Respeito muito meus amigos e amigas que escolheram votar no Bolsonaro. Acho que até mesmo entendo as razões que eles têm. Muitos se sentem oprimidos pela corrupção sistêmica que temos visto no país. Outros, pela violência que torna indignas e disfuncionais nossas vidas. Ainda outros podem ser seduzidos por respostas convictas, fortes, espontâneas, que parecem ser um antídoto a tudo que está aí. As respostas dos partidos convencionais a essa crise foram pífias, insignificantes, indicando políticos já estabelecidos para cargos majoritários (não somente para presidente, mas também para governadores, senadores e deputados). Há um diagnóstico correto, na minha opinião, de muitos eleitores de Bolsonaro que precisamos de uma resposta forte, que gere uma quebra estrutural em tudo que temos visto nesses últimos anos. Infelizmente, o establishment político foi incapaz de dar tal resposta, criando um vácuo político.

Vejo também que muitos de meus amigos e amigas, eleitores e eleitoras de Bolsonaro, detestam a hipocrisia estabelecida de muita gente que é politicamente correta no discurso mas que levam vidas não condizentes com o que pregam. E por isso, relativizam discursos fundamentados em direitos humanos como parte de um grande circo de mentiras. Um erro. Mas entendo sua lógica.

Até aqui chego. Não consigo enxergar mais nada. Com esses pontos contudo, queria convidar meus queridos amigos e amigas para uma pequena reflexão. Vamos admitir que o seu candidato tenha as virtudes que prega e que precisemos, como país, de sua assertividade, patriotismo, devoção e honestidade, para resolver nossos problemas mais graves, que aqui, acredito serem, entre outros, a violência, a corrupção e a estagnação econômica.

Uma vez eleito, o candidato vai precisar governar. As evidências sugerem que ele tem mais apoio popular do que tem da classe política (sendo essa segundo seus eleitores/as uma das razões para elegê-lo). Isso significa que deve ter uma grande dificuldade para conversar com o congresso, assim como vimos no governo Dilma. Então, nesse cenário, parece que ou muda o congresso (o que parece ser improvável dadas as listas de candidatos que os partidos ofereceram), ou o congresso vai tentar muda-lo. O perigoso nesse cenário, de possível dificuldade de governabilidade, será o que Bolsonaro poderá fazer. Uma opção será a inércia e morte gradual. Outra das possíveis opções é a quebra do jogo democrático. Isso pode ser feito de diversos modos, muito possivelmente com apoio do seu vice-presidente. Lembrem-se da apologia que o candidato fez ao General Ustra por ocasião do impechment da presidente Dilma. Lembrem-se do que já falou sobre o voto eletrônico. As evidências sugerem que a democracia não é um valor muito importante para o candidato.

Claro, entendo que até mesmo alguns de meus amigos e amigas, mesmo já imaginando esse desfecho, queiram um governo militar por acreditarem que se estiverem ‘do lado do bem’ nada acontecerá a eles/as e que terão a volta aos tempos de prosperidade, de ‘ordem e progresso’. No entanto, isso equivale a um retrocesso institucional significativo, onde judiciário, congresso e demais órgãos governamentais (como a polícia federal) ficariam à mercê de forças que poderiam fazer o que quisessem com quem bem entendessem sem precisarem explicar nada para ninguém, pois assim funcionam as ditaduras. Pode ser que nada aconteça com você, mas e a seus filhos/as, netos/as, amigos/as? E àquelas pessoas que não conhecem, mas são nossos concidadãos?  Já vimos esse filme antes.

O paradoxo disso tudo seria que você que votaria no Bolsonaro para acabar com o perigo da ‘venezuelização’ do Brasil, estaria contribuindo para que isso fosse o mais provável. O medo do controle da mídia pelas esquerdas e de seu projeto de poder construído, seria substituído por uma alternativa de poder casuística onde as pessoas abririam mão de suas liberdades civis. Já vimos também esse filme antes.

Uma sociedade civilizada é uma sociedade sem armas. Uma sociedade civilizada cuida de suas minorias, de seus membros mais frágeis. Uma sociedade civilizada é tolerante, preocupada com a justiça mas também com a eficiência econômica. Uma sociedade civilizada pensa o longo prazo para resolver problemas complexos e estruturais. Uma sociedade civilizada não pode ser formada a partir de um plano de poder que contenha o risco de deixar de ser civilizada.

Para concluir, queria dizer que não sou neutro moralmente ao que o candidato Bolsonaro vem dizendo ao longo de sua vida parlamentar. Ele não me representa em seus posicionamentos sobre mulheres, homossexuais, negros, avós, etc e outras pessoas que são simplesmente seres humanos como todos somos. Talvez ele não tenha se ‘expressado bem’. Talvez ele seja simplesmente anacrônico. Mas há sim um problema em termos um presidente que diz coisas que ferem, humilham, machucam e diminuem a dignidade de outras pessoas.

Mas aceito que meus amigos e amigas eleitores e eleitoras de Bolsonaro vejam nele virtudes que não são desqualificadas pelos seus lapsos morais. Tudo bem. Temos algumas diferenças aqui, mas tudo bem. No entanto, pergunto. Vocês realmente acham que pode dar certo alguém sem muito preparo para elaborar e dialogar, alguém com convicções talvez não muito democráticas, fazer um bom governo para nosso país? Mesmo que vocês respondam sim, eu pergunto. Não acham isso nada arriscado?

Advertisements

Aporofobia e Plutofilia

IMG_3108

Sofremos de aporofobia. Aporofobia é o desprezo, a aversão, o medo aos pobres e indigentes. É uma palavra nova que foi criada pela filósofa Adela Cortina (ver seu livro “Aporofobia, el rechazo al pobre”, 2017) para descrever um fenômeno que é comum entre nós mas que não tínhamos um nome específico para pensa-lo. Falamos em xenofobia, em homofobia, em ‘islamofobia’, em discriminação de gênero, de raça, de idade, mas e a discriminação que existe pelo simples fato das pessoas serem pobres?

Discriminamos contra os pobres quando não os pensamos como iguais; quando fazemos ‘piadas de pobre’, quando consideramos que eles não merecem ser beneficiários de assistência do governo, mas não vemos nenhum problema com isenções bilionárias de impostos para grandes empresas. Discriminamos contra os pobres quando não nos importamos com suas vidas, mas achamos ‘inaceitável’ quando algo acontece com os não-pobres. Somos aporófobos quando usamos denominações diferentes para o mesmo fenômeno (chamando de ‘expatriados’ os imigrantes ricos, e de imigrantes aqueles pobres). Achamos sinal de inteligência notável quando filhos de classe média falam uma segunda língua, mas não vemos valor naqueles filhos de imigrantes que aprendem a gerenciar varias línguas desde muito pequenos. Tampouco vemos nenhum problema que os governos gastem proporcionalmente mais com os mais ricos e menos com os mais pobres (mesmo em saúde e educação). Vivemos um mundo de aporofobia individual e institucionalizada pelo Estado. A bomba que explode em Paris não é moralmente igual a uma bomba em Kabul para a mente aporófoba.

Para a professora Cortina precisamos pensar a cidadania para além de conceitos abstratos como ‘a dignidade humana’, que segundo ela “é uma abstração sem rosto visível”. Precisamos pensar a necessidade concreta de seres humanos individuais. E a aporofobia trata disso, não apenas de nossos costumes, nossa moral, mas da discriminação institucionalizada contra o pobre.

A aporofobia é um problema sério no Brasil. Quando as pessoas reclamam (ou melhor, reclamavam) “que tem muito pobre andando de avião”, que “pobre entra pela porta de trás via cotas na universidade”, que “pobre é vagabundo e quer viver de bolsa esmola”, etc., revelamos uma atitude de falta de reconhecimento do ser humano que vive situações difíceis, mas não nos importamos com isso (falo da atitude, não da análise técnica sobre a efetividade desses instrumentos). Em sociedades tão desiguais como a nossa, é comum que as pessoas naturalizem as assimetrias sociais. Mas passar disso para uma atitude de corrupção dos nossos sentimentos morais, é aporofobia.

Uma das fontes de inspiração da professora Cortina é o Adam Smith, que trata muito bem desse problema na sua Teoria dos Sentimentos Morais. Diz Smith que a raça humana tem uma tendência a admirar os ricos (plutofilia) e a desprezar os pobres. Para ele, “o homem rico se vangloria nas suas riquezas porque ele sente que elas trazem para ele a atenção do mundo e que a humanidade está disposta a lhe acompanhar em todas aquelas emoções agradáveis que a sua situação inspira. As pessoas buscam o dinheiro para ter com ele o respeito, a atenção, os cuidados que ele traz. Smith dá uma importância maior ao problema da plutofilia, que é a fonte maior de corrupção de nossos sentimentos morais para ele. Admiramos tanto aos ricos, que até mesmo copiamos os seus vícios. Temos assim, através da moda, uma expressão de um desejo de admiração e imitação dos ricos. (eu não me acostumo com essa moda dos jeans rasgados, mas não se trata disso….)

Desse modo, plutofilia e aporofobia fazem parte da mesma equação, são dois lados da mesma moeda. Precisamos encarar de frente que a natureza humana é imperfeita e que no capitalismo buscamos validação como ‘seres de valor’ através do dinheiro. Mas isso não é necessário se encontramos outros meios de acreditarmos que somos dignos de valor, como Honneth nos explica, seja pelo amor de nossas pessoas queridas ou pela realização daquilo que nos dá prazer ou que dá sentido as nossas vidas. A plutofilia no entanto catalisa a aporofobia.

Vivemos em um mundo onde os pobres viraram apenas números (% pobreza, % mortalidade infantil, % homicídios, etc) e onde os ricos têm nome e sobrenome; onde há muita gente com um interesse desproporcional na vida íntima dos ricos e famosos. Dar nome aos fenômenos sociais, dando uma função não apenas comunicativa mas ativa aos conceitos, é importante para tentarmos mudar essa realidade. Isso não depende apenas de governos. Isso depende de cada um de nós.

A falência do Brasil

bandeira-dinheirama-brasil-crise1-750x410-640x349

O Brasil faliu. Não foi apenas sua economia, que sujeita à ausência de políticas econômicas adequadas, continua na UTI. Não é somente porque o tecido social está destroçado, com quase 60 mil homicídios por ano e um clima de violência que ameaça a ordem pública. Não é só pelas contas da previdência não fecharem porque o dinheiro que foi pago lá atrás desapareceu e ninguém mais fala mais dele. Não é unicamente porque nossas escolas públicas estão largadas, sem esperança de futuro para nossas crianças e jovens.

O Brasil faliu pois a desigualdade social finalmente corrompeu os resquícios de moralidade pública que existiam. O Brasil faliu porque já se perdeu a vergonha. O Brasil faliu porque só sobra o ódio entre as pessoas ao invés do amor e tolerância. O Brasil faliu porque suas instituicões precisam ser reconstruídas mas antes disso a própria população precisa voltar a sua cidadania.

Não devemos acreditar em salvadores ou salvadoras da pátria. Nunca existiram e nunca existirão. Mas em uma situação caótica, em meio à inércia e à perplexidade, estamos caminhando para isso, para relegar responsabilidade, e esperar que um milagre aconteça. Uns acreditarão que esse milagre vem da esquerda, outros acreditarão que vem da direita. Escolha a embalagem do veneno. O pior parece que ainda está por vir.

O TSE existe para fazer justamente o que não fez. Como a mais alta corte do país em justiça eleitoral deixou pedagogicamente claro, a linha entre o certo e o errado esconde mais coisas do que possa imaginar nossa vã filosofia. A mensagem do ‘vale-tudo’ é propagada. Cria-se o sentido de que já não interessa o que é o certo ou o errado. Você que trabalha, você que quer ser honesto, olhe, o crime compensa!! Não vou nem falar aqui das barbaridades do que disseram Napoleão e Mendes. Eles são apenas mais do mesmo.

Cabe-nos enfrentar a falência! Ela tem que ser declarada e oficializada, para assim, como uma empresa, possamos pensar em reestruturarmos, não só como economia, mas como sociedade e como povo.

E se nada der certo?

WhatsApp-Image-2017-06-05-at-13.57.45

A pergunta era boa. O problema foram as respostas. Considerar cenários alternativos, mesmo negativos é importante tanto para o planejamento da política pública como para nossas estratégias de desenvolvimento pessoal. Pode ainda ajudar no fortalecimento da resiliência pessoal. Chegar assim para jovens prestes a enfrentarem a pressão de um vestibular e pedir a eles que considerem o que aconteceria em suas vidas ‘se nada desse certo’ não parece um problema em si.

O que os jovens em questão responderam é em parte o reflexo do apartheid social no qual vivemos, mas custamos em admitir. Muitas daquelas pessoas que esbravejaram com a resposta desses jovens não gostariam, acredito, que seus filhos/as tivessem as profissões retratadas por eles. Por quê? Porque no nosso país ter uma dessas profissões, que são dignas nelas mesmas, significa ter uma condição de vida indigna, pela massacrante concentração de renda e riqueza que produzimos e reproduzimos.

A posicionalidade dos julgamentos não pode ser ignorada. Vivemos em um país com vários pesos e várias medidas. Ser um porteiro, por exemplo, é um trabalho digno, como qualquer outro, que pode ser muito divertido. Mas não se o residente do prédio não lhe cumprimenta, não se as pessoas não lhe olham na cara, não se ninguém conversa com você e lhe pedem para fazer coisas sem um ‘por favor’ ou ‘obrigado’. Não é digno nem divertido se no final do mês o seu pagamento está longe de suficiente para comprar o básico para uma vida decente. Quem gostaria isso para seus filhos/as? Veja que o problema não estar em ser porteiro, mas quem dele/a se utiliza, com pouca humanidade e civilidade. A desigualdade desumaniza tanto quem vive na pobreza como quem se acha superior a vida cotidiana de seus concidadãos.

O problema pode ser da escola. Ou pode ser dos jovens. Ou pode ser de suas famílias. Ou pode ser da sociedade em que vivemos na qual naturalizamos visões de mundo profundamente desiguais. E como sociedade, nos espantamos quando olhamos no espelho e percebemos que somos ‘feios socialmente’. Para resolver mesmo esse, assim como outros problemas, precisamos ir além das aparências. A febre não é o que causa a doença. A febre é o sintoma. Para atacar o problema precisamos pensar em como reproduzimos desigualdades no nosso país. Precisamos pensar para quem a economia funciona. Para quem se governa. E o quão ‘feio’ e insustentável tudo isso nos parece quando nos olhamos socialmente no espelho nesse tipo de situação. Usando outra metáfora: nossa indignação não deve voltar-se isoladamente ao mensageiro, mas ao sistema social que produz as mensagens.

As Mentiras que os Governos contam (Zero Hora, 4 junho 2017)

IMG_5767

Vivemos tempos de meias verdades e meias mentiras. De fato, as piores mentiras, e as mais perigosas, são aquelas que contém algumas verdades. O Governo Federal nos diz que as contas da previdência impedem o equilíbrio fiscal, que sem reforma trabalhista não haverá crescimento econômico; o Governo do Rio Grande do Sul afirma que sem privatizações e sem o fechamento das fundações não poderá focar na provisão de bens públicos essenciais; o Governo de Porto Alegre justifica que não pode repor a inflação dos salários dos servidores para poder investir mais. No meio de algumas verdades, arrisco que existem três tipos de mentiras principais:

Mentiras tipo 1: “as estatísticas atuais são um bom parâmetro para decisões de longo prazo”. O déficit da previdência é real (apesar da questão sobre a desvinculação das receitas da união) e deve aumentar não somente pelo envelhecimento de nossa população mas por não termos investido nas escolas brasileiras (déficit futuro de capital humano). Frequentemente os números da previdência são apresentados como % do produto interno bruto (PIB). Em um momento em que o país chega a 14 milhões de desempregados, com queda correspondente na arrecadação, aumento de juros da dívida pública nesses últimos anos e uma recessão histórica (ou seja, PIB menor), tanto numerador quando denominador fornecem % déficits maiores no curto-prazo. Tirar conclusões de longo prazo unicamente nessa base é extrapolar de maneira indevida as circunstâncias históricas. A mentira é o exagero da verdade dos fatos.

Mentiras tipo 2: “se essas despesas públicas forem cortadas, o crescimento vai voltar”. Como exatamente? A queda da taxa de juros é tudo o que necessitamos? O crescimento somente volta de modo sustentável se problemas de infraestrutura, burocracia irracional, impostos altos, corrupção, gargalos logísticos, de capital humano e institucionais forem resolvidos. Mas enquanto o bode é trazido para a sala, as reformas estruturais não são feitas, a começar pela necessidade de uma educação de qualidade. A mentira é vender a panaceia do ajuste macroeconômico como se todo o resto não importasse.

Mentiras tipo 3: “o aperto fiscal é sinal de austeridade”. Os governos das diferentes esferas tem cortado orçamentos e contingenciado despesas incluindo áreas essenciais como saúde e educação enquanto mantém altos gastos com publicidade e salários no legislativo e judiciário. A contenção linear de gastos não vale para todos e evita o enfrentamento de problemas internos à gestão pública. No Rio Grande do Sul, privatizar estatais e fechar fundações como meio de obtenção de caixa extra no curto prazo é no mínimo uma miopia administrativa. Do mesmo modo, em Porto Alegre, achatar salários de funcionários em áreas onde a qualidade do capital humano é o elemento definidor da qualidade dos serviços públicos é incompreensível. A mentira é dizer que somente a austeridade vai resolver tudo pois muito mais precisa ser feito em termos de gestão.

Além do mais, é mentira que o crescimento econômico beneficia todos da mesma maneira. É mentira que as novas regras da previdência não prejudicarão aos mais pobres. É mentira que a reforma trabalhista vai incentivar o capital privado enquanto reformas estruturais não forem implementadas. É mentira que podemos desprestigiar o funcionalismo público sem diminuir seus incentivos. Por fim, a maior das mentiras é acreditar que a busca cega pela eficiência econômica vai resolver nossos problemas de justiça social.

O ‘reco-reco’ e a qualidade da educação

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Educar é um ato de amor. Não o amor romântico, mas aquele amor pelo qual se tem pelos filhos/as. Não há, aparentemente, um nome para esse tipo de amor. Para o amor do querer ver alguém crescer, se desenvolver, ser feliz, sem querer nada em troca. Mas é disso que se trata quando falamos em educar. E se isso for verdade, não pode haver educação de qualidade sem o ‘RECO-RECO’.

Uma educação que se preze deve começar com o RE-conhecimento dos alunos/as como sujeitos de valor. Dentro do ambiente escolar, cabe à sua administração e aos seus professores agirem de tal forma a passar a mensagem aos seus alunos/as que eles são importantes, que são amados, cuidados, que serão protegidos. Difícil imaginar que os próprios alunos/as vão considerar válido o investimento do seu tempo na escola se eles/as não se considerarem dignos desse investimento. Quanto maior o desmantelamento das famílias, quanto maior for a violência fora e dentro das escolas, mais importante é o professor reconhecer seus alunos/as como sujeitos de valor. Mas isso parece muito abstrato, não? O que pode então ser feito de concreto? Aprenda o nome dos seus alunos/as; pergunte como eles/as estão; considere-os/as; sorria, cumprimente-os/as, estabeleça uma relação de reconhecimento com eles, como nos diria Axel Honneth. Nos conta ele, assim como a Profa Adela Cortina, que a violência que vemos (na sociedade e nas escolas) pode ser uma forma da busca pelo reconhecimento feita por crianças e jovens que sofrem o desamor de suas famílias.

Uma vez estabelecidos os laços humanos, cabe ao professor CO-mandar o que ensina ao invés de ser comandado pelos conteúdos. Isso não significa que não use manuais ou mesmo apostilas. Isso quer dizer que cabe ao professor/a dominar plenamente o que ensina para que possa deixar o protagonismo da sala-de-aula aos seus alunos. O professor antes de tudo precisa ser alguém que é professor porque gosta de estudar. Infelizmente no nosso país os livros são caros e os professores são baratos e estes não podem comprar livros e aperfeiçoarem-se de modo espontâneo. Mas estudar é preciso para que o professor não vire escravo dos conteúdos e possa conduzir suas aulas como uma conversa estruturada com seus alunos; isso é fundamental para humanizar o ensino.

O segundo RE é o RE-speito. Respeitar os alunos é diferente de reconhecê-los pois respeita-los envolve dar importância a sua voz como elemento pedagógico. Muitas vezes, mesmo quando os professores lançam perguntas aos alunos/as em sala-de-aula, ‘pescam’ respostas, passando de aluno/a em aluno/a buscando a resposta certa. Nesse caminho, podem ou não chegarem a respostas que querem; mas alienam, sutilmente, todos aqueles alunos/as que responderam e que foram abandonados/as pela sua atenção ao não nos darem a resposta que desejavam. Por que não perguntar aos alunos o porquê de suas respostas? Por que não perguntar ao próximo aluno/a se ele ou ela concorda ou não com o/a colega? Alienamos como professores (faço o meu mea culpa aqui) aos alunos, tiramos seu protagonismo em nossas pedagogias e depois reclamamos que eles deviam se interessar mais nos estudos. Os alunos precisam fazer parte do processo de construção do conhecimento. Até mesmo nas ciências e na matemática existem diferentes meios de se provarem axiomas ou de se testarem hipóteses científicas começando por caminhos ou estratégias distintas.

Por fim, o último elemento é a CO-mpreensão dos erros. Ensinar não é somente transmitir conhecimento. Nem tampouco, nessa linha, promover habilidades. Ensinar é entender a fonte dos erros, para ser capaz de construir várias trajetórias de aprendizagem a partir de pontos de partida diversos. O primeiro CO (de CO-mando da matéria) é fundamental aqui também. Mas sem CO-mpreender os erros, não se ensina, se passa conteúdos, mas não se coloca os alunos/as para pensar. O medo ao erro é a maior fonte da ansiedade e dos estereótipos criados em sala-de-aula e que as pessoas às vezes podem carregar por toda a vida. Criar uma cultura onde o errar faz parte do acertar é fundamental para pensar diferente: é fundamental para a promoção de uma cultura de um pensamento inovador, que já é e será ainda mais o motor das sociedades no século XXI. Mas os alunos somente não terão medo de errar se ao errarem seus professores não mudarem de opinião a seu respeito, isso é, se forem amados, no sentido de serem RE-conhecidos..

O RECO-RECO funciona assim, tudo junto e misturado. Funciona pela prática, funciona pela repetição, que forma os hábitos, como nos ensinou Aristóteles. O RECO-RECO segue a lógica da prática e pode marcar uma cadência pedagógica, formada por elementos psico-emocionais com importantes implicações sobre a qualidade da educação.

É importante, no entanto, reconhecer, que escolas e universidades se tornaram hoje em dia espaços vulneráveis à violência reinante na sociedade brasileira. Desse modo, não devemos esperar o fácil. Devemos preparar-nos para o difícil dentro de um contexto de ‘escolas e educadores resilientes’. A única força que pode movimentar o reco-reco e fortalecer o produto das escolas resilientes é o amor. O amor pelo próximo, pela humanidade, aquele que nutre a compaixão, a empatia, o reconhecimento e o respeito que motivam o esforço e o aperfeiçoamento pedagógico.

Deixo aqui registrado o meu profundo agradecimento ao Prof Ronaldo Mota, Reitor da Universidade Estácio, pelo convite em participar do Painel de Abertura do seu Fórum Docente 2017 com Éric Bettinger de Stanford e o ex-ministro Fernando Haddad onde algumas dessas ideias foram apresentadas.

A reinvenção da economia política (Zero Hora, 9 de abril de 2017)

rico-e-pobre

Vivemos tempos de grandes embates econômicos e políticos. São tempos de contrastes, de antagonismos, de velhas teorias aplicadas a novos problemas. Vivemos tempos de extremos e de dicotomias: ou você é de esquerda ou é de direita; ou defende a justiça social ou a eficiência econômica; ou acredita no poder do Estado ou no dos mercados; ou se guia pelo bem comum ou pela liberdade; ou segue (estereotipicamente) Marx ou von Mises. A economia política, precursora da economia contemporânea, parece sepultada de um lado sobre o véu da economia qua ciência e de outro sobre a economia como uma coleção de dogmas de grandes pensadores. Nesse contexto, Thomas Piketty permanece uma incógnita, um OVNI acadêmico, para todos aqueles presos às suas velhas ideias. E a explicação para as dificuldades em classifica-lo é simples.

Piketty é um economista que tem luz própria. O seu pensamento é difícil de ser enquadrado dentro das velhas doutrinas. Não é por ter sido o autor do best-seller ‘O Capital no Século XXI’ que ele é marxista. Não é por trabalhar com séries históricas e regressões que ele é um econometrista mainstream. Não é por defender investimentos pesados em educação e capital humano que ele é um liberal clássico. Não é por propor uma regulação de mercados financeiros especulativos que ele é keynesiano. Ele é antes de tudo um economista extremamente preocupado com a democracia e com sua erosão por crescentes níveis de desigualdade social e econômica. Diferentemente dos economistas tradicionais ele defende que ‘não existem leis econômicas, mas séries de experiências históricas’, com especificidades, aleatoriedades, imprevisibilidades e institucionalidades peculiares.

O mundo visto por Piketty é caracterizado por profundas desigualdades de renda e de riqueza. É um mundo com estruturas tributárias arcaicas, ineficientes e injustas que penalizam os mais pobres mas que são muito generosas com grandes fortunas e multinacionais (especialmente leniente com patrimônios privados em paraísos fiscais). É um mundo onde políticos são ‘inquilinos hipócritas do poder’ excessivamente bem-remunerados; onde o socialismo é apenas ‘decorativo’. É um mundo onde canais de notícia, controlados por bilionários, seguem com ‘seu fluxo incessante de informações emburrecedoras’.

Piketty é moralmente sensível ao desperdício de dinheiro publico com grupos privilegiados e ao ‘egoísmo míope’ da política internacional de países europeus que envelhecem à espera dos resultados desastrosos do aquecimento climático. Para ele as múltiplas faces da desigualdade não corroem apenas a democracia de países ocidentais, mas alimentam também o terrorismo, o nacionalismo, a islamofobia e demais conflitos religiosos no mundo.

Apesar de tudo isso, ele se define como um ‘otimista’ e constrói seus argumentos na interface entre a economia e a filosofia política. Ele defende a progressividade tributaria, o investimento pesado na educação, na formação profissional e na ciência e tecnologia. Engana-se contudo quem pensa que ele é um nacionalista. Para ele não há a possibilidade de construirmos sociedades melhores sem a cooperação internacional. Ele defende também um novo modelo de financiamento da proteção social para a França e Europa que não seja todo em cima da massa salarial do setor privado (um ponto de vista interessante e original para tempos de debates sobre a reforma da previdência no Brasil). Outras soluções financeiras propostas por ele, como a mutualização de dívidas públicas, estão na raiz de uma refundação democrática da zona do euro. Nas suas mãos assistimos a uma simbiose entre elementos políticos e econômicos cuja materialidade é dada por propostas de revisão da arquitetura tributária, orçamentária e financeira dos países que demandam a construção de novas instituições democráticas e parlamentares. Não existe hoje nenhum economista no mundo como Thomas Piketty. Temos muito a aprender com ele e a reinvenção da economia política para o século XXI.