A falência do Brasil

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O Brasil faliu. Não foi apenas sua economia, que sujeita à ausência de políticas econômicas adequadas, continua na UTI. Não é somente porque o tecido social está destroçado, com quase 60 mil homicídios por ano e um clima de violência que ameaça a ordem pública. Não é só pelas contas da previdência não fecharem porque o dinheiro que foi pago lá atrás desapareceu e ninguém mais fala mais dele. Não é unicamente porque nossas escolas públicas estão largadas, sem esperança de futuro para nossas crianças e jovens.

O Brasil faliu pois a desigualdade social finalmente corrompeu os resquícios de moralidade pública que existiam. O Brasil faliu porque já se perdeu a vergonha. O Brasil faliu porque só sobra o ódio entre as pessoas ao invés do amor e tolerância. O Brasil faliu porque suas instituicões precisam ser reconstruídas mas antes disso a própria população precisa voltar a sua cidadania.

Não devemos acreditar em salvadores ou salvadoras da pátria. Nunca existiram e nunca existirão. Mas em uma situação caótica, em meio à inércia e à perplexidade, estamos caminhando para isso, para relegar responsabilidade, e esperar que um milagre aconteça. Uns acreditarão que esse milagre vem da esquerda, outros acreditarão que vem da direita. Escolha a embalagem do veneno. O pior parece que ainda está por vir.

O TSE existe para fazer justamente o que não fez. Como a mais alta corte do país em justiça eleitoral deixou pedagogicamente claro, a linha entre o certo e o errado esconde mais coisas do que possa imaginar nossa vã filosofia. A mensagem do ‘vale-tudo’ é propagada. Cria-se o sentido de que já não interessa o que é o certo ou o errado. Você que trabalha, você que quer ser honesto, olhe, o crime compensa!! Não vou nem falar aqui das barbaridades do que disseram Napoleão e Mendes. Eles são apenas mais do mesmo.

Cabe-nos enfrentar a falência! Ela tem que ser declarada e oficializada, para assim, como uma empresa, possamos pensar em reestruturarmos, não só como economia, mas como sociedade e como povo.

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E se nada der certo?

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A pergunta era boa. O problema foram as respostas. Considerar cenários alternativos, mesmo negativos é importante tanto para o planejamento da política pública como para nossas estratégias de desenvolvimento pessoal. Pode ainda ajudar no fortalecimento da resiliência pessoal. Chegar assim para jovens prestes a enfrentarem a pressão de um vestibular e pedir a eles que considerem o que aconteceria em suas vidas ‘se nada desse certo’ não parece um problema em si.

O que os jovens em questão responderam é em parte o reflexo do apartheid social no qual vivemos, mas custamos em admitir. Muitas daquelas pessoas que esbravejaram com a resposta desses jovens não gostariam, acredito, que seus filhos/as tivessem as profissões retratadas por eles. Por quê? Porque no nosso país ter uma dessas profissões, que são dignas nelas mesmas, significa ter uma condição de vida indigna, pela massacrante concentração de renda e riqueza que produzimos e reproduzimos.

A posicionalidade dos julgamentos não pode ser ignorada. Vivemos em um país com vários pesos e várias medidas. Ser um porteiro, por exemplo, é um trabalho digno, como qualquer outro, que pode ser muito divertido. Mas não se o residente do prédio não lhe cumprimenta, não se as pessoas não lhe olham na cara, não se ninguém conversa com você e lhe pedem para fazer coisas sem um ‘por favor’ ou ‘obrigado’. Não é digno nem divertido se no final do mês o seu pagamento está longe de suficiente para comprar o básico para uma vida decente. Quem gostaria isso para seus filhos/as? Veja que o problema não estar em ser porteiro, mas quem dele/a se utiliza, com pouca humanidade e civilidade. A desigualdade desumaniza tanto quem vive na pobreza como quem se acha superior a vida cotidiana de seus concidadãos.

O problema pode ser da escola. Ou pode ser dos jovens. Ou pode ser de suas famílias. Ou pode ser da sociedade em que vivemos na qual naturalizamos visões de mundo profundamente desiguais. E como sociedade, nos espantamos quando olhamos no espelho e percebemos que somos ‘feios socialmente’. Para resolver mesmo esse, assim como outros problemas, precisamos ir além das aparências. A febre não é o que causa a doença. A febre é o sintoma. Para atacar o problema precisamos pensar em como reproduzimos desigualdades no nosso país. Precisamos pensar para quem a economia funciona. Para quem se governa. E o quão ‘feio’ e insustentável tudo isso nos parece quando nos olhamos socialmente no espelho nesse tipo de situação. Usando outra metáfora: nossa indignação não deve voltar-se isoladamente ao mensageiro, mas ao sistema social que produz as mensagens.

As Mentiras que os Governos contam (Zero Hora, 4 junho 2017)

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Vivemos tempos de meias verdades e meias mentiras. De fato, as piores mentiras, e as mais perigosas, são aquelas que contém algumas verdades. O Governo Federal nos diz que as contas da previdência impedem o equilíbrio fiscal, que sem reforma trabalhista não haverá crescimento econômico; o Governo do Rio Grande do Sul afirma que sem privatizações e sem o fechamento das fundações não poderá focar na provisão de bens públicos essenciais; o Governo de Porto Alegre justifica que não pode repor a inflação dos salários dos servidores para poder investir mais. No meio de algumas verdades, arrisco que existem três tipos de mentiras principais:

Mentiras tipo 1: “as estatísticas atuais são um bom parâmetro para decisões de longo prazo”. O déficit da previdência é real (apesar da questão sobre a desvinculação das receitas da união) e deve aumentar não somente pelo envelhecimento de nossa população mas por não termos investido nas escolas brasileiras (déficit futuro de capital humano). Frequentemente os números da previdência são apresentados como % do produto interno bruto (PIB). Em um momento em que o país chega a 14 milhões de desempregados, com queda correspondente na arrecadação, aumento de juros da dívida pública nesses últimos anos e uma recessão histórica (ou seja, PIB menor), tanto numerador quando denominador fornecem % déficits maiores no curto-prazo. Tirar conclusões de longo prazo unicamente nessa base é extrapolar de maneira indevida as circunstâncias históricas. A mentira é o exagero da verdade dos fatos.

Mentiras tipo 2: “se essas despesas públicas forem cortadas, o crescimento vai voltar”. Como exatamente? A queda da taxa de juros é tudo o que necessitamos? O crescimento somente volta de modo sustentável se problemas de infraestrutura, burocracia irracional, impostos altos, corrupção, gargalos logísticos, de capital humano e institucionais forem resolvidos. Mas enquanto o bode é trazido para a sala, as reformas estruturais não são feitas, a começar pela necessidade de uma educação de qualidade. A mentira é vender a panaceia do ajuste macroeconômico como se todo o resto não importasse.

Mentiras tipo 3: “o aperto fiscal é sinal de austeridade”. Os governos das diferentes esferas tem cortado orçamentos e contingenciado despesas incluindo áreas essenciais como saúde e educação enquanto mantém altos gastos com publicidade e salários no legislativo e judiciário. A contenção linear de gastos não vale para todos e evita o enfrentamento de problemas internos à gestão pública. No Rio Grande do Sul, privatizar estatais e fechar fundações como meio de obtenção de caixa extra no curto prazo é no mínimo uma miopia administrativa. Do mesmo modo, em Porto Alegre, achatar salários de funcionários em áreas onde a qualidade do capital humano é o elemento definidor da qualidade dos serviços públicos é incompreensível. A mentira é dizer que somente a austeridade vai resolver tudo pois muito mais precisa ser feito em termos de gestão.

Além do mais, é mentira que o crescimento econômico beneficia todos da mesma maneira. É mentira que as novas regras da previdência não prejudicarão aos mais pobres. É mentira que a reforma trabalhista vai incentivar o capital privado enquanto reformas estruturais não forem implementadas. É mentira que podemos desprestigiar o funcionalismo público sem diminuir seus incentivos. Por fim, a maior das mentiras é acreditar que a busca cega pela eficiência econômica vai resolver nossos problemas de justiça social.

O ‘reco-reco’ e a qualidade da educação

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Educar é um ato de amor. Não o amor romântico, mas aquele amor pelo qual se tem pelos filhos/as. Não há, aparentemente, um nome para esse tipo de amor. Para o amor do querer ver alguém crescer, se desenvolver, ser feliz, sem querer nada em troca. Mas é disso que se trata quando falamos em educar. E se isso for verdade, não pode haver educação de qualidade sem o ‘RECO-RECO’.

Uma educação que se preze deve começar com o RE-conhecimento dos alunos/as como sujeitos de valor. Dentro do ambiente escolar, cabe à sua administração e aos seus professores agirem de tal forma a passar a mensagem aos seus alunos/as que eles são importantes, que são amados, cuidados, que serão protegidos. Difícil imaginar que os próprios alunos/as vão considerar válido o investimento do seu tempo na escola se eles/as não se considerarem dignos desse investimento. Quanto maior o desmantelamento das famílias, quanto maior for a violência fora e dentro das escolas, mais importante é o professor reconhecer seus alunos/as como sujeitos de valor. Mas isso parece muito abstrato, não? O que pode então ser feito de concreto? Aprenda o nome dos seus alunos/as; pergunte como eles/as estão; considere-os/as; sorria, cumprimente-os/as, estabeleça uma relação de reconhecimento com eles, como nos diria Axel Honneth. Nos conta ele, assim como a Profa Adela Cortina, que a violência que vemos (na sociedade e nas escolas) pode ser uma forma da busca pelo reconhecimento feita por crianças e jovens que sofrem o desamor de suas famílias.

Uma vez estabelecidos os laços humanos, cabe ao professor CO-mandar o que ensina ao invés de ser comandado pelos conteúdos. Isso não significa que não use manuais ou mesmo apostilas. Isso quer dizer que cabe ao professor/a dominar plenamente o que ensina para que possa deixar o protagonismo da sala-de-aula aos seus alunos. O professor antes de tudo precisa ser alguém que é professor porque gosta de estudar. Infelizmente no nosso país os livros são caros e os professores são baratos e estes não podem comprar livros e aperfeiçoarem-se de modo espontâneo. Mas estudar é preciso para que o professor não vire escravo dos conteúdos e possa conduzir suas aulas como uma conversa estruturada com seus alunos; isso é fundamental para humanizar o ensino.

O segundo RE é o RE-speito. Respeitar os alunos é diferente de reconhecê-los pois respeita-los envolve dar importância a sua voz como elemento pedagógico. Muitas vezes, mesmo quando os professores lançam perguntas aos alunos/as em sala-de-aula, ‘pescam’ respostas, passando de aluno/a em aluno/a buscando a resposta certa. Nesse caminho, podem ou não chegarem a respostas que querem; mas alienam, sutilmente, todos aqueles alunos/as que responderam e que foram abandonados/as pela sua atenção ao não nos darem a resposta que desejavam. Por que não perguntar aos alunos o porquê de suas respostas? Por que não perguntar ao próximo aluno/a se ele ou ela concorda ou não com o/a colega? Alienamos como professores (faço o meu mea culpa aqui) aos alunos, tiramos seu protagonismo em nossas pedagogias e depois reclamamos que eles deviam se interessar mais nos estudos. Os alunos precisam fazer parte do processo de construção do conhecimento. Até mesmo nas ciências e na matemática existem diferentes meios de se provarem axiomas ou de se testarem hipóteses científicas começando por caminhos ou estratégias distintas.

Por fim, o último elemento é a CO-mpreensão dos erros. Ensinar não é somente transmitir conhecimento. Nem tampouco, nessa linha, promover habilidades. Ensinar é entender a fonte dos erros, para ser capaz de construir várias trajetórias de aprendizagem a partir de pontos de partida diversos. O primeiro CO (de CO-mando da matéria) é fundamental aqui também. Mas sem CO-mpreender os erros, não se ensina, se passa conteúdos, mas não se coloca os alunos/as para pensar. O medo ao erro é a maior fonte da ansiedade e dos estereótipos criados em sala-de-aula e que as pessoas às vezes podem carregar por toda a vida. Criar uma cultura onde o errar faz parte do acertar é fundamental para pensar diferente: é fundamental para a promoção de uma cultura de um pensamento inovador, que já é e será ainda mais o motor das sociedades no século XXI. Mas os alunos somente não terão medo de errar se ao errarem seus professores não mudarem de opinião a seu respeito, isso é, se forem amados, no sentido de serem RE-conhecidos..

O RECO-RECO funciona assim, tudo junto e misturado. Funciona pela prática, funciona pela repetição, que forma os hábitos, como nos ensinou Aristóteles. O RECO-RECO segue a lógica da prática e pode marcar uma cadência pedagógica, formada por elementos psico-emocionais com importantes implicações sobre a qualidade da educação.

É importante, no entanto, reconhecer, que escolas e universidades se tornaram hoje em dia espaços vulneráveis à violência reinante na sociedade brasileira. Desse modo, não devemos esperar o fácil. Devemos preparar-nos para o difícil dentro de um contexto de ‘escolas e educadores resilientes’. A única força que pode movimentar o reco-reco e fortalecer o produto das escolas resilientes é o amor. O amor pelo próximo, pela humanidade, aquele que nutre a compaixão, a empatia, o reconhecimento e o respeito que motivam o esforço e o aperfeiçoamento pedagógico.

Deixo aqui registrado o meu profundo agradecimento ao Prof Ronaldo Mota, Reitor da Universidade Estácio, pelo convite em participar do Painel de Abertura do seu Fórum Docente 2017 com Éric Bettinger de Stanford e o ex-ministro Fernando Haddad onde algumas dessas ideias foram apresentadas.

A reinvenção da economia política (Zero Hora, 9 de abril de 2017)

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Vivemos tempos de grandes embates econômicos e políticos. São tempos de contrastes, de antagonismos, de velhas teorias aplicadas a novos problemas. Vivemos tempos de extremos e de dicotomias: ou você é de esquerda ou é de direita; ou defende a justiça social ou a eficiência econômica; ou acredita no poder do Estado ou no dos mercados; ou se guia pelo bem comum ou pela liberdade; ou segue (estereotipicamente) Marx ou von Mises. A economia política, precursora da economia contemporânea, parece sepultada de um lado sobre o véu da economia qua ciência e de outro sobre a economia como uma coleção de dogmas de grandes pensadores. Nesse contexto, Thomas Piketty permanece uma incógnita, um OVNI acadêmico, para todos aqueles presos às suas velhas ideias. E a explicação para as dificuldades em classifica-lo é simples.

Piketty é um economista que tem luz própria. O seu pensamento é difícil de ser enquadrado dentro das velhas doutrinas. Não é por ter sido o autor do best-seller ‘O Capital no Século XXI’ que ele é marxista. Não é por trabalhar com séries históricas e regressões que ele é um econometrista mainstream. Não é por defender investimentos pesados em educação e capital humano que ele é um liberal clássico. Não é por propor uma regulação de mercados financeiros especulativos que ele é keynesiano. Ele é antes de tudo um economista extremamente preocupado com a democracia e com sua erosão por crescentes níveis de desigualdade social e econômica. Diferentemente dos economistas tradicionais ele defende que ‘não existem leis econômicas, mas séries de experiências históricas’, com especificidades, aleatoriedades, imprevisibilidades e institucionalidades peculiares.

O mundo visto por Piketty é caracterizado por profundas desigualdades de renda e de riqueza. É um mundo com estruturas tributárias arcaicas, ineficientes e injustas que penalizam os mais pobres mas que são muito generosas com grandes fortunas e multinacionais (especialmente leniente com patrimônios privados em paraísos fiscais). É um mundo onde políticos são ‘inquilinos hipócritas do poder’ excessivamente bem-remunerados; onde o socialismo é apenas ‘decorativo’. É um mundo onde canais de notícia, controlados por bilionários, seguem com ‘seu fluxo incessante de informações emburrecedoras’.

Piketty é moralmente sensível ao desperdício de dinheiro publico com grupos privilegiados e ao ‘egoísmo míope’ da política internacional de países europeus que envelhecem à espera dos resultados desastrosos do aquecimento climático. Para ele as múltiplas faces da desigualdade não corroem apenas a democracia de países ocidentais, mas alimentam também o terrorismo, o nacionalismo, a islamofobia e demais conflitos religiosos no mundo.

Apesar de tudo isso, ele se define como um ‘otimista’ e constrói seus argumentos na interface entre a economia e a filosofia política. Ele defende a progressividade tributaria, o investimento pesado na educação, na formação profissional e na ciência e tecnologia. Engana-se contudo quem pensa que ele é um nacionalista. Para ele não há a possibilidade de construirmos sociedades melhores sem a cooperação internacional. Ele defende também um novo modelo de financiamento da proteção social para a França e Europa que não seja todo em cima da massa salarial do setor privado (um ponto de vista interessante e original para tempos de debates sobre a reforma da previdência no Brasil). Outras soluções financeiras propostas por ele, como a mutualização de dívidas públicas, estão na raiz de uma refundação democrática da zona do euro. Nas suas mãos assistimos a uma simbiose entre elementos políticos e econômicos cuja materialidade é dada por propostas de revisão da arquitetura tributária, orçamentária e financeira dos países que demandam a construção de novas instituições democráticas e parlamentares. Não existe hoje nenhum economista no mundo como Thomas Piketty. Temos muito a aprender com ele e a reinvenção da economia política para o século XXI.

 

 

 

 

 

 

IDH: a nossa responsabilidade

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A interpretação de que o Brasil ficou estagnado no seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) por conta da maior recessão da sua história é no mínimo deturpadora. Ela omite profundas questões estruturais da economia e da sociedade brasileira passando (involuntariamente ou não) a mensagem de que com a volta do crescimento o país voltará a andar nos trilhos do desenvolvimento humano. Mas isso é equivocado e enganador.

O IDH é um índice que sofre de duas inconsistências metodológicas que resultam em um sério problema quando combinadas. A primeira é que o IDH foi feito para ser divulgado no curto prazo (anualmente) mas a grande maioria das suas variáveis é de longo prazo. De fato, frequentemente sabemos o valor da ‘expectativa de vida ao nascer’ apenas por modelagem, pois dados novos saem apenas nos censos, o que no caso brasileiro significa a cada 10 anos. Similarmente, as variáveis educacionais, como ‘ o número de anos médios de estudo’ (das pessoas acima de 25 anos) têm variações quase imperceptíveis no curto prazo, com alterações substanciais anuais devidas apenas a ocasionais ajustes metodológicos. Assim, apesar do IDH ser divulgado anualmente ele oferece poucas novidades devido a sua estrutura de longo-prazo.

A segunda inconsistência metodológica é que o IDH foi criado para ‘desbancar’ a renda como o grande fetiche das nações ao introduzir outras dimensões de desenvolvimento, como a saúde e a educação junto à renda. Mas na prática o índice dá um peso implícito maior à variável que tem mais escala para se movimentar, que é a renda (mesmo suavizando seu peso com uma média geométrica). Desse modo, quando juntas as duas inconsistências levam ao paradoxo de que o indicador que foi feito para substituir a renda como ícone de qualidade-de-vida acaba frequentemente sendo regido por ela.

Mas isso somente na fachada. No fundo, o IDH mostra que algumas sociedades são estruturalmente desiguais (como o Brasil que perde 25.6% do seu IDH devido à desigualdade), machistas (onde as mulheres ganham em média apenas 60% da renda dos homens), onde são desrespeitados alguns direitos básicos como o direito à vida (nossa taxa de homicídio de 24.6 por 100 mil pessoas é das mais altas do mundo) ou o direito à infância (8% das crianças trabalham no Brasil) e onde a provisão de bens públicos essenciais é feita com baixa qualidade e densidade (temos 18.9 médicos a cada 10 mil habitantes, a metade de alguns países vizinhos como o Uruguai e Argentina; gastamos -pouco e mal- apenas 1/3 do que países desenvolvidos gastam por aluno em nossas escolas publicas do ensino fundamental).

É equivocado e enganador pensar que a solução destes problemas estruturais depende somente do crescimento econômico. A raison d’être do IDH é tratar de liberdades básicas, direitos, desigualdade, discriminação, empoderamento, respeito e justiça social. Assim, é essencial lembrar que crescimento econômico é apenas um meio e não um fim do desenvolvimento. A economia deve servir à sociedade e não o contrário. O IDH não ‘estagnou’ ou ‘parou de avançar’ devido à recessão mas sim devido à inconsistência e ineficácia de nossas instituições e políticas públicas, ao nosso descaso estrutural à vida humana e à nossa falta de solidariedade como nação. Não devemos responsabilizar a falta de crescimento econômico pelo nosso baixo IDH quando a responsabilidade é nossa como sociedade.

O IDH sem renda (publicado no Valor 27/03/17)

 

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Vários países, como o Brasil, não conseguem escapar do fetiche do crescimento econômico que domina sua arquitetura de politica publica. Mas esse não é um fenômeno recente de tempos de ajuste fiscal nem tampouco peculiar ao Brasil. De fato uma certa obsessão com o crescimento como principal medida de bem-estar social é um fenômeno do pós-guerra, da segunda metade do século 20. É verdade que o crescimento econômico melhorou a vida de muita gente, mas o fez de modo desigual e ineficaz para erradicar a pobreza e melhorar a provisão de bens públicos essenciais à toda população mundial. Foi no contexto de uma reação ao Produto Interno Bruto (PIB) como o único ‘felicitômetro das sociedades’ que há 27 anos foi criado o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) como uma medida de qualidade-de-vida alternativa ao PIB.

Mas o IDH não nasceu ‘puro-sangue’. Feito para ser simples e comunicável ao cidadão comum, foi composto de somente três dimensões (saúde, conhecimento e padrão de vida). Em particular cabe notar que a dimensão padrão de vida incluiu o próprio indicador que pretendia ‘desbancar’, o PIB. Originalmente utilizou o logaritmo do PIB como meio de suavizar a influência do mesmo no índice final; também impôs um teto ao PIB durante alguns anos e desde 2010 vem utilizando a Renda Nacional Bruta como a variável que mede o padrão de vida no IDH, tomando o cuidado de calcular o índice através de uma média geométrica, o que também suaviza o efeito da renda no índice. No entanto, esse ‘vício-de-origem’ metodológico persiste, podendo ser as vezes motivo de constrangimento conceitual e fonte de equívocos analíticos.

Uma maneira simples de entender a evolução do IDH dos países sem essa inconsistência metodológica é através do cálculo do ‘IDH sem renda’. Essa medida, que é simplesmente o IDH descontado o impacto resultante da Renda Nacional Bruta per capita, é mais fiel ao arcabouço conceitual de desenvolvimento humano que vê a renda como um meio e a saúde e o conhecimento como fins do desenvolvimento. Usando essa medida o Brasil não estaria na posição 79o do ranking do IDH, mas sim na posição 85o, o que sugere, primeiro, que em termos relativos o país está muito pior nos quesitos saúde e educação do que se julga pelo IDH agregado e, segundo, que de fato o nível da renda brasileira ajuda o país a estar em uma posição relativamente mais alta no IDH.

Podemos também tirar a diferença, para alguns países selecionados da América Latina, entre o ranking do IDH menos o ranking do IDH sem renda. No caso do Brasil ficaríamos 6 posições abaixo se não fosse pelo efeito da renda. Evidenciamos assim nossas deficiências na saúde e educação. De fato, a expectativa de vida ao nascer no Brasil de 74.7 anos é pior do que a de 14 países abaixo do Brasil no ranking do IDH. Similarmente, nosso anos médios de escolaridade, de 7.8 anos é pior do que o de 35 países abaixo do Brasil no IDH. Para a maior parte dos países latino-americanos há um efeito não-ambíguo do IDH sem renda. Nos extremos encontramos Cuba (que tem saúde e educação bem acima da sua renda) e Colômbia (muito ajudada pela renda para manter sua posição no IDH). O Chile continuaria, mesmo no IDH sem renda, como o país latino-americano de mais alto desenvolvimento humano.

Slide1Fonte: cálculos feitos a nosso pedido pelo Escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano (HDRO em inglês), 2017

Podemos ver dentro da perspectiva de mais longo prazo oferecida pelo IDH sem renda que a despeito de todos os avanços sociais celebrados no Brasil nas últimas décadas, o país apenas piorou no ranking do IDH sem renda passando de 77o em 1999 para 95o em 2005 e 102o em 2012, vindo desde então, paradoxalmente, (se pensarmos em termos econômicos) a melhorar progressivamente chegando ao atual ranking de 85o na lista dos países ordenados pelo IDH sem renda.

Mas o que isso significa de concreto para a promoção do desenvolvimento humano no Brasil? Primeiro, que não devemos esperar pelo crescimento econômico para a retomada do desenvolvimento humano no país. Como a tendência de longo prazo do IDH no Brasil mostra, a evolução do ranking do país no IDH sem renda, focado na saúde e conhecimento, tem uma correlação não-evidente com o crescimento econômico. Isso não significa que o crescimento econômico não seja de todo relevante para uma melhoria do padrão-de-vida dos brasileiros, mas que é importante não apenas por sua quantidade mas por sua qualidade.

Segundo, essa perspectiva mostra que temos hiatos de desenvolvimento humano com países vizinhos que são significativos. Por exemplo, vivemos em média menos 7.3 anos, temos 2.1 anos a menos de estudo e ganhamos US$ 7.520 a menos por ano do que nossos vizinhos Chilenos. Hiatos similares existem com tantos outros países latino-americanos como a Argentina, o Uruguai, o Panamá e mesmo a Venezuela.

Terceiro, essa perspectiva enfatiza a importância de investirmos na melhoria da provisão de bens públicos essenciais como saúde e educação. Sem isso não há mágica que faça o Brasil subir no ranking do IDH. É verdade que esses serviços podem ser comprados também diretamente no mercado. Nem tudo depende da provisão publica. Mas somente a provisão publica chega àquelas populações que mais precisam exatamente porque são pobres e não possuem outros meios de melhorarem suas vidas. Para isso precisamos de mais e não de menos Estado. Mas não podemos continuar dependendo do ‘mais do mesmo’. O Estado brasileiro precisa ser reinventado.

Para essa reinvenção do Estado precisamos de uma nova cidadania, mais ativa, mas intolerante com a corrupção e com as injustiças sociais. O crescimento econômico per se não vai resolver o problema da falta de desenvolvimento humano no Brasil. Não há trickle-down que resolva nossos hiatos sociais. O fetiche do crescimento econômico nos leva a ignorar direitos, a minimizar o sofrimento dos vulneráveis, principalmente durante períodos recessivos, e a ver a saúde e a educação da população como instrumentos para mais crescimento econômico, levando a uma inversão lógica entre os meios e fins do desenvolvimento. Enquanto seguirmos nessa lógica não há IDH que progrida.