“Senhor, dá dinheiro pra mim comer?”

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As fomes no Brasil são múltiplas. Estava no aeroporto de Guarulhos, no ainda novo e chique terminal 3, em uma lanchonete, chegando de uma viagem e esperando para começar outra. Escuto uma sequência nas minhas costas de ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’, ‘senhora, dá dinheiro pra mim comer?’, ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’….e o silêncio servindo como moldura para o próximo ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’ E quando chegou a minha vez, assim como os outros, respondi com um sorriso amarelo que ‘não’, colocando em marcha a metralhadora verbal do ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’ Logo eu que já me resolvi a dar algo, mesmo que pouco, para quem quer que me peça (a menos que não seja uma situação de risco). E até agora estou pensando porque fiz isso.

As razões para não dar qualquer dinheiro para o rapaz, que devia ter 18-19 anos são compreensíveis. Primeiro, o rapaz poderia estar mentindo, poderia querer o dinheiro para algo menos essencial do que comida, como por exemplo para drogas. Segundo, o rapaz escolheu vir a um aeroporto, lugar com turistas e pessoas com dinheiro (pelo menos mais dinheiro do que a média da população) e o pedido pode ser visto apenas como uma tentativa de explorar a boa fé alheia. Terceiro, o rapaz era jovem e sem nenhuma deficiência aparente, poderia estar trabalhando se quisesse, poderia se imaginar. Quarto, o rapaz chegou de surpresa e é bem provável que tenha assustado a todos com o inusitado do seu pedido em um ambiente ‘novo e chique’ do terminal 3. Por último, pode ser que depois da primeira resposta, todos tenham apenas reagido sem pensar, como ‘seguindo a manada’ e sem razões tenham recusado por ser o comportamento pré-julgado inicialmente como correto.

Mas o quão sólidos são esses argumentos? Será que podemos considera-los acima de qualquer dúvida? Primeiro, a humanidade é muito complexa para que possamos predefinir suas necessidades. ‘Comida é pasto, bebida é água….você tem fome de quê?’ Quantas vezes já vimos pessoas deixarem de comer para comprar algo que lhes dê (ou seja entendido que lhes dê) dignidade? Garotos que passam fome para comprar um boné de marca para se sentirem respeitados? Pessoas que enfrentam as tensões do endividamento para comprarem bens de consumo duráveis para criarem um sentimento de alegria nas suas famílias? Pais e mães enfrentando privações para darem tudo o que podem aos seus filhos? Quem sabe, na vida de quem não tem nada -ou que carrega um ou muitos passivos emocionais- o valor de suas necessidades? Não deveríamos prejulgar na hora de dar o dinheiro.

Segundo, é verdade que o rapaz veio ao aeroporto. Mas onde mais ir para encontrar pessoas para as quais um par de reais não faça diferença? Muitas vezes pessoas pobres são barradas em restaurantes e em shopping-centres. Quem não lembra das lojas dos shoppings fechando pelos ‘rolezinhos’? Onde mais ir? Já sobre se sentir ‘explorados’, somos realmente explorados e roubados tão mais pelas nossas instituições públicas, que nem percebemos. Essa mesma pessoa que estava pedindo o dinheiro, quando (espera-se) finalmente possa comprar algo para comer vai pagar um imposto indireto que é extremamente regressivo e injusto, pois tributa mais as pessoas mais pobres, como proporção do que têm.

Terceiro, por que parece natural que jovens pobres devam trabalhar para comer quando não esperamos o mesmo dos filhos(as) da classe-média que podem continuar estudando até 24-25 anos (ou mais, dependendo do curso)? E achamos isso natural para eles/as? Por que não queremos que nossos filhos trabalhem até terminar uma faculdade e achamos que os filhos ‘dos outros’ (pobres, obviamente) têm que trabalhar ‘para sustentarem seus luxos’? O que são luxos para um adolescente ou um jovem que muitas vezes busca apenas o respeito a sua individualidade e identidade? E que culpa tem esse jovem de ter nascido pobre? (pois se não tivesse nascido pobre seria muito improvável que estivesse pedindo).

Quarto, susto não é desculpa para ‘não pensar’. O susto significa apenas que no default temos uma reação de bloqueio de alteridade. O susto significa que estamos preparados para ignorar, desconsiderar, acreditar na mentira e na maldade, porque ela vem de um jovem com características estabelecidas. Mas o que teria acontecido se tivesse entrado um jovem com outras características sociais, econômicas e étnicas? Será que a resposta seria a mesma? Em que sentido a nossa ‘preparação para negar’ a existência e necessidade daquele jovem não é uma manifestação de estereótipos que construímos? E com isso, me permito perguntar, se essa negação não é uma forma de racismo? Teríamos agido igual se outro jovem (tipo ‘loiro de olhos azuis’) tivesse feito o mesmo pedido?

Por fim, os comportamentos ‘de manada’ são os mais irracionais possíveis e consistem em uma ‘razão sem razão’ ou sem fundamento. São sem dúvidas elementos de ordem prática, pois definem um agir, mas raramente encarnam comportamentos reflexivos. E por isso não são propriamente razões: podem explicar, mas nunca justificar.

A pobreza do rapaz que fala para ‘mim’ comer reflete suas várias pobrezas e abandonos que são reiterados a cada momento, em olhares desconfortáveis, desconfiados, alguns mesmo de desprezo. Sem apoio da família, podemos imaginar, e abandonado pelo Estado, é também ignorado pelos semelhantes. Em retrospecto, não há nenhum argumento para a minha negação do qual eu possa me orgulhar. Talvez alguém que me leia tenha melhores argumentos. Não digo que não existam. Eu apenas não os tenho. E lamento. Essa é uma lição para ‘mim’ aprender.

O discurso de formatura inacabado

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Agora já posso falar. Um médico disse que destruí a cartilagem entre meu pé e minha perna. Outro agora investiga se tenho algo ‘quebrado’ ou ‘rachado’. Foi o resultado de caminhadas intensas e corridas que fiz no final do ano passado. Seja como for, tem doído muito. Ontem à noite na Cerimônia de Formatura dos alunos e alunas da turma de Economia 2016/2 da UFRGS não foi diferente. Senti, no entanto, que, na capacidade de paraninfo da turma, não deveria ir de tala ortopédica e disfarçar o possível. Acho que consegui. Não foi difícil no geral pois a alegria de todos foi contagiante. Mas não achei que consegui dizer tudo o que havia pensado dizer para meus queridos alunos e alunas no meu discurso de formatura. Então vai lá o que ficou entalado:

Mesmo sabendo dos desafios profissionais que vocês terão pela frente, não quis focar nisso, mas em questões pessoais e sociais. O que aprendi de economia até agora me faz acreditar que as mesmas condições econômicas e materiais que nos trazem conforto nos alienam muitas vezes do viver-bem: viver com mais tempo para a gente se divertir, para jogar conversa fora, tempo para ter tempo para nossos pais, nossos filhos, amores, amigos e pessoas queridas. Em condições agudas de desigualdade como vivemos no nosso país somos pressionados a ‘ter’ para exercitar o nosso ‘ser’. O consumismo nos distancia da boa vida pois buscamos (inconscientemente) respeito e consideração das demais pessoas pelas nossas relações de posse. Essa é uma tensão permanente, a qual economistas como Adam Smith e Marx já tinham nos alertado, mas que em condições extremas de desigualdade, causa vítimas (mais evidentes) não só do lado da pobreza mas também daqueles com um bom ponto de partida na vida, como vocês.

Vivemos uma época de individualismo radicalizado. Uma época na qual vemos pessoas protestando contra o ‘politicamente correto’ (como se não existisse uma razão de ser para tratar as pessoas com respeito e dignidade). Vivemos uma época de xenofobia. Vivemos uma época na qual pessoas não têm vergonha de negar a discriminação de gênero e a racial. Vivemos uma época em que governos parecem não ter mais comprometimento com direitos humanos e sociais. Acompanhamos manifestações constantes de ódio, de intolerância e agressão não somente nas redes sociais mas nas redes reais, no cotidiano. As pessoas tiram não apenas da sua vida ‘virtual’, mas da ‘real’ qualquer referência a pontos de vista divergentes. Vivemos em bolhas. E aprofundamos a intolerância. A incompreensão. A violência urbana nas grandes cidades brasileiras é surreal, com cenas de barbárie legadas ao armário da indiferença, pois não sabemos o que fazer delas. Vivemos o ‘pior dos tempos’, nesse sentido, o ‘inverno do desespero’, como diria Charles Dickens.

Mas é aqui que tudo que aprendemos de economistas como Amartya Sen, sobre a importância de sermos autônomos, (senhores e senhoras do nosso próprio destino) é fundamental para podermos construir uma nova história. E para isso precisamos lembrar que o ser humano é maior do que a economia. Esta é apenas um ‘meio’ para fins maiores do bem-viver. Precisamos colocar em perspectiva que antes de qualquer arranjo econômico vem a consideração, o respeito pela individualidade e humanidade em cada um de nós. Resolver a crise (ou as crises) não é mais importante que o respeito que devemos ter pelo outro. E em nossas vidas privadas isso tem que ser vivido. Não podemos comungar da generosidade e humanidade no mundo das ideias se nosso cotidiano formos egoístas auto-centrados. Precisamos resgatar a ‘simpatia’ (empatia) Smithiana, que nos confere não somente o elo fundamental entre os seres humanos mas a busca de uma sociedade estabelecida em relações um pouco mais imparciais e menos injustas.

Desejo que vocês cultivem essa consciência das tensões entre o material e o moral e a busca por uma vida livre e digna. Não vai ser fácil. As desigualdades são sempre naturalizadas. Vai depender de cada um de vocês, no seu cotidiano, dentro de suas casas e no resto de suas ações, superar  o ‘pior dos tempos’, que traz consigo o pior das pessoas. A economia que empodera é também a que aliena. Que vocês saibam resgatar o humano e o ‘melhor dos tempos’, como diria Dickens, em tudo aquilo que farão.

 

 

Ocupa tudo?

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Se Voltaire estivesse vivo diria “Discordo das ocupações, mas defenderei até a morte seu direito de fazê-las”. Essa lição básica do autor do “Tratado sobre a Tolerância” já afundou há muito tempo no mar de ofensas, ódio, desprezo e falta de respeito que virou o ‘debate público’ no nosso país. De fato, nunca vi marcas tão claras de uma cultura de ‘hate speech’ cruzando os mais diversos campos ideológicos. O ódio não é monopólio de ninguém. Nas redes sociais as pessoas recheiam seus comentários sobre as ocupações com xingamentos e mais ódio, descaracterizando a posição dos outros. O único objetivo é desqualificar quem pensa diferente, de tal modo que -com o campo arrasado- sobre unicamente a sua opinião.

Nosso contexto histórico é a PEC 55 (antiga PEC 241 com a nova numeração pois passou para o Senado), dado que uma oposição a essa PEC tem sido dita como a principal razão das ocupações. Mas poderia ser qualquer outro. O meu ponto é que o mérito da PEC não importa no que estou dizendo aqui (não é que a PEC não importe, já falei sobre ela em outro post). O que importa é a nossa atitude em relação ‘ao outro’, ‘ao diferente’ e aquele que nos desafia a dizer o contrário do que pensamos. Existem problemas concretos sobre como ocorrem as ocupações, como o que acontece na UFRGS, de diretórios acadêmicos que ocupam o mesmo espaço fisico terem deliberações diferentes, mas não vou entrar nisso aqui.

Quem são os ocupadores(as)? Você acha que eles são estudantes baderneiros, desocupados, esquerdistas, manipulados por partidos políticos, instrumentalizados, inocentes úteis em uma guerra ideológica? Você acha que eles nem sabem bem o que é uma ‘PEC’ e nem entendem as razões do que estão fazendo? Você acha que as pessoas que os apoiam o fazem para manterem seus privilégios como professores de universidades federais? Você não vê nenhuma razão nesse movimento que pretende ir contra a única chance de salvação (de controle de gastos públicos) da economia brasileira depois do descalabro fiscal dos governos do PT com déficits bilionários insustentáveis?

Ou, por outro lado, você acha que os ocupadores(as) estão de fato lutando pelo bem comum? Que estão, dentro do seu mundo -que é a universidade- exercendo uma forma de protesto pacífica, ordeira, legítima por algo que interessa não somente a eles, mas à sociedade como um todo, pois congelar em termos reais os gastos com saúde e educação (entre outros) sem mexer na estrutura de privilégios de uma estrutura tributaria regressiva é retirar direitos duramente adquiridos pelos mais pobres nos últimos anos? Você acha que é um absurdo jogar a polícia de choque nos estudantes quando a polícia não os protege da violência urbana?

O meu ponto aqui é que tanto faz, pois todas as pessoas têm direito, em uma sociedade que se diga democrática, à sua opinião. Mais ainda, que a falta de respeito a opiniões diferentes tem implicações dramáticas de busca de um ‘monolítico moral’ na sociedade indesejável, pois não democrático. Como John Rawls já nos explicou devemos abrir mão de ‘doutrinas abrangentes’ em democracias em prol da pluralidade de vozes. Isso não quer dizer que você não tenha sua opinião, nem que não a defenda, mas que não considere um ‘idiota’ outra pessoa apenas por ter uma opinião diferente.

O fenômeno brasileiro no contexto das ocupações é uma pequena manifestação de um problema mais geral das sociedades contemporâneas de distância social. As razões para isso têm sido discutidas por sociólogos e filósofos como Richard Sennett no seu “A Queda do Homem Público” no qual ele mostra como a vida nas cidades tem nos privado do convívio com ‘diferentes’ (o que tem nos tornado mais sectários) ou então nos “Tempos Líquidos” de Zygmunt Bauman que explica a racionalidade de reagirmos com agressão a argumentos diferentes dos nossos. Diana Mutz no seu “Escutando o outro lado” mostra com estatísticas como acabamos falando apenas com iguais, evitando argumentos diversos.

Não vou comentar exemplos ou instâncias especificas desse discurso de ódio que tenho visto (nem um que me envolve ao assinar uma carta de professores do departamento de apoio ao direito de ocupação dos estudantes). Mas saliento seus elementos analíticos. Assim, quando sua critica é do tipo ‘geral’ (os petralhas, os coxinhas, etc), ou quando ela ‘demoniza’ o adversário, imputando a ele(a) motivações que você não tem como comprovar, ou quando você procura desqualificar o diferente, colocando alguma característica que o/a desabona, ou quando oferece uma análise desengajada sem nem citar o argumento oposto….bom, quando faz tudo isso, em maior ou menor grau está cometendo um discurso de ódio (ou ‘hate speech’). Se tem cheiro de ódio, gosto de ódio, cara de ódio, barulho de ódio, textura de ódio….comece a suspeitar que pode ser ódio.

Não se sabe se a frase mais famosa de Voltaire foi realmente escrita por ele. Mas seja como for, nunca ela foi tão necessária:  “Eu não aprovo o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dize-lo”. Seja de que lado você estiver sobre a questão das ocupações, pense se não está fazendo um discurso de ódio. Procure enxergar o outro como seu amigo(a), veja se isso mudaria algo. A verdade simples é que não há verdadeira solução (uma que seja estável, pois envolva o consenso) sem diálogo. Se lutamos por alguma causa justa não faz sentido ser injusto com os outros.

Discussão de um pai de aluno insatisfeito com um professor

Two men shaking hands

Professor, seu ensino está ruim,

o senhor não dá conta do recado;

o meu filho está mal orientado,

Nada vai aprender com mestre assim.

Desse jeito a escola terá fim,

E o futuro estará comprometido.

Seu salário mensal é garantido,

Mas as suas lições estão sem brilho,

O senhor bota a culpa no meu filho,

Posição que pra mim não faz sentido.

 

Mas seu filho é bastante encapetado,

Chama todos na sala de maluco.

Não me venha dizer que não educo,

Quando ele é quem é mal-educado.

Você mesmo talvez seja o culpado

De o menino ser pobre de valor

E da escola ser quase um desertor.

Tem um dia que falta, outro que atrasa….

Se você não comanda a sua casa

Não me venha cobrar do professor.

 

Mas você é quem está no meu lugar,

Responsável por sua educação;

Se eu entrego o meu filho em sua mão,

De você é de quem devo cobrar.

Você pode querer me tapear,

Ou então pôr a culpa no sistema.

Eu não quero saber do seu dilema

Nem das pedras que tem no percurso,

Todo fraco repete esse discurso

Quando quer ficar fora do problema.

 

Meu amigo, você não compreende,

Hoje ser professor é estressante.

O aluno não acha interessante.

É por isso que a aula pouco rende.

A família de mim ainda depende,

O patrão todo dia faz manobra,

Quando um lado critica, o outro cobra

E eu me perco no meio das cobranças.

Estou quase perdendo as esperanças

E é problema o que tenho aqui de sobra.

 

Nesse mundo, problemas todos têm,

E é besteira o senhor querer fugir;

Acho muito mais fácil reagir,

Procurar melhorar, fazer o bem.

O meu filho será homem também,

E o desejo que esteja preparado.

Se ele agora for mal orientado

Será vítima fatal das frustrações.

Se ele não receber boas lições

Não dará (nunca) conta do recado

 

Do meu tanto você nunca sofreu,

Mas ficar solidário eu também venho;

Se você tem razão, eu também tenho,

Esse seu sacrifício é também meu.

Sei que a sua esperança não morreu,

E eu ainda acredito em uma ação

Como fruto da participação,

Porque nós, companheiro, compreendemos

Que somando os esforços poderemos

Transformar o problema em solução.

 

Poema feito por Antônio Lisboa e Moreira de Acopiara, cordelistas, publicado no Relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil, 2009/2010 sobre “Valores e Desenvolvimento Humano”.

A PEC, o bode, a carochinha e a mulher de césar

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O debate PEC vs não-PEC é falacioso. Os defensores do ‘bode na sala’, de que ‘não há alternativa’ além da austeridade fiscal, de que ‘estamos vivendo o caos’, de que ‘precisamos evitar o pior’, estão parcialmente corretos em apontar para a insustentabilidade dos déficits fiscais da história recente do país. Mas parecem equivocados em dramatizar e simplificar o problema das contas públicas e em escolher 2016 ou 2017 como ano-base, ignorando seus impactos distributivos. Por outro lado, os defensores das políticas da carochinha (no bom sentido!), de que apenas a vontade política seria suficiente para mudarmos o destino do país e sermos ‘felizes para sempre’ estão parcialmente corretos em apontar para a consequente atrofia das políticas públicas sociais proposta pela PEC 241, mas parecem equivocados em ignorar de todo a questão das finanças públicas como se não houvesse a necessidade de nenhuma restrição orçamentária nas contas públicas (coisas do mundo real….).

O bom senso sugere que sim há que haver algum tipo de controle de gasto, mas que não podemos julgar de maneira grosseira a realização dos gastos como se dela não dependessem vidas. Em particular, devemos separar os que são ‘fins’ do que são ‘meios’ do desenvolvimento. Essa PEC trata o desenvolvimento como se ele se preocupasse apenas com os ‘meios’ independentemente de seus ‘fins’. Se o governo brasileiro não serve para melhorar a saúde e a educação de sua população, para que serve? Há inúmeros estudos clássicos (como o World Development Report de 2004) que mostram como o crescimento econômico é condição necessária mas não suficiente para uma melhor provisão de bens públicos na sociedade. Nossas estatísticas de desenvolvimento como o IDH mostram que muito ainda precisa ser feito nessas duas áreas. A sociedade brasileira deveria ter planos para investir mais e não menos nessas áreas mesmo que se preciso fosse tivesse que tirar dinheiro de outras áreas.

O que parece estar acontecendo é que para não mudar a maneira como as estruturas de governo gastam os recursos públicos, para evitar um debate sério sobre o que se gasta, onde se gasta, para quem se gasta, o governo está colocando uma medida que mais faz ver que se corta gasto sem mexer na estrutura da máquina pública que realiza esse gasto: é a distorcida máxima da ‘mulher de César’: é preciso parecer honesta! Agora, é preciso parecer que estamos diminuindo gastos mesmo que não estejamos fazendo nada de concreto para isso. (não quero ser injusto com técnicos do governo que devem estar seriamente trabalhando na mudança da máquina tributária e orçamentária, é apenas que isso não vem como o principal do ajuste fiscal)

Mas então, o que fazer? Sugestões como a de Jolanda Battisti, da FGV, de que se poderia ter uma PEC 241 modificada por um prazo de 3-4 anos, que fosse parte dos próximos debates eleitorais presidenciais, parecem fazer muito sentido. Similarmente, uma PEC 241 modificada que salvaguardasse gastos com a saúde e a educação também parece razoável. A principal questão está longe de ser o ‘sim’ versus o ‘não’ dado que uma medida de ajuste fiscal é uma necessidade de responsabilidade, mas sim o ‘como’ e ‘quais’ as consequências distributivas dessa medida. No entanto, muito pouco se falou sobre isso e é muito provável que esse debate seja infrutífero revelando apenas a convicção de cada um sobre a importância ou não da austeridade fiscal para o desenvolvimento do país. Onde estão os pobres, as crianças, os doentes, os professores, os médicos e enfermeiros nesse modelo de gestão proposto pela PEC 241? Precisamos falar dos impactos distributivos dessa PEC, me desculpem os que apenas conseguem ver as implicações agregadas.

Reforma do Ensino Médio: um caso de ‘planejatite atrófica’?

 

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Os sintomas são comuns: políticas com pouco ou nenhum debate público; sem uma estratégia; sem um horizonte de realização temporal; quase sempre uma carta de ‘fins desejados sem os meios necessários’; curto-prazistas; de implementação ignorada; estruturadas em um modelo top-down e com baixo grau de institucionalização. A Reforma do Ensino Médio proposta essa semana parece mais um caso de uma das principais doenças que afeta a política pública brasileira: a planejatite atrófica!!

Em poucos dias muito já se falou sobre a Reforma do Ensino Médio anunciada essa semana. Ela contém alguns aspectos positivos como o aumento da carga horária de 800 para 1400 horas e uma maior flexibilização do currículo. De fato, é imperativo que mudemos nosso discurso sobre escola integral no Brasil e reconheçamos que ‘escola integral’ não deveria ser a exceção, mas a norma. Ou em outras palavras: temos no Brasil uma escola ‘pela metade’ com 4-5 horas (formais, porque na prática é bem, bem menos) de aula por dia quando deveríamos, como faz o resto do mundo, ter uma escola de 7-8 horas. Mas nunca fizemos isso, talvez como sintoma da planejatite atrófica, pois para colocar todas as crianças na escola com metade dos recursos necessários criamos os cursos de meio-turno, colocando um peso injusto principalmente nas famílias mais pobres que não têm para onde enviar os seus filhos no contra-turno e que frequentemente não tem condições de ‘educarem’ seus filhos, ajudando com os temas, como outras famílias de classe-média fazem (ou não, o que explica também a queda do desempenho de alunos das escolas privadas em avaliações nacionais recentes).

Flexibilizar o currículo é reconhecer os/as alunos/as como agentes, como indivíduos que têm interesses e um certo grau de autonomia para julgar o que é melhor para eles. Mas essas escolhas têm que ser limitadas pois a escola não deve servir apenas para satisfazer interesses privados, ela não é um ‘passa-tempo’, mas um meio de socialização (humana e cognitiva) fundamental para a coesão da sociedade e para a criação de um ‘ambiente de igualdade de oportunidades’. A escola não forma apenas capital humano para o mercado, ela forma cidadãos/ãs.

Essas duas características acima parecem positivas. Mas a planejatite atrófica não deixou o governo pensar em um horizonte de planejamento para a construção dessa nova escola. Ignorou tanto a construção literal (pois mais escolas precisam ser construídas) como a construção pedagógica (deve competir à classe do magistério estruturar essa flexibilização curricular). Tampouco deixou, de modo transparente, claro de onde vão sair e qual a magnitude dos fluxos financeiros necessários para a realização desse programa, mais um sinal da planejatite atrófica!

Tratou o problema (do baixo desempenho dos/as alunos/as do ensino médio) como se fosse uma questão educacional isolada que fosse independente do ensino fundamental. Tomemos o caso da matemática: o problema é que 90% dos jovens que terminam o ensino médio saem sem os conhecimentos adequados de matemática. Então, ‘vamos mudar o ensino médio para que isso não aconteça, certo?’ Errado! Já no 4a ano, 64% das crianças vão mal na matemática um problema que se nota também no exame internacional PISA (com jovens de 15 anos, que em tese deveriam estar terminando o ensino fundamental) no qual o Brasil ficou em 58o lugar na última edição (entre 65 países) com 67.1% dos alunos com baixo desempenho. A matemática se constrói da base, o melhor investimento, como já diria o Professor James Heckman, é o inicial, pois ele é o mais produtivo. Pouco adianta tentar ensinar o complexo se o simples não foi apreendido.

Questões estruturais são normalmente olimpicamente ignoradas pela planejatite atrófica. Para que se preocupar com o fato de que nossos professores ganham apenas 50% do que ganham professores em outros países mais desenvolvidos? Para que se importar com o fato de que 40% deles tem um segundo emprego no Brasil? Por que estressar com o fato de que alocamos para alunos/as do ensino fundamental apenas 30% do que recebem alunos de países desenvolvidos como investimento? Melhor focar naquilo que não custa muito, ou que custa, mas não sabemos bem quanto. Claro que o aprendizado não é uma função linear do gasto, mas não se pode usar isso para minimizar o fato de que precisamos investir mais na educação. Melhor focar na esperança de que ‘pessoas de notório saber’ vão querer dar aula? Sério?? Melhor não discutir a debandada da profissão que está acontecendo em alguns estados brasileiros ou do fenômeno do adoecimento dos professores. Mas quem está doente é a nossa política pública: planejatite atrófica, sem erro, levando à atrofia do nosso futuro!

 

Impeachment ou Golpe?

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Foi um erro histórico. O impeachment não deveria ter existido. Fui contra, sou contra. Mas também não acho que podemos chamar de golpe, pois teve um rito processual que é característico de democracias, incluindo uma forte participação popular no início. O rito, no entanto, não garante que tenha sido justo. Não é que os tais ‘crimes de responsabilidade fiscal’ não tenham acontecido. Acho que aconteceram e foram bem caracterizados. Mas entendo que eles são ‘crimes’ menores no sentido da palavra (são ‘políticos’ mas que morais, no sentido Rawlsiano), comparado a outros crimes na administração pública. Faltou a materialidade necessária para a caracterização de um ato que levasse à perda de mandato de uma presidente da república .

O que por outro lado não quer dizer que as coisas estivessem bem. Acho a expressão ‘estelionato eleitoral’ também forte, mas que estatísticas foram manipuladas, controladas, etc, sim que foram, e isso foi e é um grande risco à democracia. De fato, eu vivenciei parte desse controle quando trabalhei para o Sistema ONU e isso sempre me preocupou como cidadão. Também não podemos dizer que a corrupção na Petrobras e em outras empresas estivesse bem. Isso foi e deve continuar sendo escandaloso seja de que partido você for. Me preocupa a indignação moral seletiva, mesma que ela seja motivada por causas que sejam justas para a gente. É preciso reconhecer as coisas erradas de modo imparcial, sejam ou não elas em nosso benefício.

Essa corrupção não foi somente do PT e é claro que o impeachment nasceu de um jogo de forças políticas que se reacomodou fora dos arranjos eleitorais. Entendo que é essa característica que as pessoas chamam de golpe; discordo da denominação, não do fenômeno. Também acho que houve uma aplicação de lei seletiva ao PT que não houve para outros partidos. Vivemos uma situação de ‘para os inimigos a lei’!!

Por outro lado não compro o argumento de que para existir democracia, basta existir votos. Democracia é muito mais do que isso. Os votos são apenas parte do arranjo de legitimidade e confiança que tem que haver para que governantes possam governar. A manipulação das estatísticas associada à mudança dramática de política econômica (duramente criticada nos outros candidatos durante as eleições) em um ambiente de profunda corrupção fez com que a legitimidade dada pelos votos não fosse suficiente para governar em um ambiente de crise fiscal e financeira. Simples assim. Mas no regime presidencialista essa perda de legitimidade não leva a uma mudança automática de governo, por isso, apesar de seguir os trâmites democráticos, a presidente não deveria ter sido ‘impichada’, na minha opinião.

Entre Utilitaristas que defendem que tenha sido bom a saída da presidente em função das consequências (econômicas) nefastas de sua permanência e Kantianos que olham com horror a sobreposição dessas consequências a direitos democráticos, acho que temos que reconhecer que estamos no pior dos mundos. Principalmente levando em conta que o mesmo parlamento que julgou a presidente não pode ser elogiado por seus princípios morais. Ficamos sem uma coisa nem outra e acho que vamos passar por uma onda de conservadorismo político e econômico muito prejudicial ao Brasil e à sociedade. Mas para superarmos isso as forças progressistas devem aceitar as lições da história: devem aceitar que a esquerda sucumbiu à mesma corrupção que criticava; devem aceitar que a esquerda manipulou estatísticas para parecer que tudo estava bem (mesmo que se reconheça como é difícil viver com uma imprensa nacional conservadora); devem aceitar que o que aconteceu não foi apenas um golpe, mas um movimento que representou uma tensão no tecido social provocada pela exclusão das classes médias do imaginário e ideário político das esquerdas. Ao meu ver é apenas a partir de um realismo político que as forças progressistas vão conseguir avançar; caso contrário ficarão presas a um passado que agora é somente isso, ‘passado’, sem capacidade de repensar o futuro.

Respondo assim aqui ao que eu disse aos professores Amartya Sen e Martha Nussbaum no encontro da Human Development and Capability Association quando perguntado sobre o que eu achava do impeachment da presidente Dilma. Engraçado que ao perguntar via surveymonkey aos meus amigos de facebook o que eles acham que eu teria respondido (o que fiz antes de escrever esse artigo) gerou: 32% acharam que eu teria respondido ‘foi golpe’, 34% que ‘não foi golpe’ e 34% ‘outra alternativa’. De certo modo todos acertaram, ou todos erraram (ou os últimos 34% ‘acertaram mais’). Mas a nossa sociedade, como um todo, errou ao fazer o impeachment. Essa é somente a minha opinião, não acho que ela valha muito, é apenas o que consegui entender sobre o que passou até agora.