Ao DD (dia do Duílio)

 

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O facebook nos convida diariamente a enviar aquele ‘parabéns’ rápido as pessoas que desfilam na lista dos aniversariantes. Algumas vezes essas linhas cumprem com maestria protocolos de civilidade. Muitas outras vezes, no entanto, as poucas linhas que possamos escrever apazigua nosso breve momento de tristeza de não estar perto de pessoas queridas. Frequentemente, esse espaço é inadequado. Foi o que eu senti hoje ao ver que era aniversário do meu querido Mestre Duílio (bom, tecnicamente falando ele é PhD, mas falo em ‘mestre’ como uma expressão carinhosa).

O Professor Duílio foi o meu professor de Introdução a Economia I, lá em 1984. Mas ele foi muito mais do que um mero professor de introdução a economia. Já corria a fama, antes mesmo de eu me matricular, que as pessoas sofriam muito no seu curso, que tinham que ler muito, que ele era muito exigente, que poucos, ou quase ninguém tirava 10 no seu curso. Lembro do meu primeiro dia de aula com ele no qual muitos de nós entramos totalmente apavorados na sala-de-aula. E o que vimos? O terror? O desespero? O medo? Não, vimos o amor…..O amor de alguém que falava com paixão sobre a teoria econômica, o amor de alguém que usava a mesma teoria para dar sentido ao mundo ao seu redor, o amor, transformado em humor, que dá graça à vida. Lembro da minha primeira aula como uma experiência revolucionária. Foi um ‘kabum!!’

Sabe aquele momento na vida em que você vê algo que dá sentido à sua vida? Pois bem, a ‘aula do Duílio’ fez isso comigo, assim como fez com tantos outros. Leve em consideração que meu pai era economista e a minha mãe tinha estudado economia (ainda lembro de ler textos de economia para a minha mãe enquanto ela lavava a louça do jantar). A economia não era de toda estranha para mim quando decidi fazer economia. Mesmo assim, a ‘aula do Duílio’ re-significou a ideia de ser economista para mim.

No final do curso, percebi que todos os boatos, tudo o que diziam…..eram a pura verdade! Nunca li tanto na minha vida (até aquele momento), nunca trabalhei tanto fazendo listas, sofrendo para entender alguns conceitos complexos já para um aluno de primeiro semestre, lendo a história do pensamento econômico como ela era, a microeconomia, a macroeconomia, os fundamentos de uma disciplina que moldaram não somente futuros interesses meus e de meus colegas mas que instilaram em todos nós valores de pluralismo metodológico e tolerância que sempre marcaram (com muita ironia, é verdade) as posições do Duílio. Demorei quase dois anos estudando economia para aprender coisas verdadeiramente novas além do que o Professor Duílio foi capaz de nos ensinar em um semestre.

O conhecimento, no entanto, é perecível, mas os valores que ele nos deixou como alunos, bom, esses, pelo menos para mim, foram marcantes. O valor da excelência, de ter orgulho de saber o que você fala, o valor do uso do raciocínio, de descobrir o que vai além das aparências, o valor do humor, de mostrar que a vida com suas ironias (e como a economia não é uma das maiores ironias da humanidade?) é muito mais divertida, o valor do estudar duro, o valor da competência, entre outros, todos foram estimulados na ‘aula do Duílio’. São valores que somente podemos honrar trabalhando para chegar perto, pois de fato estão longe do nosso alcance. Para isso faz falta talento, um talento que poucas pessoas como o Duílio têm igual.

Então ao invés de desejar somente um ‘feliz aniversário’ eu queria propor que o dia 8 de julho fosse o DD – o dia do Duílio, e desses valores que ele carrega por onde passa e que faz com que o mundo seja um lugar com mais esperança para se viver.

 

PS: anos depois quando o Duílio foi nosso professor de Economia Política e nos reuníamos aos sábados pela manhã para ler o Marx, ví na casa dele uma edição do Asterix em uma linguagem muito estranha, o catalão….

O dia da matemática?

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A qualidade da nossa educação matemática está na 136a posição segundo dados do Fórum Econômico Mundial. Já no 3o ano do ensino fundamental 57% dos alunos não tem o nível adequado de matemática (ANA, 2014), passando para 64% dos alunos no 4o ano (UNESCO, 2014) e chegando a 90.7% no final do ensino médio (SAEB, 2013). Ou seja, começamos a ‘desaprender’ matemática desde cedo. Se somos um desastre no ensino da matemática, por quê deveríamos celebrar o dia da matemática?

Pior: a matemática hoje é um fator de humilhação, de incapacitação, de erosão de auto-estima, de nossas crianças e jovens. A matemática, como é ensinada, não apenas nas nossas escolas públicas, é responsável pelo exército de ‘analfabetos funcionais da matemática’, como mostrou a  Pesquisa Instituto TIM/Círculo da Matemática sobre a matemática dos adultos. Então por quê celebrar aquilo que nos faz sofrer? Por quê destacar aquilo que nos faz menos?

A resposta é simples: a matemática que nos oprime também é a que pode nos liberar; a matemática que promove a desigualdade (pois pouco mais de 20% das mulheres no Brasil entram em profissões que precisam de matemática), também pode gerar justiça social; a matemática que exclui os alunos/as da escola, é a que pode gerar inclusão; a matemática que atrofia o crescimento econômico (40% da baixa produtividade da nossa economia é explicada pela baixa nota do Brasil no teste PISA com jovens de 15 anos) é a que pode criar um novo futuro para todos com futuras gerações mais produtivas. Mas a matemática não é importante apenas para o mundo que vivemos, ela é importante também para o mundo que queremos construir, com mais cidadania, com pessoas que entendam melhor o mundo onde vivem, onde os números dos noticiários representem algo para elas.

Não há futuro para o nosso país sem investimentos expressivos em educação de qualidade. A matemática está no centro da busca por essa melhoria de qualidade. Devemos celebrar o dia da matemática como quem celebra o dia de nossa independência, pois esta nela efetivamente a nossa independência: a independência da pobreza, de desigualdade, dos baixos salários, da indiferença política, do ethos subdesenvolvimentista, das pedagogias educacionais abstratas que não preparam os professores para as salas-de-aula e de políticas públicas que não empoderam efetivamente as pessoas. Parafraseando Manuel Pina, que dia não será aquele em que transformarmos nosso 0 (zero) em matemática no ‘Oh!!’ mais bonito, do sonho mais fraterno de uma sociedade mais justa?!?

Robin Hood, Dilma e o Impeachment

 

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Relutei muito em escrever sobre o processo de impeachment, pois continuo tendo mais dúvidas do que certezas. Relutei pois sei que vários amigos/as que respeito e admiro e que têm posições fechadas vão reagir com desdém ao que vou escrever. Relutei porque em uma luta que tem lados, eu não estou de lado nenhum, e isso pode ser visto como uma confissão de ignorância ou de inocência. Que o seja.

O segundo governo da presidente Dilma é afetado por uma característica que eu gostaria de chamar de ‘Robin Hood’, a qual nos diz, que no fundo, questões éticas e morais se sobrepõem acima da lei. O meu ponto aqui é que se não reconhecermos essa característica Robin Hood, ficaremos presos à incompreensão mútua. O Robin Hood violava a lei, mas como moralmente ele defendia uma questão justa, ele representa o lado certo da história. Em relação à presidente Dilma me parece que duas interpretações são possíveis. Para seus defensores, ela pode ter violado a Lei de Responsabilidade Fiscal, e mesmo eleitoral, mas como essa tem sido a prática comum não somente no seu governo mas em outros, ela não teria violado moralmente nenhuma regra e por isso não se aceita que a ‘lei seja aplicada apenas aos inimigos’.

Do lado dos seus críticos, ela mentiu para ganhar a eleição (por exemplo, dizendo que não iria fazer um ajuste fiscal e fazendo-o depois), e a partir daí as pedaladas fiscais ou qualquer outro argumento (como o processo que corre no TSE) são apenas detalhes legais de uma condenação que parece ser acima de tudo moral. Nos dois casos, os aspectos formais e legais parecem ser o que menos importam, dado que os julgamentos parecem ter uma fundamentação moral. Por isso a base legal de qualquer parte dos argumentos adversários será considerada arbitrária e negada por quem não compartilha a moralidade particular que os fundamenta.

Talvez possamos concordar que chegamos onde chegamos por várias fraquezas institucionais. A primeira é que há tempo o financiamento de campanhas eleitorais é feito por práticas pouco republicanas, envolvendo caixa 2 para campanhas politicas e uma corrupção secundária que enriquece quem abastece esse sistema. A segunda é que irregularidades de campanha deveriam ser julgadas na campanha ou logo após, pois a divulgação e consolidação dos resultados torna as opiniões contrárias subsequentes contingentes aos próprios resultados. Estar discutindo um ano depois de uma eleição se seu financiamento foi ilegal, com um governo em curso, é parecido com alguém que critica uma prova pois não foi bem nela. Discutir procedimentos depois dos resultados é o caminho da parcialidade, contrariando o principio, tão bem posto pelo filósofo John Rawls, de que uma ignorância sobre resultados é importante para a garantia de imparcialidade nos nossos julgamentos sobre os processos que os causam.

A terceira é que vivemos em um ‘presidencialismo parlamentarizado’, que não é uma coisa nem outra. Se estivéssemos em um regime parlamentarista já teria ficado claro que a presidente deveria cair pois tem poucas condições de governar. Se estivéssemos em um presidencialismo efetivo a presidente não estaria tão exposta, pois não seriam necessárias tantas concessões e corrupções que formam esse sistema de ‘é dando que se recebe’ que manda na política brasileira. De certo modo estamos nessa situação pela inabilidade ou impossibilidade de nossos políticos no passado estabelecerem um regime consensual de governo que fosse uma coisa ou outra.

Para Robin Hood os fins justificavam os meios. Assim, como o fim era ajudar e fazer justiça aos mais pobres, tanto fazia roubar, matar ou o que fosse. Para os defensores da presidente, parece claro que um partido que fez tanto para dar voz aos mais pobres através de vários aspectos da política pública não deve ser penalizado pelos meios que utilizou, pois seus fins são nobres. Para os seus críticos tudo parece uma grande demagogia pois a melhoria da vida dos mais pobres advém de um gerenciamento responsável dos meios. Há um conflito sobre meios e fins do desenvolvimento subjacente ao conflito de moralidades.

Para os defensores da presidente os meios são um detalhe, como a expansão fiscal insustentável. Para os críticos da presidente, os meios são tudo. Os primeiros parecem ignorar a importância dos meios, os segundos parecem ignorar a importância dos fins. Explico: se ignorarmos os meios, nos resta contar somente com o consequencialismo (onde avaliamos a desejabilidade das ações apenas pelas suas consequências, ignorando por exemplo, direitos). Mas isso traz uma visão muito limitada da política. Se eu não aceito a implantação de um regime ditatorial (militar ou não), mesmo que fosse ‘bom’ em termos de resultados’, por que deveria julgar se o impeachment é bom ou não pelos seus resultados? O que é certo e o que é errado moralmente continua sendo, mesmo que traga consequências boas ou ruins. Por outro lado, focar apenas na responsabilidade fiscal, na transparência, na liberdade individual sem se preocupar com os fins é como focar na saúde de um corpo sem alma (sem discutir a racionalidade dos fins).

Mas o pior é que mesmo que fôssemos consequencialistas, nada faz sentido. Acredito assim que qualquer análise consequencialista do impeachment nos ajuda muito pouco. Nesse campo, não acredito que quem quer que substitua a presidente Dilma, na eventualidade de seu impedimento, terá condições morais favoráveis para a realização de um governo minimamente funcional. O vice-presidente Temer está dentro demais de todo o processo político contemporâneo para escapar ileso de um impeachment da presidente. O resto da linha sucessória é formada por pessoas que estão sendo investigadas em processos diversos. Similarmente, ninguém que se destacasse em uma nova eleição, construída a partir de uma situação de tamanha exceção, conquistaria legitimidade suficiente para governar. De fato, fico intrigado, por que alguém com boas razões para governar teria interesse em ser presidente nesse momento tão negativo do país e de sua economia? Fica a suspeita de que somente por razões não-declaráveis publicamente.

Nossas convicções morais, como tão bem ilustra Joshua Greene, no seu livro ‘Moral Tribes’ são formadas por convicções e hábitos que precisam ser questionados em face de grandes controvérsias morais. Nesses casos, não podemos seguir com nossos instintos, mas abrir espaços para fatos e evidências que mostrem onde podemos estar errados. Nossas ‘leis morais internas’ podem explicar porque nos sentimos confortáveis dentro de nossas tribos. Mas elas levam ao conflito como modo de interpretação do outro, à negação da alteridade. No meu caso particular, não tenho respostas, não tenho certezas em relação à questão do impeachment. Mas acho que o primeiro ponto para avançarmos seria reconhecer que enfrentamos questões morais de primeira ordem sobre a credibilidade de governantes, sobre a finalidade da politica, sobre a importância de um mínimo de honestidade não somente na vida pública, mas na vida privada e sobre como aterrissar reflexões em encaminhamentos institucionais para que possamos transformar o Brasil em um lugar menos pior para se viver. Precisamos superar os entraves das convicções ‘Robin Hood’ se quisermos continuar sonhando em um dia sermos uma nação minimamente civilizada.

 

 

Da porta do inferno ao paraíso: como dar vida à matemática em sala de aula?

A porta do inferno de Dante

Conta Dante Alighieri na sua ‘Divina Comédia’ que ao chegar às portas do inferno se deparou com a inscrição: “abandone todas as esperanças, você que entra aqui”. Ao entrar no ‘inferno de Dante’, as pessoas eram punidas com um estado de apatia e indiferença em relação ao certo e errado. O destino dos que ingressavam no inferno era a perda de todo bem intelectual. Pessoas despidas de seus julgamentos mais íntimos eram condenadas a vagar no império das lamentações.

Exagero? Pergunte à maioria dos mais de 8 milhões de estudantes do ensino médio no Brasil o que eles pensam da matemática e não somente pelos resultados da última avaliação do Ministério da Educação (na qual mais de 10% concluíram o ensino médio sem o aprendizado adequado de matemática) mas pelo alto grau de evasão que já começa no ensino fundamental, podemos imaginar como muitos se sentem em relação as aulas de matemática. As evidências internacionais (veja por exemplo David Souza no seu “How the brain learns mathematics” de 2014) são que as crianças pequenas amam matemática, mas que aos poucos vão deixando o paraíso dos números para entrarem no inferno da matemática tradicional. Por quê a escola, ao invés de alimentar a paixão pela matemática (“a invenção mais bonita da humanidade”, como diriam alguns matemáticos como Bob e Ellen Kaplan, do Math Circle da Universidade de Harvard) acaba criando traumas e promovendo a ‘ansiedade matemática’ e ‘ameaças por estereótipos’?

O inferno: a matemática que morreu

Os especialistas em educação matemática, como Jo Boaler (2008) no seu livro “What’s Math Got to do with it?”, são categóricos: o ensino da matemática não funciona quando é excessivamente formalizado, fundamentado na obediência rígida a regras, procedimentos e ‘decorebas’ (como a tabuada). Aulas tradicionais de matemática baseadas em fórmulas reduzem o estímulo a pensar do aluno diminuindo o sentido daquilo que fazem, gerando frequentemente incompreensão e frustração. De fato, como argumenta Paul Lockhart (2009) no seu livro “A Mathematician’s Lament”, muito do que vemos nas escolas é a prática de dar as respostas junto com as perguntas, sem dar às crianças e jovens a oportunidade de pensar sobre os conteúdos. Assim, quando as crianças aprendem geometria elas são levadas ao cálculo de áreas e memorização de fórmulas ao invés de aprender o sentido da relação entre áreas através de perguntas postas a elas. A matemática assim é apresentada ‘morta’ às crianças: não como um processo de descoberta, onde se pode chutar, errar, conjecturar, argumentar, duvidar e discutir mas sim como um caminho já sedimentado fundamentado em um modelo de aprendizado que impõe a memorização de conteúdos que frequentemente não são devidamente discutidos.

Há uma ênfase excessiva na promoção de habilidades de cálculo e de precisão no ensino da matemática as custas de outras habilidades como o desenvolvimento do sentido dos números (chamado em inglês de ‘number sense’) e da capacidade de se fazer estimativas. Dou um exemplo pessoal. Outro dia estava lendo um problema que pedia que se calculasse a soma aproximada de [12/13 + 7/8]. Como qualquer soma de frações, ainda mais com um número primo envolvido, a minha primeira reação –representativa daqueles que aprenderam matemática dentro dos cânones tradicionais- foi pensar no ‘mínimo múltiplo comum’. Parar, pensar, multiplicar 13 x 8 e chegar a 104, para no passo seguinte me dar conta que essa multiplicação foi desnecessária, pois ao dividir o ‘mínimo múltiplo comum’ pelo denominador dava o outro número. Pois bem, então 8 x 12 para o primeiro termo igual a 96 mais 13 x 7 para o segundo termo igual a 91. Parar, pensar novamente e somar 96+91 que é igual a 187 (não esquecendo que é dividido por 104). Pensei sobre o número 187/104 e ele não me disse nada. Então, resolvi perguntar à minha filha de 8 anos (que ainda não aprendeu o ‘mínimo múltiplo comum’) quanto era 12/13 + 7/8 e ela prontamente respondeu: “2, pois 12 é quase 13 e se fosse 13 daria 13/13 que é igual a 1 e por sua vez 7 é quase 8, se fosse 8 daria 8/8 que é igual a 1; então 1 + 1 igual a 2 – e sobra 1 de cada lado, disse ela”, como se jogando a pá de cal final…

A mesma matemática que pode nos fazer pensar, estimular o raciocínio pode nos prender ao mecanicismo de fórmulas que podem dizer pouco ou quase nada se não desenvolvermos a habilidade de questioná-las e refletir sobre elas. Dar sentido ao que se aprende é fundamental para a formação do raciocínio. A ênfase na memorização e obediência a regras pode gerar passividade, alienação, frustração e desapego à matéria. Pior, a matemática ‘morta’ não afeta somente a autoestima e confiança das crianças nelas mesmas (piorando na juventude), mas muito também como elas enxergam as outras crianças e desenvolvem estereótipos em sala. Além disso afeta os professores (principalmente os do primeiro ciclo do fundamental) que podem desenvolver uma atitude cínica em relação ao seu trabalho. Se estudantes apáticos, desengajados e professores desmotivados não é o inferno da educação, fica difícil pensar no que o seja. Mas como mudar essa situação?

O paraíso: a matemática viva

Como dar vida à matemática em sala-de-aula? Não é necessário nem desejável que exista apenas uma única abordagem que sirva a uma grande variedade de sistemas culturais e educacionais, muitos dos quais podem ser encontrados lado-à-lado em um país continental como o Brasil, como nos ensinou o Professor Ubiratan D’Ambrósio em publicações como (2001) “Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade”. Algumas abordagens tradicionais inspiradas em Piaget, como a de Constance Kamii (1982) no seu best-seller “A Criança e o Número”, podem funcionar tão bem como abordagens recentes, tais como a de Ian Loynd (2014) no seu livro “The Perfect Maths Lesson: totally practical”. Mas para que isso aconteça é preciso em todas elas que o grau de abstração das intervenções seja reduzido, na linha do que sugeriu Susan Gurganus (2004) no seu artigo “20 ways to promote number sense” e Bob e Ellen Kaplan no seu livro de (2008) “Out of the Labyrinth: setting mathematics free”. No Brasil, a abordagem dos Professores Kaplan deu origem a um projeto do Instituto TIM chamado “O Círculo da Matemática no Brasil”. É com base na experiência desse projeto que podemos argumentar que para tornar a matemática ‘viva’ é preciso:

  1. Perguntar, perguntar, perguntar

O ‘perguntar incessante’, como dizem os professores Kaplan, é importante por duas razões essenciais: primeira porque o objetivo da matemática não é (ou não deveria ser) transferir conhecimento per se, mas estimular o raciocínio. Para que isso aconteça não se pode dar a pergunta e a resposta juntas, pois isso mata a oportunidade de exercitar o raciocínio. Além disso, uma segunda razão é que ao dar a resposta cessa o mistério e o problema matemático deixa de ser um desafio, deixando portanto de oportunizar o engajamento das crianças. Mas cuidado, falar é fácil, o difícil é executar essa estratégia, pois para começar é preciso ser muito paciente, pois as crianças precisam de tempo para responder. Mais difícil ainda é se preparar para fazer perguntas estimulantes pois não existe uma receita pronta, tudo depende do contexto. As perguntas devem ser simples e no nível que os alunos possam entender.

  1. Reconhecendo todos por nome

Para que tudo isso possa acontecer é preciso primeiro que as relações pessoais em sala-de-aula sejam humanizadas. Perde-se tempo demais chamando a atenção das crianças em sala-de-aula e muitas vezes os professores fazem chamada por números sem bem saber o nome de seus alunos/as. Chamar as crianças pelo nome, respeitar suas respostas, reconhecer sua individualidade é fundamental para a criação de um ambiente de respeito onde todas as demais estratégias e princípios pedagógicos possam funcionar.

  1. Escutar, escutar, escutar

Mas não adianta perguntar, se não se está preparado/a para escutar. Na sala-de-aula frequentemente o ouvido do/a professor/a é a lousa. Use a lousa para registrar todas as respostas, principalmente as erradas. E não trate aquele aluno ou aluna que errou como menos importante, todas as respostas devem ser escutadas e registradas. Muitas vezes a pressa para cobrir os conteúdos e a ‘necessidade’ de formalização dos mesmos faz com que a qualidade do diálogo seja tratada como um objetivo secundário.

  1. Celebrando o ‘erro’

Errar é bom, é sinal que o pensamento está ativo, que algo se tentou. As crianças têm que sentir que na matemática errar faz parte do pensar. Não há demérito isso. Em outras matérias o ‘erro’ não parece tão grave, exatamente porque a matemática para funcionar demanda mais explicitamente o encadeamento lógico das ideias. Mas existem múltiplos e diferentes modos de se pensar e atrás de um erro pode haver um entendimento profundo de determinado problema. Usar o erro pedagogicamente e abolir o medo de errar da sala-de-aula são conquistas difíceis de serem obtidas, mas necessárias.

  1. Vale todo tipo de estratégia para incentivar a participação

Quando a matemática está ‘morta’ e as crianças estão distraídas ou agressivas é muito difícil trabalhar qualquer conteúdo. Por isso é essencial incluir! Fácil falar, se pode dizer novamente! O que pode ser feito? Na matemática, podemos formular perguntas das mais banais, do tipo: “qual é o seu número favorito?” ou “como você quer a máquina de funções?” (problema usado no Círculo da Matemática) até o uso sutil de questões acessíveis que possibilitem que aquelas crianças com mais dificuldade participem também. No momento em que a criança ‘desliga’ é preciso muita paciência para resgatá-la. Mas ter as crianças ‘ligadas’ é fundamental para o aprendizado.

  1. Mantendo a lousa viva!

Assim como o raciocínio, que tem que ser organizado mas não rígido, a lousa precisa de organicidade. Todas as respostas, principalmente as erradas devem ser registradas, de tal modo que as crianças possam usar a lousa como instrumento de auxílio ao pensamento, considerando possibilidades. A lousa deve refletir a lógica do pensamento para que a aula fique viva!

  1. Reconhecendo que a matemática é parte do viver

Na sala-de-aula as crianças aprendem mais que conteúdos, aprendem a viver e a se relacionarem com os outros. Que momento melhor para estimular a solidariedade entre as pessoas do que quando elas estão sendo postas a cheque? ‘Fazer’ matemática com as crianças em ‘um círculo’ significa que quando elas estão expostas a um desafio, uma pergunta qualquer, elas não estão sozinhas, mas podem contar com os outros. Para que as crianças fiquem livres para pensar, explicar, discutir, considerarem alternativas e errarem sempre quando preciso é importante que a estratégia de aprendizado seja coletiva. Caso contrário, o seu erro pode ser visto com o um atributo pessoal e aí a lógica da situação é evitar exposição.

Ficou tudo muito abstrato e você quer ver como funciona na vida real? Fica aqui a sugestão dos vários vídeos postados no Círculo da Matemática com Bob e Ellen Kaplan http://www.ocirculodamatematica.com.br/videos/. Trajetórias pedagógicas fundamentadas em problemas matemáticos, lúdicos, divertidos, mas que principalmente instiguem as crianças e respeitem pedagogicamente espaços de diálogo tolerantes ao erro são metade do caminho ao paraíso matemático. A outra metade vem de uma mudança de atitude do professor, que para dar ‘vida’ a sua aula de matemática precisa ‘mudar de metáfora’, como argumentam Ken Robinson e Lou Aronica no seu livro (2015) “Creative Schools” criando condições para um aprendizado engajado e cooperativo. Isso não exime o setor público e as famílias de suas responsabilidades. Mas que não se menospreze o poder dos professores de manter a matemática viva.

A sociedade sem matemática

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Na sociedade sem matemática, não há matemática nas aulas de matemática: fórmulas, decorebas, tabuadas e ‘continhas’ substituem o raciocínio matemático. Professores de escolas públicas, principalmente do primeiro ciclo do ensino fundamental, formados em abstrações pedagógicas infrutíferas e anacrônicas e currículos desidratados de pensamento matemático enfrentam ambientes violentos e indisciplinados e despejam conteúdos pasteurizados que devem ser repetidos pelos alunos, que por sua vez, não entendem sua razão de ser. Para piorar, professores entram nas aulas com medo de ensinar matemática e destilam ansiedade aos alunos, alimentando uma crescente fobia à disciplina e afastando os alunos da escola. Na sociedade sem matemática são reproduzidas discriminações raciais e de gênero através do ensino ‘diferenciado’. Na sociedade sem matemática floresce a falta de oportunidades, a desigualdade, a violência, a corrupção, o bolsa-família sem eficácia, a não-superação da pobreza.

A sociedade sem matemática não é proativa. Ela espera o problema acontecer e às vezes o nega, às vezes o ignora. A perplexidade e indignação pública perante o lançamento de cada nova estatística educacional são banalizadas e deixam de produzir qualquer pressão política devida. Na sociedade sem matemática há a trivialização dos problemas que são justamente os mais sérios. No entanto, a sociedade sem matemática não é uma condenação. Na sociedade sem matemática há que se enfrentar o óbvio e começar tudo do início, com base em evidências.

O Instituto TIM acaba de lançar um estudo sobre a educação matemática em 10 regiões metropolitanas no Brasil que escutou mais de 6 mil crianças, que foram testadas por uma prova criada pelos professores Bob e Ellen Kaplan do ‘Math Circle’ da Universidade de Harvard. Foram investigados também aspectos escolares e familiares. Cabe citar 3 mensagens positivas desse estudo baseadas em evidências que podem dar um norte à uma sociedade sem matemática:

  1. para os pais: o estudo concluiu que a influência direta da ajuda dos pais sobre o desempenho de crianças de escolas públicas (ajudando a fazer o tema) é pequena, o que pode ser explicado pelo fato de muitos pais, ou responsáveis, simplesmente não saberem a matemática ensinada às crianças. Mas constatou uma forte influência indireta dos pais sobre a motivação, o gosto e a opinião que as crianças têm da matemática, o que por sua vez fortemente determina o desempenho na matéria. Ou seja, para ajudar suas crianças, talvez baste ‘não atrapalhar’, não compartilhando sentimentos negativos sobre a matemática com elas.
  1. para os gestores públicos: é muito importante investir cedo no ensino da matemática, não deixando a matemática “para depois”, pois a idade é um fator contrário ao aprendizado a qual indiretamente influencia o gosto e opinião das crianças pela matéria à medida que segue seu tempo de permanência na escola. Ou seja, toda ênfase à alfabetização nos primeiros anos escolares não deve ser dada às custas do ensino da matemática.
  1. para as escolas e famílias: a indisciplina e inexistência de regras parece minar o processo educativo. O impacto de regras nas escolas e famílias se estende ao processo educativo. Regras simples como ‘hora de dormir’, ‘tempo de televisão’ em casa ou ‘pedir para ir ao banheiro’ ou ‘não interromper o professor’ na escola tem importantes impactos sobre o aprendizado da matemática.

Na sociedade sem matemática a educação não tem qualidade e analfabetos funcionais, econômicos e políticos sustentam estruturas arcaicas de poder, sucumbindo à corrupção e violência que florescem em meio à pobreza e desigualdade. Na sociedade sem matemática não há desenvolvimento tecnológico, humano ou econômico possível. Na sociedade sem matemática a tragédia se anuncia, mas ninguém parece se importar. Ou será que não?

Être, ou ne pas être Charlie, c’est ne pas là la question

As opiniões das pessoas sobre os atentados da semana passada em Paris se dividiram em linhas ideológicas previsíveis. Mais do que isso, moldaram seus julgamentos de modo a deixar pouco espaço para a tolerância e para o diálogo. Depois de uma semana lendo artigos e posts, parece que somente restou aos mortais escolher entre um dos dois campos: o do ‘je suis Charlie’ ou o do ‘je ne suis pas Charlie’. Ser ou não ser Charlie, eis a questão!?!?

Eu bem que me esforcei para simpatizar com um dos lados, de modo imediato, instintivo, sem pensar, como uma reação visceral, impulsiva (teria sido tão mais fácil!), mas não consegui. Inicialmente, confesso que me choquei com o ‘je suis Charlie’ pois conhecendo um pouco a revista, sempre a achei divisiva e duvidosa, de um humor muito obcecado com a questão religiosa, nunca foi uma revista que gostei muito. Mas depois entendi que o ‘je suis Charlie’ representava mais do que um apoio à revista ou mesmo uma simples demonstração de solidariedade à morte horrível de jornalistas: ao invés foi parte de um movimento pela liberdade de imprensa e de ideias -condição inalienável de qualquer sociedade democrática. Como então não ser Charlie?

Em certo sentido foi fácil entender as mensagens de ‘je ne suis pas Charlie’ se dirigidas aos atributos duvidosos da revista. Mas por outro foi difícil fazer sentido sobre como as pessoas que se sensibilizaram em relação a esse caráter ofensivo da revista (que não era somente contra os muçulmanos) não apreciaram o significado do valor da liberdade para a vida democrática. Quando ‘navegar na democracia é preciso’ não se pode transigir com a liberdade.

Mas qual liberdade? Será que a liberdade de ofender conta? Será que podemos ofender a quem desejarmos? Dentro dos monoblocos ‘être ou ne pas être’, quem saiu em defesa da liberdade se sentiu compelido mecanicamente a defender a liberdade de ofender. Mas essa liberdade não existe legalmente nem no Brasil nem na maioria dos países democráticos do mundo. Crimes de ofensa e calúnia existem assim como históricos de prisões por crimes de injúria. A liberdade negativa é fundamental para o exercício da democracia, como já dizia Isaiah Berlin. No entanto, as contradições se multiplicaram e pessoas de bom senso que enxergaram as limitações e provocações ‘do Charlie’ jogaram o valor das liberdades para debaixo do tapete; por outro lado os defensores (e defensoras) da liberdade ignoraram direitos civis (como o direito de não ser ofendido em função da raça, cor, gênero, etc).

O que parece marcar esse debate na minha modesta opinião é que todos conseguem estar errado em algum ponto. A linha ideológica que separa as pessoas apesar de distante parece tão frágil, e a rejeição ao campo oposto (sim, vindo de um mundo ‘shakespeareano’) é tão forte, que nada floresceu entre o mundo dicotômico do ‘être ou ne pas être’. O que floresceu foi o oportunismo político, o radicalismo (dos dois lados), a incompreensão, a visão parcial, incompleta das condições necessárias para uma tolerância democrática.

John Rawls tomou um ‘atalho’ ao excluir a religião das fontes de valores presentes nas sociedades liberais (e não dar qualquer papel as teorias abrangentes de valores), mas a religião é uma parte da vida que não tem como ser ignorada. Mesmo quem não tem religião acredita em fundamentos não-negociáveis para uma boa vida em sociedade (mesmo que não sejam metafísicos). No meu caso, confesso que como Católico sou ‘fraquinho’ (vou pouco ou quase nunca à igreja). Mas sinto que os ‘direitos humanos’ são a minha religião. Imagino qual seria minha reação aos cartoons do ‘Charlie’ se eu fosse muçulmano. Se meus valores fossem diferentes, baseados em princípios menos seculares e universais e mais religiosos. Seguramente não sairia matando ninguém, mas é provável que ficasse tão indignado como quando vejo alguém humilhar outra pessoa pela sua cor ou pela  sua pobreza ou o seu gênero. Como os amantes da liberdade podem não ver isso?

Adam Smith estava certo: a empatia (que ele chamava de ‘simpatia’) é fundamental para a construção das relações sociais. Ou como Martha Nussbaum diria, mais contemporaneamente, as ’emoções políticas’ devem ser baseadas em um círculo de entendimento amplo. Parece razoável supor que relações civilizadas entre as pessoas devem combinar liberdade e respeito. Qualquer mundo que mude esse frágil balanço está condenado a formas autoritárias de vida política e social. O que muda é apenas o tipo de opressão. Ser ou não ser Charlie, essa não é a questão.

O pior da derrota para a Alemanha

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Perplexidade. Descrença. Vexame. Vergonha. Humilhação. Seleção reduzida a pó. Fiasco. Demolição. A página mais escura. Suplício. Pranto. ‘Mineirazo’. As palavras usadas foram muitas. O sentimento de frustração, de decepção, de fracasso, estampado nas lágrimas dos brasileiros foi uma consequência de uma situação que surpreendeu a todos, até mesmo aos alemães. A dor associada ao que aconteceu, seja como queiramos qualificar, não deve ser ignorada. Mas não foi o pior que vimos.

Muitas famílias tem historias de vivência do ‘Maracanazo’ de 1950. O sonho de um Brasil diferente, vivendo um momento distinto, alimentou para muitos (principalmente para os mais velhos) a ilusão de uma compensação afetiva pela dor de nossos antepassados. Finalmente, uma nova Copa no Brasil. Não, não desta vez. Muita frustração, mas não foi o pior que vimos.

Muitos entenderam que os (talvez) R$30 bilhões gastos para a Copa eram um preço natural para trazer ao país e para seu povo a sua maior paixão, o futebol. Preços altos afastaram o cidadão comum dos estádios, mas mesmo assim, Fan Fests e o clima geral de festa parecia dar mesmo ao cidadão mais pobre o sentido de proximidade do evento. Os investimentos prometidos em infraestrutura se materializaram muito parcialmente, mas quando a bola começou a rolar, tudo passou a valer a pena pela paixão. A perda dessa alegria foi um golpe duro. Mas não foi o pior que vimos.

O pior que vimos, na minha opinião, foi ver os brasileiros deixando o Mineirão durante o intervalo do jogo. O mesmo povo brasileiro que acha bonito ‘cantar a capela’ que ‘verás que um filho teu não foge a luta’, saiu de mansinho, como se tivesse entrado no estádio para comprar um produto (que não foi entregue). O pior foi a vaia e os insultos no estádio ao time. O pior foram as brigas entre torcedores brasileiros ainda dentro do Mineirão. O pior foi a vulgaridade de nossos locutores que de um segundo a outro passaram de elogios infundados a críticas injustas do tipo ‘eu já sabia’. O pior que vimos foram ônibus queimados (18 em São Paulo e em Curitiba, mas os números são inexatos), torcedores alemães agredidos, briga e confusão em várias Fan fests (como na de Recife e de Salvador), tumulto nas ruas (como em Copacabana) e uma atitude de distanciamento do torcedor de sua seleção. O pior que vimos foi nossa incivilidade, nossa falta de resiliência, de solidariedade e o reconhecimento de que o verniz da nossa sociedade é muito superficial.

O pior que vimos também foi a marketização do evento ser introjetada nos ‘sentimentos morais’ dos torcedores e o ato de torcer (tão falsamente exaltado pelo marketing como razão para consumo) ter virado um ato de consumo -transformado em revolta pelo produto/serviço não ter sido entregue. O pior que vimos também foi o abandono imediato da mídia. De repente, todos aqueles comerciais, jingles, toda aquela poesia que nos acompanhava de modo intenso há três semanas, nos abandona, como um amigo que nos abandona no momento mais difícil, como se dissesse, ‘só queria me aproveitar de você enquanto me convinha’.

O pior que vimos é que tivemos que nos olhar no espelho. Dormimos com o Dr Jekyll (o médico) antes do jogo e acordamos com o Mr Hyde (o monstro): um Brasil onde quem organiza as relações sociais, incluindo o futebol, é o consumo e onde todos desejamos viver no melhor país do mundo, mas ninguém acha que tem nada a ver com isso. As pessoas saíram do estádio como saímos da vida cívica. Não vai ter eleição que cure isso. Não vai haver um ‘acordar para nossos problemas’. A única coisa que podemos aprender é que há ainda muito a aprender para melhorar a civilidade no nosso país. Isso deveria nos dar uma dor muito maior.