O que aprendi em 1 semana no Twitter

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No início achei o Twitter muito chato. Entrei lá em 2010. Fiz algumas postagens. Poucos conhecidos entraram. Não houve quase interação. Além do mais não havia (assim como continua não havendo) muito espaço para a elaboração das ideias. Sai. O Facebook ofereceu muito mais durante esse tempo.

Mas em quase 10 anos a realidade mudou. Não vou entrar aqui nas razões pelas quais o Facebook tem deixado de ser o que já foi. Tampouco elaborar muito o porquê de eu ter entrado no Twitter justo agora. Mas queria comentar 7 pontos que me chamaram atenção nesses 7 dias que tenho estado no Twitter:

  1. O Twitter é um espaço de interação muito mais agressivo que outros. De algum modo, no Facebook existe a possibilidade de estarmos tratando com um amigo nosso do mundo real, ou um amigo do amigo, o que de certo modo estimula alguma cordialidade. Não que sempre funcione. Longe disso. Mas o ambiente ‘em estado da natureza’ dado pelo Twitter faz com que pessoas não acostumadas com a falta-de-gentileza-como-regra sofram um pouco. Pelo menos no início;
  2. O Twitter é um espaço de fantasia onde se cria a ilusão que você interage com grandes personalidades como se elas fossem conhecidas suas. Quando você começa seguir alguém importante parece que se estabelece um elo entre você e aquela pessoa importante. Só que não. No Twitter os números são todos grandiosos e não há nenhuma possibilidade significativa do estabelecimento desse elo, que continua imaginário;
  3. O Twitter parece monotemático. Quando surge um tema importante, parece que todos somente falam da mesma coisa. Ou pelo menos parece que há uma onda grande que mexe com todos sobre o mesmo assunto. Assim foi durante essa semana: um dia se falou quase só de Paulo Freire, outro somente de suásticas, outro da apoiadora do presidente que sofreu uma agressão criminosa por ser gay, outro do filho do presidente, e assim por diante. Os trends do Twitter são mais do que trends: são o retrato de ondas de catarse que dão vazão a tensões criadas entre diferentes grupos;
  4. O Twitter é muito hierárquico. Descobri que tem o pessoal ‘certificado’ que tem “estrelinha” (na verdade parece um sinal de certo) a partir de um determinado número de seguidores. Tem também listas de influência. Parece que tudo conta ponto. Nesse sentido, parece um jogo. Além disso, os algorítimos fazem com que a visão de mundo daqueles certificados sejam as que você vê primeiro, não obstante possa haver análises mais interessantes feitas por outras pessoas ‘menos importantes’ na hierarquia tuitística;
  5. O Twitter oferece reações imediatas, pouco reflexivas em geral, que traduzem sentimentos fortes de amor ou de rejeição. Aquela afirmação sem sentido feita por alguém que não gostamos gera um avalanche de twits. Afirmações mais ponderadas ou mesmo analíticas parecem fazer menos sucesso. São pouco replicadas. Por isso twits com palavrões parecem funcionar tanto. Porque retratam aquele sentimento de surpresa, de rejeição, de ofensa a algo que nos parece caro;
  6. Como o Twitter trabalha com números de pessoas muito maiores do que seria a sua lista de amigos no Facebook (para muitos), se deixar o seu alarme de novas mensagens, existe o potencial do telefone não parar de avisar sobre um novo coração ou compartilhamento. Nesse sentido, parece ser (pelo menos segundo a minha experiência) muito mais viciante do que o próprio Facebook. Também é muito mais dinâmico e tende a reagir de modo espasmódico;
  7. Por fim, me chamou atenção esses dias como há no Twitter uma dinâmica de falar de assuntos mais próximos a notícias e menos de outros assuntos privados ou mesmo existenciais (será uma impossibilidade pelo espaço?). Não que não existam esses casos no Twitter. No entanto, é interessante observar como diferentes redes sociais podem ter diferentes dinâmicas e gerar resultados que dizem menos sobre quem participa e mais sobre como foram pensadas as interações entre as pessoas.

Devo confessar que achei muito divertida essa primeira semana no Twitter: me descobri uma pessoa cheia de opiniões rápidas sobre uma série de fenômenos. No início me choquei com a falta de gentileza, mas assim como os médicos aprendem a conviver com a morte (ou pelo menos a sua possibilidade), acredito que aprendemos a viver com um espaço hobesiano, onde podemos achar por alguns segundos que somos o Leviatã.

IDH: sem solução para nosso problema civilizatório? (da Folha SP 12/12/19)

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Esqueça a posição 79odo Brasil no IDH. O número mais importante desse ano é a perda de 23 posições do país no ranking do IDH, quando as médias são corrigidas pelo grau de desigualdade nas diferentes dimensões do desenvolvimento humano. A má distribuição da renda ocasiona 36.7% dessa perda. Mas não é o fator que explica a mudança no ranking. O que mudou esse ano foi a piora na distribuição na educação, que foi de 22% ano passado para 23.8%. Esqueça a posição geral do Brasil no ranking do IDH; olhe o que está acontecendo com a distribuição da educação no Brasil, entre regiões, entre escolas públicas e privadas, entre os que podem estudar e os que não. Mas o crescimento econômico não poderia corrigir isso?

Não; esqueça. O  crescimento econômico não vai resolver sozinho o problema da educação ou da pobreza no Brasil. Em um país onde o 1% mais rico ganha 28.3% da renda nacional e os 10% mais ricos tem 42%, não há como o crescimento econômico ser um efetivo instrumento de transformação social. Similarmente, em um país onde a renda nacional dos homens é 71% mais alta do que a das mulheres, é bem mais difícil para elas usufruírem dos benefícios do crescimento econômico. Esqueça o crescimento econômico. Mas não se poderia resolver esses problemas através de uma melhoria da distribuição de renda?

Não; esqueça também que a distribuição vai melhorar, pois só piora. Medindo por onde seja há uma piora na distribuição de renda que está levando os pobres à níveis indescritíveis de indignidade humana e empobrecendo a classe média mais rapidamente do que essa pensa. De fato, o índice de Palma, que mede a razão entre a renda dos 10% mais ricos e a dos 40% mais pobres, aumentou de 3.5 para quase 4 vezes nesse último ano. Além disso, o índice de Gini, que é sensível à variações no meio da distribuição de renda, sinaliza uma piora de 51.3 para 53.5 em apenas um ano. Isso significa que a classe média está sendo apertada. A distribuição de renda não vai melhorar por passe de mágica, olhe para os impactos perversos da polarização econômica na nossa democracia. Mas a política não poderia resolver isso?

Não; esqueça que a política nacional é solução para algo. A política segue à reboque de assimetrias de poder encravadas em uma estrutura econômica fortemente excludente, que alimentam interesses próprios e fantasias de mudança social como estratégia de manutenção do poder. Às vésperas de transformações tecnológicas que irão mudar o panorama do emprego no mundo, o que faz o Brasil? Intensifica o seu modelo excludente. Esqueça que a política nacional é solução para a economia ou para a sociedade. Parece que não há como fugir: precisamos, cada um a seu jeito, encarar de frente que não há solução óbvia para nosso problema civilizatório. Olhar para nossas desigualdades pode ser contudo um começo.

 

 

Quem se importa com os professores?

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Por quê os professores são tão pouco valorizados? Se bons professores são tão relevantes para uma educação de qualidade, por quê são tão desconsiderados, desprestigiados, não apenas pelos seus baixos salários mas por uma sociedade que não dá a devida importância aos seus apelos por melhores condições de trabalho? Essa não é uma pergunta fácil de responder, pois para começar devemos reconhecer que as raizes históricas do nosso modelo de desenvolvimento excludente. Mas o que parece óbvio é que se queremos mudar essa situação é importante gerar evidências para convencer a sociedade de que é fundamental tratar bem seus professores para que possam fazer seu trabalho. A devida valorização dos professores é a condição básica de qualquer sociedade que se diga civilizada para obter seu desenvolvimento humano.

No nosso caso particular, tratamos não apenas das vidas dos quase 2,2 milhões de docentes que atuam na educação fundamental brasileira (onde aproximadamente ¾ encontram-se na rede pública) mas de maneira direta de quase 49 milhões de crianças e suas famílias. De maneira indireta, levando em conta os efeitos sobre a formação de capital humano e seus impactos sobre a sociedade e economia, falamos de números ainda mais expressivos, pois falamos do desenvolvimento de todo o país. Mesmo assim, apesar do reconhecimento formal, da essencialidade e do alcance do trabalho do professor, muito pouco é feito por eles/elas.

Não devemos ignorar, contudo, que foi feito um esforço muito grande de geração de informações sobre professores e sistemas educativos nessas últimas décadas. Vivemos uma realidade de PISAs, IDEBs, ENEMs, etc, focada na identificação das condições que afetam o desempenho escolar ou acadêmico dos alunos. A estratégia é simples: tudo que gera nota (desempenho) é bom; incentivos podem ser usados para ajustar essa ‘função de produção’ de educação. Nesse contexto, as avaliações de professores seguem uma estratégia de gestão de recursos na qual professores ‘geradores de nota’ merecem incentivos. Parece ótimo, certo?

De fato não. Os modelos utilizados, chamados de ‘valor agregado’ podem mostrar onde as variações de notas dos alunos são positivas ou negativas, mas não podem explicar facilmente a heterogeneidade de razões que as produzem. Tampouco podem mostrar o que acontece com o desenvolvimento dos alunos, apenas de suas notas. Pior ainda, esse sistema de avaliação é pouco ou nada útil para os professores pois esses relatam receber pouco ou quase nenhum retorno dos mesmos. Em outras palavras, as avaliações fazem parte de sistemas de gestão que pouco de fato se preocupam com os professores (e até poderíamos duvidar se realmente se preocupam com os seus alunos ou de fato somente com suas notas), vistos como um ‘fator de produção’, como qualquer outro. Você não precisa acreditar no que digo: consulte a série de estudos feitos pela fundação Bill e Melinda Gates (2013) assim como referências acadêmicas tal como a de Jacob e Lefgren (2008).

Como fazer diferente? Precisamos fazer avaliações para professores, que sejam úteis para a melhoria de suas condições de trabalho! Precisamos cuidar dos professores como o recurso natural mais importante de nossa civilização. Enquanto o materialismo de nossas sociedades foca na educação como uma mercadoria a mais, que de fato serve apenas para a reprodução de estruturas de poder, perdemos a oportunidade maior de lapidar as pessoas, para que sejam não apenas mais inteligentes, mas mais gentis, mais amorosas, mais empáticas, mais humanas e que possam através da educação construir o sentido de suas vidas, cada um à sua maneira.

É com o propósito de contribuir com uma mudança de cultura na gestão da educação, onde as avaliações devem ser feitas para os professores, que estamos trabalhando na pesquisa “Saúde Mental e Bem-estar dos professores” do ensino fundamental no Brasil, junto com o pessoal do Instituto TIM e uma rede de acadêmicos. Se você é professor e quer ajudar, entre lá, por favor. LINK PESQUISA Se não é professor, mas conhece algum, repasse o link. Precisamos trabalhar juntos pela educação no nosso país.

 

A minha querida amiga Fabiana

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Sinto a dor da perda da Fabiana, como se algo em mim mesmo tivesse se ido. Não que visse muito a Fabiana. Na realidade, por circunstancias da vida, vejo muito pouco ou quase nada a maioria dos meus queridos amigos e amigas. Alguns porque estão longe. Outros, porque quem se fez longe fui eu. Mas a proximidade independe de distância. A proximidade que eu tinha com a Fabiana não era porque nos conhecíamos há quase 30 anos, nem tampouco porque fizemos muitos projetos juntos durante um período de 16 anos. Não, nada disso. Sem dúvida nossa proximidade advinha de muitas fontes. Uma delas era uma espécie de ‘compasso ético’, uma visão de mundo, que compartíamos. Quando eu conversava com a Fabiana era como se estivesse, de um lado, conversando comigo mesmo, com o pensamento aberto, sem cuidados, sem medo de onde o raciocínio pudesse me levar, mas de outro, era como se conversasse com um ‘eu’ melhor, um eu que seria mais correto em alguns pontos, mais sensível, mais criativo, mais indignado, mais perspicaz do que o meu eu. Era como estar em casa sem estar em casa.

Com os verdadeiros amigos, estamos sempre ’em casa’. Parece que o tempo não passa e que podemos retomar de onde paramos. Com os verdadeiros amigos, não existem razões para a amizade. Uma amizade verdadeira não é pela utilidade nem pelo prazer, porque esses podem ser passageiros. Mas sim pelo amor que temos às pessoas, pois o amor as fazem permanentes em nossas vidas. E o tempo segue em outra ordem cósmica. Com a Fabiana era assim, sempre que a gente se via havia muito o que conversar. E conversávamos de tudo, sempre com muita sinceridade, sem escolher muito sobre o que se falava, mas deixando a conversa nos levar onde as saudades mandavam. Compartíamos uma crença inabalável em um mundo melhor.

Quando eu conheci a Fabiana, na época que eu morava em São Paulo, tudo o que eu sabia dela era que ela era a irmã da minha querida amiga Fúlvia e que “gostava de tartarugas”. Foi somente depois na minha volta da Inglaterra que eu conheci uma Fabiana plena, revolucionária (e revolucionante!), no melhor sentido da palavra. Uma Fabiana cheia de ideias, cheia de interesses diversos, uma personalidade irrequieta, rigorosa, mas também muito generosa. Uma pessoa interessada no mundo, interessada nas pessoas. E muito importante, com um sentido muito contemporâneo de brasilidade (diferente daqueles com interesses saudosistas e anacrônicos), de resgate sim, mas com olhar de futuro. Conheci, no entanto, também a Fabiana que tinha muito medo de avião e com a qual, lembro como se fosse ontem, passei uma hora de mãos dadas durante uma forte turbulência para que ela se acalmasse. Lembro nessa viagem quando ela me disse, “sempre tive medo de avião, mas depois que a minha filha nasceu, piorou muito esse medo”. Falava isso por medo constante de deixar só a sua filha….

A Fabiana que sempre viverá dentro de mim é esta: a Fabiana compasso ético, a Fabiana que me deixava em casa com sua generosidade, a Fabiana com a qual eu tinha o prazer de ficar horas conversando, compartilhando as últimas notícias que acumularam durante o tempo que a gente não se viu, a Fabiana das ideias brilhantes; a Fabiana que eu admirava pelo ser humano que era. E ao mesmo tempo, aquela Fabiana que não precisava de nada disso para que fosse uma querida amiga!

Que saudades dos nossos almoços no restaurante da esquina da Angélica (que foi mudando de nome ao longo dos tempos). Que saudades das nossas reuniões (onde o verdadeiro pagamento era o compartir da sua companhia; enfrentamos várias roubadas, mas que sempre eram divertidas pela sua fé inquebrantável no futuro). Que saudades dos nossos chazinhos.

Outras pessoas que eu amava já se foram desse mundo, como minha avó, meu avô, meu pai, meus queridos tios Ruy e Jocimar. Já tive amigos queridos, como o Rodrigo Simões, que já se foram também. Mas com a Fabiana é diferente. Não sei porque. Escrevi o que eu escrevi acima porque ainda estou tentando entender aquilo que é difícil de entender. Talvez nunca entendamos bem a morte das nossas pessoas queridas. Talvez seja, paradoxalmente, esse não entender e o não aceitar que as faça vivas dentro da gente. Até chegar o nosso momento de partir.

 

 

 

Os riscos de um governo bolsonaro

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Respeito muito meus amigos e amigas que escolheram votar no Bolsonaro. Acho que até mesmo entendo as razões que eles têm. Muitos se sentem oprimidos pela corrupção sistêmica que temos visto no país. Outros, pela violência que torna indignas e disfuncionais nossas vidas. Ainda outros podem ser seduzidos por respostas convictas, fortes, espontâneas, que parecem ser um antídoto a tudo que está aí. As respostas dos partidos convencionais a essa crise foram pífias, insignificantes, indicando políticos já estabelecidos para cargos majoritários (não somente para presidente, mas também para governadores, senadores e deputados). Há um diagnóstico correto, na minha opinião, de muitos eleitores de Bolsonaro que precisamos de uma resposta forte, que gere uma quebra estrutural em tudo que temos visto nesses últimos anos. Infelizmente, o establishment político foi incapaz de dar tal resposta, criando um vácuo político.

Vejo também que muitos de meus amigos e amigas, eleitores e eleitoras de Bolsonaro, detestam a hipocrisia estabelecida de muita gente que é politicamente correta no discurso mas que levam vidas não condizentes com o que pregam. E por isso, relativizam discursos fundamentados em direitos humanos como parte de um grande circo de mentiras. Um erro. Mas entendo sua lógica.

Até aqui chego. Não consigo enxergar mais nada. Com esses pontos contudo, queria convidar meus queridos amigos e amigas para uma pequena reflexão. Vamos admitir que o seu candidato tenha as virtudes que prega e que precisemos, como país, de sua assertividade, patriotismo, devoção e honestidade, para resolver nossos problemas mais graves, que aqui, acredito serem, entre outros, a violência, a corrupção e a estagnação econômica.

Uma vez eleito, o candidato vai precisar governar. As evidências sugerem que ele tem mais apoio popular do que tem da classe política (sendo essa segundo seus eleitores/as uma das razões para elegê-lo). Isso significa que deve ter uma grande dificuldade para conversar com o congresso, assim como vimos no governo Dilma. Então, nesse cenário, parece que ou muda o congresso (o que parece ser improvável dadas as listas de candidatos que os partidos ofereceram), ou o congresso vai tentar muda-lo. O perigoso nesse cenário, de possível dificuldade de governabilidade, será o que Bolsonaro poderá fazer. Uma opção será a inércia e morte gradual. Outra das possíveis opções é a quebra do jogo democrático. Isso pode ser feito de diversos modos, muito possivelmente com apoio do seu vice-presidente. Lembrem-se da apologia que o candidato fez ao General Ustra por ocasião do impechment da presidente Dilma. Lembrem-se do que já falou sobre o voto eletrônico. As evidências sugerem que a democracia não é um valor muito importante para o candidato.

Claro, entendo que até mesmo alguns de meus amigos e amigas, mesmo já imaginando esse desfecho, queiram um governo militar por acreditarem que se estiverem ‘do lado do bem’ nada acontecerá a eles/as e que terão a volta aos tempos de prosperidade, de ‘ordem e progresso’. No entanto, isso equivale a um retrocesso institucional significativo, onde judiciário, congresso e demais órgãos governamentais (como a polícia federal) ficariam à mercê de forças que poderiam fazer o que quisessem com quem bem entendessem sem precisarem explicar nada para ninguém, pois assim funcionam as ditaduras. Pode ser que nada aconteça com você, mas e a seus filhos/as, netos/as, amigos/as? E àquelas pessoas que não conhecem, mas são nossos concidadãos?  Já vimos esse filme antes.

O paradoxo disso tudo seria que você que votaria no Bolsonaro para acabar com o perigo da ‘venezuelização’ do Brasil, estaria contribuindo para que isso fosse o mais provável. O medo do controle da mídia pelas esquerdas e de seu projeto de poder construído, seria substituído por uma alternativa de poder casuística onde as pessoas abririam mão de suas liberdades civis. Já vimos também esse filme antes.

Uma sociedade civilizada é uma sociedade sem armas. Uma sociedade civilizada cuida de suas minorias, de seus membros mais frágeis. Uma sociedade civilizada é tolerante, preocupada com a justiça mas também com a eficiência econômica. Uma sociedade civilizada pensa o longo prazo para resolver problemas complexos e estruturais. Uma sociedade civilizada não pode ser formada a partir de um plano de poder que contenha o risco de deixar de ser civilizada.

Para concluir, queria dizer que não sou neutro moralmente ao que o candidato Bolsonaro vem dizendo ao longo de sua vida parlamentar. Ele não me representa em seus posicionamentos sobre mulheres, homossexuais, negros, avós, etc e outras pessoas que são simplesmente seres humanos como todos somos. Talvez ele não tenha se ‘expressado bem’. Talvez ele seja simplesmente anacrônico. Mas há sim um problema em termos um presidente que diz coisas que ferem, humilham, machucam e diminuem a dignidade de outras pessoas.

Mas aceito que meus amigos e amigas eleitores e eleitoras de Bolsonaro vejam nele virtudes que não são desqualificadas pelos seus lapsos morais. Tudo bem. Temos algumas diferenças aqui, mas tudo bem. No entanto, pergunto. Vocês realmente acham que pode dar certo alguém sem muito preparo para elaborar e dialogar, alguém com convicções talvez não muito democráticas, fazer um bom governo para nosso país? Mesmo que vocês respondam sim, eu pergunto. Não acham isso nada arriscado?

Aporofobia e Plutofilia

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Sofremos de aporofobia. Aporofobia é o desprezo, a aversão, o medo aos pobres e indigentes. É uma palavra nova que foi criada pela filósofa Adela Cortina (ver seu livro “Aporofobia, el rechazo al pobre”, 2017) para descrever um fenômeno que é comum entre nós mas que não tínhamos um nome específico para pensa-lo. Falamos em xenofobia, em homofobia, em ‘islamofobia’, em discriminação de gênero, de raça, de idade, mas e a discriminação que existe pelo simples fato das pessoas serem pobres?

Discriminamos contra os pobres quando não os pensamos como iguais; quando fazemos ‘piadas de pobre’, quando consideramos que eles não merecem ser beneficiários de assistência do governo, mas não vemos nenhum problema com isenções bilionárias de impostos para grandes empresas. Discriminamos contra os pobres quando não nos importamos com suas vidas, mas achamos ‘inaceitável’ quando algo acontece com os não-pobres. Somos aporófobos quando usamos denominações diferentes para o mesmo fenômeno (chamando de ‘expatriados’ os imigrantes ricos, e de imigrantes aqueles pobres). Achamos sinal de inteligência notável quando filhos de classe média falam uma segunda língua, mas não vemos valor naqueles filhos de imigrantes que aprendem a gerenciar varias línguas desde muito pequenos. Tampouco vemos nenhum problema que os governos gastem proporcionalmente mais com os mais ricos e menos com os mais pobres (mesmo em saúde e educação). Vivemos um mundo de aporofobia individual e institucionalizada pelo Estado. A bomba que explode em Paris não é moralmente igual a uma bomba em Kabul para a mente aporófoba.

Para a professora Cortina precisamos pensar a cidadania para além de conceitos abstratos como ‘a dignidade humana’, que segundo ela “é uma abstração sem rosto visível”. Precisamos pensar a necessidade concreta de seres humanos individuais. E a aporofobia trata disso, não apenas de nossos costumes, nossa moral, mas da discriminação institucionalizada contra o pobre.

A aporofobia é um problema sério no Brasil. Quando as pessoas reclamam (ou melhor, reclamavam) “que tem muito pobre andando de avião”, que “pobre entra pela porta de trás via cotas na universidade”, que “pobre é vagabundo e quer viver de bolsa esmola”, etc., revelamos uma atitude de falta de reconhecimento do ser humano que vive situações difíceis, mas não nos importamos com isso (falo da atitude, não da análise técnica sobre a efetividade desses instrumentos). Em sociedades tão desiguais como a nossa, é comum que as pessoas naturalizem as assimetrias sociais. Mas passar disso para uma atitude de corrupção dos nossos sentimentos morais, é aporofobia.

Uma das fontes de inspiração da professora Cortina é o Adam Smith, que trata muito bem desse problema na sua Teoria dos Sentimentos Morais. Diz Smith que a raça humana tem uma tendência a admirar os ricos (plutofilia) e a desprezar os pobres. Para ele, “o homem rico se vangloria nas suas riquezas porque ele sente que elas trazem para ele a atenção do mundo e que a humanidade está disposta a lhe acompanhar em todas aquelas emoções agradáveis que a sua situação inspira. As pessoas buscam o dinheiro para ter com ele o respeito, a atenção, os cuidados que ele traz. Smith dá uma importância maior ao problema da plutofilia, que é a fonte maior de corrupção de nossos sentimentos morais para ele. Admiramos tanto aos ricos, que até mesmo copiamos os seus vícios. Temos assim, através da moda, uma expressão de um desejo de admiração e imitação dos ricos. (eu não me acostumo com essa moda dos jeans rasgados, mas não se trata disso….)

Desse modo, plutofilia e aporofobia fazem parte da mesma equação, são dois lados da mesma moeda. Precisamos encarar de frente que a natureza humana é imperfeita e que no capitalismo buscamos validação como ‘seres de valor’ através do dinheiro. Mas isso não é necessário se encontramos outros meios de acreditarmos que somos dignos de valor, como Honneth nos explica, seja pelo amor de nossas pessoas queridas ou pela realização daquilo que nos dá prazer ou que dá sentido as nossas vidas. A plutofilia no entanto catalisa a aporofobia.

Vivemos em um mundo onde os pobres viraram apenas números (% pobreza, % mortalidade infantil, % homicídios, etc) e onde os ricos têm nome e sobrenome; onde há muita gente com um interesse desproporcional na vida íntima dos ricos e famosos. Dar nome aos fenômenos sociais, dando uma função não apenas comunicativa mas ativa aos conceitos, é importante para tentarmos mudar essa realidade. Isso não depende apenas de governos. Isso depende de cada um de nós.

A falência do Brasil

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O Brasil faliu. Não foi apenas sua economia, que sujeita à ausência de políticas econômicas adequadas, continua na UTI. Não é somente porque o tecido social está destroçado, com quase 60 mil homicídios por ano e um clima de violência que ameaça a ordem pública. Não é só pelas contas da previdência não fecharem porque o dinheiro que foi pago lá atrás desapareceu e ninguém mais fala mais dele. Não é unicamente porque nossas escolas públicas estão largadas, sem esperança de futuro para nossas crianças e jovens.

O Brasil faliu pois a desigualdade social finalmente corrompeu os resquícios de moralidade pública que existiam. O Brasil faliu porque já se perdeu a vergonha. O Brasil faliu porque só sobra o ódio entre as pessoas ao invés do amor e tolerância. O Brasil faliu porque suas instituicões precisam ser reconstruídas mas antes disso a própria população precisa voltar a sua cidadania.

Não devemos acreditar em salvadores ou salvadoras da pátria. Nunca existiram e nunca existirão. Mas em uma situação caótica, em meio à inércia e à perplexidade, estamos caminhando para isso, para relegar responsabilidade, e esperar que um milagre aconteça. Uns acreditarão que esse milagre vem da esquerda, outros acreditarão que vem da direita. Escolha a embalagem do veneno. O pior parece que ainda está por vir.

O TSE existe para fazer justamente o que não fez. Como a mais alta corte do país em justiça eleitoral deixou pedagogicamente claro, a linha entre o certo e o errado esconde mais coisas do que possa imaginar nossa vã filosofia. A mensagem do ‘vale-tudo’ é propagada. Cria-se o sentido de que já não interessa o que é o certo ou o errado. Você que trabalha, você que quer ser honesto, olhe, o crime compensa!! Não vou nem falar aqui das barbaridades do que disseram Napoleão e Mendes. Eles são apenas mais do mesmo.

Cabe-nos enfrentar a falência! Ela tem que ser declarada e oficializada, para assim, como uma empresa, possamos pensar em reestruturarmos, não só como economia, mas como sociedade e como povo.