A reinvenção da economia política (Zero Hora, 9 de abril de 2017)

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Vivemos tempos de grandes embates econômicos e políticos. São tempos de contrastes, de antagonismos, de velhas teorias aplicadas a novos problemas. Vivemos tempos de extremos e de dicotomias: ou você é de esquerda ou é de direita; ou defende a justiça social ou a eficiência econômica; ou acredita no poder do Estado ou no dos mercados; ou se guia pelo bem comum ou pela liberdade; ou segue (estereotipicamente) Marx ou von Mises. A economia política, precursora da economia contemporânea, parece sepultada de um lado sobre o véu da economia qua ciência e de outro sobre a economia como uma coleção de dogmas de grandes pensadores. Nesse contexto, Thomas Piketty permanece uma incógnita, um OVNI acadêmico, para todos aqueles presos às suas velhas ideias. E a explicação para as dificuldades em classifica-lo é simples.

Piketty é um economista que tem luz própria. O seu pensamento é difícil de ser enquadrado dentro das velhas doutrinas. Não é por ter sido o autor do best-seller ‘O Capital no Século XXI’ que ele é marxista. Não é por trabalhar com séries históricas e regressões que ele é um econometrista mainstream. Não é por defender investimentos pesados em educação e capital humano que ele é um liberal clássico. Não é por propor uma regulação de mercados financeiros especulativos que ele é keynesiano. Ele é antes de tudo um economista extremamente preocupado com a democracia e com sua erosão por crescentes níveis de desigualdade social e econômica. Diferentemente dos economistas tradicionais ele defende que ‘não existem leis econômicas, mas séries de experiências históricas’, com especificidades, aleatoriedades, imprevisibilidades e institucionalidades peculiares.

O mundo visto por Piketty é caracterizado por profundas desigualdades de renda e de riqueza. É um mundo com estruturas tributárias arcaicas, ineficientes e injustas que penalizam os mais pobres mas que são muito generosas com grandes fortunas e multinacionais (especialmente leniente com patrimônios privados em paraísos fiscais). É um mundo onde políticos são ‘inquilinos hipócritas do poder’ excessivamente bem-remunerados; onde o socialismo é apenas ‘decorativo’. É um mundo onde canais de notícia, controlados por bilionários, seguem com ‘seu fluxo incessante de informações emburrecedoras’.

Piketty é moralmente sensível ao desperdício de dinheiro publico com grupos privilegiados e ao ‘egoísmo míope’ da política internacional de países europeus que envelhecem à espera dos resultados desastrosos do aquecimento climático. Para ele as múltiplas faces da desigualdade não corroem apenas a democracia de países ocidentais, mas alimentam também o terrorismo, o nacionalismo, a islamofobia e demais conflitos religiosos no mundo.

Apesar de tudo isso, ele se define como um ‘otimista’ e constrói seus argumentos na interface entre a economia e a filosofia política. Ele defende a progressividade tributaria, o investimento pesado na educação, na formação profissional e na ciência e tecnologia. Engana-se contudo quem pensa que ele é um nacionalista. Para ele não há a possibilidade de construirmos sociedades melhores sem a cooperação internacional. Ele defende também um novo modelo de financiamento da proteção social para a França e Europa que não seja todo em cima da massa salarial do setor privado (um ponto de vista interessante e original para tempos de debates sobre a reforma da previdência no Brasil). Outras soluções financeiras propostas por ele, como a mutualização de dívidas públicas, estão na raiz de uma refundação democrática da zona do euro. Nas suas mãos assistimos a uma simbiose entre elementos políticos e econômicos cuja materialidade é dada por propostas de revisão da arquitetura tributária, orçamentária e financeira dos países que demandam a construção de novas instituições democráticas e parlamentares. Não existe hoje nenhum economista no mundo como Thomas Piketty. Temos muito a aprender com ele e a reinvenção da economia política para o século XXI.

 

 

 

 

 

 

IDH: a nossa responsabilidade

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A interpretação de que o Brasil ficou estagnado no seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) por conta da maior recessão da sua história é no mínimo deturpadora. Ela omite profundas questões estruturais da economia e da sociedade brasileira passando (involuntariamente ou não) a mensagem de que com a volta do crescimento o país voltará a andar nos trilhos do desenvolvimento humano. Mas isso é equivocado e enganador.

O IDH é um índice que sofre de duas inconsistências metodológicas que resultam em um sério problema quando combinadas. A primeira é que o IDH foi feito para ser divulgado no curto prazo (anualmente) mas a grande maioria das suas variáveis é de longo prazo. De fato, frequentemente sabemos o valor da ‘expectativa de vida ao nascer’ apenas por modelagem, pois dados novos saem apenas nos censos, o que no caso brasileiro significa a cada 10 anos. Similarmente, as variáveis educacionais, como ‘ o número de anos médios de estudo’ (das pessoas acima de 25 anos) têm variações quase imperceptíveis no curto prazo, com alterações substanciais anuais devidas apenas a ocasionais ajustes metodológicos. Assim, apesar do IDH ser divulgado anualmente ele oferece poucas novidades devido a sua estrutura de longo-prazo.

A segunda inconsistência metodológica é que o IDH foi criado para ‘desbancar’ a renda como o grande fetiche das nações ao introduzir outras dimensões de desenvolvimento, como a saúde e a educação junto à renda. Mas na prática o índice dá um peso implícito maior à variável que tem mais escala para se movimentar, que é a renda (mesmo suavizando seu peso com uma média geométrica). Desse modo, quando juntas as duas inconsistências levam ao paradoxo de que o indicador que foi feito para substituir a renda como ícone de qualidade-de-vida acaba frequentemente sendo regido por ela.

Mas isso somente na fachada. No fundo, o IDH mostra que algumas sociedades são estruturalmente desiguais (como o Brasil que perde 25.6% do seu IDH devido à desigualdade), machistas (onde as mulheres ganham em média apenas 60% da renda dos homens), onde são desrespeitados alguns direitos básicos como o direito à vida (nossa taxa de homicídio de 24.6 por 100 mil pessoas é das mais altas do mundo) ou o direito à infância (8% das crianças trabalham no Brasil) e onde a provisão de bens públicos essenciais é feita com baixa qualidade e densidade (temos 18.9 médicos a cada 10 mil habitantes, a metade de alguns países vizinhos como o Uruguai e Argentina; gastamos -pouco e mal- apenas 1/3 do que países desenvolvidos gastam por aluno em nossas escolas publicas do ensino fundamental).

É equivocado e enganador pensar que a solução destes problemas estruturais depende somente do crescimento econômico. A raison d’être do IDH é tratar de liberdades básicas, direitos, desigualdade, discriminação, empoderamento, respeito e justiça social. Assim, é essencial lembrar que crescimento econômico é apenas um meio e não um fim do desenvolvimento. A economia deve servir à sociedade e não o contrário. O IDH não ‘estagnou’ ou ‘parou de avançar’ devido à recessão mas sim devido à inconsistência e ineficácia de nossas instituições e políticas públicas, ao nosso descaso estrutural à vida humana e à nossa falta de solidariedade como nação. Não devemos responsabilizar a falta de crescimento econômico pelo nosso baixo IDH quando a responsabilidade é nossa como sociedade.

O IDH sem renda (publicado no Valor 27/03/17)

 

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Vários países, como o Brasil, não conseguem escapar do fetiche do crescimento econômico que domina sua arquitetura de politica publica. Mas esse não é um fenômeno recente de tempos de ajuste fiscal nem tampouco peculiar ao Brasil. De fato uma certa obsessão com o crescimento como principal medida de bem-estar social é um fenômeno do pós-guerra, da segunda metade do século 20. É verdade que o crescimento econômico melhorou a vida de muita gente, mas o fez de modo desigual e ineficaz para erradicar a pobreza e melhorar a provisão de bens públicos essenciais à toda população mundial. Foi no contexto de uma reação ao Produto Interno Bruto (PIB) como o único ‘felicitômetro das sociedades’ que há 27 anos foi criado o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) como uma medida de qualidade-de-vida alternativa ao PIB.

Mas o IDH não nasceu ‘puro-sangue’. Feito para ser simples e comunicável ao cidadão comum, foi composto de somente três dimensões (saúde, conhecimento e padrão de vida). Em particular cabe notar que a dimensão padrão de vida incluiu o próprio indicador que pretendia ‘desbancar’, o PIB. Originalmente utilizou o logaritmo do PIB como meio de suavizar a influência do mesmo no índice final; também impôs um teto ao PIB durante alguns anos e desde 2010 vem utilizando a Renda Nacional Bruta como a variável que mede o padrão de vida no IDH, tomando o cuidado de calcular o índice através de uma média geométrica, o que também suaviza o efeito da renda no índice. No entanto, esse ‘vício-de-origem’ metodológico persiste, podendo ser as vezes motivo de constrangimento conceitual e fonte de equívocos analíticos.

Uma maneira simples de entender a evolução do IDH dos países sem essa inconsistência metodológica é através do cálculo do ‘IDH sem renda’. Essa medida, que é simplesmente o IDH descontado o impacto resultante da Renda Nacional Bruta per capita, é mais fiel ao arcabouço conceitual de desenvolvimento humano que vê a renda como um meio e a saúde e o conhecimento como fins do desenvolvimento. Usando essa medida o Brasil não estaria na posição 79o do ranking do IDH, mas sim na posição 85o, o que sugere, primeiro, que em termos relativos o país está muito pior nos quesitos saúde e educação do que se julga pelo IDH agregado e, segundo, que de fato o nível da renda brasileira ajuda o país a estar em uma posição relativamente mais alta no IDH.

Podemos também tirar a diferença, para alguns países selecionados da América Latina, entre o ranking do IDH menos o ranking do IDH sem renda. No caso do Brasil ficaríamos 6 posições abaixo se não fosse pelo efeito da renda. Evidenciamos assim nossas deficiências na saúde e educação. De fato, a expectativa de vida ao nascer no Brasil de 74.7 anos é pior do que a de 14 países abaixo do Brasil no ranking do IDH. Similarmente, nosso anos médios de escolaridade, de 7.8 anos é pior do que o de 35 países abaixo do Brasil no IDH. Para a maior parte dos países latino-americanos há um efeito não-ambíguo do IDH sem renda. Nos extremos encontramos Cuba (que tem saúde e educação bem acima da sua renda) e Colômbia (muito ajudada pela renda para manter sua posição no IDH). O Chile continuaria, mesmo no IDH sem renda, como o país latino-americano de mais alto desenvolvimento humano.

Slide1Fonte: cálculos feitos a nosso pedido pelo Escritório do Relatório de Desenvolvimento Humano (HDRO em inglês), 2017

Podemos ver dentro da perspectiva de mais longo prazo oferecida pelo IDH sem renda que a despeito de todos os avanços sociais celebrados no Brasil nas últimas décadas, o país apenas piorou no ranking do IDH sem renda passando de 77o em 1999 para 95o em 2005 e 102o em 2012, vindo desde então, paradoxalmente, (se pensarmos em termos econômicos) a melhorar progressivamente chegando ao atual ranking de 85o na lista dos países ordenados pelo IDH sem renda.

Mas o que isso significa de concreto para a promoção do desenvolvimento humano no Brasil? Primeiro, que não devemos esperar pelo crescimento econômico para a retomada do desenvolvimento humano no país. Como a tendência de longo prazo do IDH no Brasil mostra, a evolução do ranking do país no IDH sem renda, focado na saúde e conhecimento, tem uma correlação não-evidente com o crescimento econômico. Isso não significa que o crescimento econômico não seja de todo relevante para uma melhoria do padrão-de-vida dos brasileiros, mas que é importante não apenas por sua quantidade mas por sua qualidade.

Segundo, essa perspectiva mostra que temos hiatos de desenvolvimento humano com países vizinhos que são significativos. Por exemplo, vivemos em média menos 7.3 anos, temos 2.1 anos a menos de estudo e ganhamos US$ 7.520 a menos por ano do que nossos vizinhos Chilenos. Hiatos similares existem com tantos outros países latino-americanos como a Argentina, o Uruguai, o Panamá e mesmo a Venezuela.

Terceiro, essa perspectiva enfatiza a importância de investirmos na melhoria da provisão de bens públicos essenciais como saúde e educação. Sem isso não há mágica que faça o Brasil subir no ranking do IDH. É verdade que esses serviços podem ser comprados também diretamente no mercado. Nem tudo depende da provisão publica. Mas somente a provisão publica chega àquelas populações que mais precisam exatamente porque são pobres e não possuem outros meios de melhorarem suas vidas. Para isso precisamos de mais e não de menos Estado. Mas não podemos continuar dependendo do ‘mais do mesmo’. O Estado brasileiro precisa ser reinventado.

Para essa reinvenção do Estado precisamos de uma nova cidadania, mais ativa, mas intolerante com a corrupção e com as injustiças sociais. O crescimento econômico per se não vai resolver o problema da falta de desenvolvimento humano no Brasil. Não há trickle-down que resolva nossos hiatos sociais. O fetiche do crescimento econômico nos leva a ignorar direitos, a minimizar o sofrimento dos vulneráveis, principalmente durante períodos recessivos, e a ver a saúde e a educação da população como instrumentos para mais crescimento econômico, levando a uma inversão lógica entre os meios e fins do desenvolvimento. Enquanto seguirmos nessa lógica não há IDH que progrida.

 

A carne fraca, o idh fraco e a sociedade fraca

 

 

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Vergonhoso. Constrangedor. O dia seguinte ao anúncio da operação ‘carne fraca’ mostrou muito, de forma escancarada, o país no qual vivemos; deixou claro para quem os governos trabalham, quais são as prioridades públicas e o quão irrelevante somos enquanto população. No dia seguinte e pelos próximos dias da semana os noticiários foram dominados por manchetes culpando a Polícia Federal por falta de evidências, por generalizações, mostrando o ‘drama’ da perda de mercados com as consequentes dificuldades para o país.

Mas um segundo, por favor. Quem é o país? Não é preciso nenhuma operação carne fraca para saber que a nossa indústria alimentar está longe de ser boa. De ‘danoninhos’ com substâncias proibidas por pediatras, a frangos com excesso de antibióticos, com frutas e vegetais com níveis de agrotóxicos acima do que a OMS permite, com embutidos com excesso de nitratos, com bolachas com excesso de sal e açúcar, queijos reprocessados, leite com uréia, e por aí vai. E quando temos uma oportunidade de melhorar a fiscalização e ter uma investigação séria sobre os alimentos oferecidos à população, o que acontece?

Temos uma discussão totalmente desvirtuada, fora do eixo, centrada apenas nos interesses ‘que importam’; os da indústria, claro, de suas exportações bilionárias. E a saúde do povo brasileiro? Por que ao invés de dizer que a ‘carne é forte’ não aproveitamos esses indícios da operação carne fraca para varrer as 4850 unidades produtivas? E por quê não aproveitamos isso para ter uma discussão séria sobre a indústria alimentar brasileira? Depois de tanta minimização e absurdos (como pessoas defendendo na televisão que cabeça de animais é um ótimo ingrediente do ponto de vista nutricional) foi fácil esquecer que essa foi a operação da PF que envolveu o maior número de policiais da história (1100 policiais para cumprir 309 mandatos judiciais). O ‘novo enredo’ de que a operação foi ‘somente sobre corrupção’ pois a ‘nada se quer dizer sobre a qualidade do produto’ é um retrocesso ao debate inicialmente levantado, por pura pressão econômica e política.

Poucos noticiários deram voz à sociedade civil, às associações de consumidores ou mesmo à população na rua. O foco emocional das notícias durante toda essa semana foi nos estragos comerciais e na perda de empregos (como se essa fosse de verdade uma preocupação por trás de toda essa discussão). A alta cúpula do governo se comportou como se fosse parte do departamento comercial de algumas das empresas envolvidas. E a mídia? Comprou tudo como lhe foi vendido. Assim como na divulgação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) essa semana que lhe foi dito que estávamos na posição 79o do ranking antes e que continuamos nela e ninguém questionou uma vírgula.

Mas realmente estávamos? Não precisa acreditar em mim. Olhe os jornais de 2015 quando se anunciou o último IDH antes desse e verá que o país estava na posição de 75o. O que isso significa? Que caímos 4 posições. Mas a interpretação da estagnação é boa pois não mostra o quão fraca é a nossa carne. Mantém as instituições em harmonia sem a ‘perda de mercados’. Não vou entrar aqui nos aspectos técnicos sobre como as estatísticas do IDH são atualizadas antes de fazer a conta da evolução do ranking anual, pois já postei muito sobre isso no passado. O meu ponto aqui é outro: é sobre a nossa mídia, nossa fraqueza como sociedade que come o que lhe dão. Sobre governos que não são cobrados por fazer o seu trabalho, que é (ou seria?) pensar e agir pelo bem-estar da população. É sobre uma sociedade fraca, onde o IDH é fraco, a carne é fraca, os governos são fracos e o único que é forte é a vontade e o poder de quem realmente manda no país.

“Senhor, dá dinheiro pra mim comer?”

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As fomes no Brasil são múltiplas. Estava no aeroporto de Guarulhos, no ainda novo e chique terminal 3, em uma lanchonete, chegando de uma viagem e esperando para começar outra. Escuto uma sequência nas minhas costas de ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’, ‘senhora, dá dinheiro pra mim comer?’, ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’….e o silêncio servindo como moldura para o próximo ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’ E quando chegou a minha vez, assim como os outros, respondi com um sorriso amarelo que ‘não’, colocando em marcha a metralhadora verbal do ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’ Logo eu que já me resolvi a dar algo, mesmo que pouco, para quem quer que me peça (a menos que não seja uma situação de risco). E até agora estou pensando porque fiz isso.

As razões para não dar qualquer dinheiro para o rapaz, que devia ter 18-19 anos são compreensíveis. Primeiro, o rapaz poderia estar mentindo, poderia querer o dinheiro para algo menos essencial do que comida, como por exemplo para drogas. Segundo, o rapaz escolheu vir a um aeroporto, lugar com turistas e pessoas com dinheiro (pelo menos mais dinheiro do que a média da população) e o pedido pode ser visto apenas como uma tentativa de explorar a boa fé alheia. Terceiro, o rapaz era jovem e sem nenhuma deficiência aparente, poderia estar trabalhando se quisesse, poderia se imaginar. Quarto, o rapaz chegou de surpresa e é bem provável que tenha assustado a todos com o inusitado do seu pedido em um ambiente ‘novo e chique’ do terminal 3. Por último, pode ser que depois da primeira resposta, todos tenham apenas reagido sem pensar, como ‘seguindo a manada’ e sem razões tenham recusado por ser o comportamento pré-julgado inicialmente como correto.

Mas o quão sólidos são esses argumentos? Será que podemos considera-los acima de qualquer dúvida? Primeiro, a humanidade é muito complexa para que possamos predefinir suas necessidades. ‘Comida é pasto, bebida é água….você tem fome de quê?’ Quantas vezes já vimos pessoas deixarem de comer para comprar algo que lhes dê (ou seja entendido que lhes dê) dignidade? Garotos que passam fome para comprar um boné de marca para se sentirem respeitados? Pessoas que enfrentam as tensões do endividamento para comprarem bens de consumo duráveis para criarem um sentimento de alegria nas suas famílias? Pais e mães enfrentando privações para darem tudo o que podem aos seus filhos? Quem sabe, na vida de quem não tem nada -ou que carrega um ou muitos passivos emocionais- o valor de suas necessidades? Não deveríamos prejulgar na hora de dar o dinheiro.

Segundo, é verdade que o rapaz veio ao aeroporto. Mas onde mais ir para encontrar pessoas para as quais um par de reais não faça diferença? Muitas vezes pessoas pobres são barradas em restaurantes e em shopping-centres. Quem não lembra das lojas dos shoppings fechando pelos ‘rolezinhos’? Onde mais ir? Já sobre se sentir ‘explorados’, somos realmente explorados e roubados tão mais pelas nossas instituições públicas, que nem percebemos. Essa mesma pessoa que estava pedindo o dinheiro, quando (espera-se) finalmente possa comprar algo para comer vai pagar um imposto indireto que é extremamente regressivo e injusto, pois tributa mais as pessoas mais pobres, como proporção do que têm.

Terceiro, por que parece natural que jovens pobres devam trabalhar para comer quando não esperamos o mesmo dos filhos(as) da classe-média que podem continuar estudando até 24-25 anos (ou mais, dependendo do curso)? E achamos isso natural para eles/as? Por que não queremos que nossos filhos trabalhem até terminar uma faculdade e achamos que os filhos ‘dos outros’ (pobres, obviamente) têm que trabalhar ‘para sustentarem seus luxos’? O que são luxos para um adolescente ou um jovem que muitas vezes busca apenas o respeito a sua individualidade e identidade? E que culpa tem esse jovem de ter nascido pobre? (pois se não tivesse nascido pobre seria muito improvável que estivesse pedindo).

Quarto, susto não é desculpa para ‘não pensar’. O susto significa apenas que no default temos uma reação de bloqueio de alteridade. O susto significa que estamos preparados para ignorar, desconsiderar, acreditar na mentira e na maldade, porque ela vem de um jovem com características estabelecidas. Mas o que teria acontecido se tivesse entrado um jovem com outras características sociais, econômicas e étnicas? Será que a resposta seria a mesma? Em que sentido a nossa ‘preparação para negar’ a existência e necessidade daquele jovem não é uma manifestação de estereótipos que construímos? E com isso, me permito perguntar, se essa negação não é uma forma de racismo? Teríamos agido igual se outro jovem (tipo ‘loiro de olhos azuis’) tivesse feito o mesmo pedido?

Por fim, os comportamentos ‘de manada’ são os mais irracionais possíveis e consistem em uma ‘razão sem razão’ ou sem fundamento. São sem dúvidas elementos de ordem prática, pois definem um agir, mas raramente encarnam comportamentos reflexivos. E por isso não são propriamente razões: podem explicar, mas nunca justificar.

A pobreza do rapaz que fala para ‘mim’ comer reflete suas várias pobrezas e abandonos que são reiterados a cada momento, em olhares desconfortáveis, desconfiados, alguns mesmo de desprezo. Sem apoio da família, podemos imaginar, e abandonado pelo Estado, é também ignorado pelos semelhantes. Em retrospecto, não há nenhum argumento para a minha negação do qual eu possa me orgulhar. Talvez alguém que me leia tenha melhores argumentos. Não digo que não existam. Eu apenas não os tenho. E lamento. Essa é uma lição para ‘mim’ aprender.

O discurso de formatura inacabado

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Agora já posso falar. Um médico disse que destruí a cartilagem entre meu pé e minha perna. Outro agora investiga se tenho algo ‘quebrado’ ou ‘rachado’. Foi o resultado de caminhadas intensas e corridas que fiz no final do ano passado. Seja como for, tem doído muito. Ontem à noite na Cerimônia de Formatura dos alunos e alunas da turma de Economia 2016/2 da UFRGS não foi diferente. Senti, no entanto, que, na capacidade de paraninfo da turma, não deveria ir de tala ortopédica e disfarçar o possível. Acho que consegui. Não foi difícil no geral pois a alegria de todos foi contagiante. Mas não achei que consegui dizer tudo o que havia pensado dizer para meus queridos alunos e alunas no meu discurso de formatura. Então vai lá o que ficou entalado:

Mesmo sabendo dos desafios profissionais que vocês terão pela frente, não quis focar nisso, mas em questões pessoais e sociais. O que aprendi de economia até agora me faz acreditar que as mesmas condições econômicas e materiais que nos trazem conforto nos alienam muitas vezes do viver-bem: viver com mais tempo para a gente se divertir, para jogar conversa fora, tempo para ter tempo para nossos pais, nossos filhos, amores, amigos e pessoas queridas. Em condições agudas de desigualdade como vivemos no nosso país somos pressionados a ‘ter’ para exercitar o nosso ‘ser’. O consumismo nos distancia da boa vida pois buscamos (inconscientemente) respeito e consideração das demais pessoas pelas nossas relações de posse. Essa é uma tensão permanente, a qual economistas como Adam Smith e Marx já tinham nos alertado, mas que em condições extremas de desigualdade, causa vítimas (mais evidentes) não só do lado da pobreza mas também daqueles com um bom ponto de partida na vida, como vocês.

Vivemos uma época de individualismo radicalizado. Uma época na qual vemos pessoas protestando contra o ‘politicamente correto’ (como se não existisse uma razão de ser para tratar as pessoas com respeito e dignidade). Vivemos uma época de xenofobia. Vivemos uma época na qual pessoas não têm vergonha de negar a discriminação de gênero e a racial. Vivemos uma época em que governos parecem não ter mais comprometimento com direitos humanos e sociais. Acompanhamos manifestações constantes de ódio, de intolerância e agressão não somente nas redes sociais mas nas redes reais, no cotidiano. As pessoas tiram não apenas da sua vida ‘virtual’, mas da ‘real’ qualquer referência a pontos de vista divergentes. Vivemos em bolhas. E aprofundamos a intolerância. A incompreensão. A violência urbana nas grandes cidades brasileiras é surreal, com cenas de barbárie legadas ao armário da indiferença, pois não sabemos o que fazer delas. Vivemos o ‘pior dos tempos’, nesse sentido, o ‘inverno do desespero’, como diria Charles Dickens.

Mas é aqui que tudo que aprendemos de economistas como Amartya Sen, sobre a importância de sermos autônomos, (senhores e senhoras do nosso próprio destino) é fundamental para podermos construir uma nova história. E para isso precisamos lembrar que o ser humano é maior do que a economia. Esta é apenas um ‘meio’ para fins maiores do bem-viver. Precisamos colocar em perspectiva que antes de qualquer arranjo econômico vem a consideração, o respeito pela individualidade e humanidade em cada um de nós. Resolver a crise (ou as crises) não é mais importante que o respeito que devemos ter pelo outro. E em nossas vidas privadas isso tem que ser vivido. Não podemos comungar da generosidade e humanidade no mundo das ideias se nosso cotidiano formos egoístas auto-centrados. Precisamos resgatar a ‘simpatia’ (empatia) Smithiana, que nos confere não somente o elo fundamental entre os seres humanos mas a busca de uma sociedade estabelecida em relações um pouco mais imparciais e menos injustas.

Desejo que vocês cultivem essa consciência das tensões entre o material e o moral e a busca por uma vida livre e digna. Não vai ser fácil. As desigualdades são sempre naturalizadas. Vai depender de cada um de vocês, no seu cotidiano, dentro de suas casas e no resto de suas ações, superar  o ‘pior dos tempos’, que traz consigo o pior das pessoas. A economia que empodera é também a que aliena. Que vocês saibam resgatar o humano e o ‘melhor dos tempos’, como diria Dickens, em tudo aquilo que farão.

 

 

Ocupa tudo?

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Se Voltaire estivesse vivo diria “Discordo das ocupações, mas defenderei até a morte seu direito de fazê-las”. Essa lição básica do autor do “Tratado sobre a Tolerância” já afundou há muito tempo no mar de ofensas, ódio, desprezo e falta de respeito que virou o ‘debate público’ no nosso país. De fato, nunca vi marcas tão claras de uma cultura de ‘hate speech’ cruzando os mais diversos campos ideológicos. O ódio não é monopólio de ninguém. Nas redes sociais as pessoas recheiam seus comentários sobre as ocupações com xingamentos e mais ódio, descaracterizando a posição dos outros. O único objetivo é desqualificar quem pensa diferente, de tal modo que -com o campo arrasado- sobre unicamente a sua opinião.

Nosso contexto histórico é a PEC 55 (antiga PEC 241 com a nova numeração pois passou para o Senado), dado que uma oposição a essa PEC tem sido dita como a principal razão das ocupações. Mas poderia ser qualquer outro. O meu ponto é que o mérito da PEC não importa no que estou dizendo aqui (não é que a PEC não importe, já falei sobre ela em outro post). O que importa é a nossa atitude em relação ‘ao outro’, ‘ao diferente’ e aquele que nos desafia a dizer o contrário do que pensamos. Existem problemas concretos sobre como ocorrem as ocupações, como o que acontece na UFRGS, de diretórios acadêmicos que ocupam o mesmo espaço fisico terem deliberações diferentes, mas não vou entrar nisso aqui.

Quem são os ocupadores(as)? Você acha que eles são estudantes baderneiros, desocupados, esquerdistas, manipulados por partidos políticos, instrumentalizados, inocentes úteis em uma guerra ideológica? Você acha que eles nem sabem bem o que é uma ‘PEC’ e nem entendem as razões do que estão fazendo? Você acha que as pessoas que os apoiam o fazem para manterem seus privilégios como professores de universidades federais? Você não vê nenhuma razão nesse movimento que pretende ir contra a única chance de salvação (de controle de gastos públicos) da economia brasileira depois do descalabro fiscal dos governos do PT com déficits bilionários insustentáveis?

Ou, por outro lado, você acha que os ocupadores(as) estão de fato lutando pelo bem comum? Que estão, dentro do seu mundo -que é a universidade- exercendo uma forma de protesto pacífica, ordeira, legítima por algo que interessa não somente a eles, mas à sociedade como um todo, pois congelar em termos reais os gastos com saúde e educação (entre outros) sem mexer na estrutura de privilégios de uma estrutura tributaria regressiva é retirar direitos duramente adquiridos pelos mais pobres nos últimos anos? Você acha que é um absurdo jogar a polícia de choque nos estudantes quando a polícia não os protege da violência urbana?

O meu ponto aqui é que tanto faz, pois todas as pessoas têm direito, em uma sociedade que se diga democrática, à sua opinião. Mais ainda, que a falta de respeito a opiniões diferentes tem implicações dramáticas de busca de um ‘monolítico moral’ na sociedade indesejável, pois não democrático. Como John Rawls já nos explicou devemos abrir mão de ‘doutrinas abrangentes’ em democracias em prol da pluralidade de vozes. Isso não quer dizer que você não tenha sua opinião, nem que não a defenda, mas que não considere um ‘idiota’ outra pessoa apenas por ter uma opinião diferente.

O fenômeno brasileiro no contexto das ocupações é uma pequena manifestação de um problema mais geral das sociedades contemporâneas de distância social. As razões para isso têm sido discutidas por sociólogos e filósofos como Richard Sennett no seu “A Queda do Homem Público” no qual ele mostra como a vida nas cidades tem nos privado do convívio com ‘diferentes’ (o que tem nos tornado mais sectários) ou então nos “Tempos Líquidos” de Zygmunt Bauman que explica a racionalidade de reagirmos com agressão a argumentos diferentes dos nossos. Diana Mutz no seu “Escutando o outro lado” mostra com estatísticas como acabamos falando apenas com iguais, evitando argumentos diversos.

Não vou comentar exemplos ou instâncias especificas desse discurso de ódio que tenho visto (nem um que me envolve ao assinar uma carta de professores do departamento de apoio ao direito de ocupação dos estudantes). Mas saliento seus elementos analíticos. Assim, quando sua critica é do tipo ‘geral’ (os petralhas, os coxinhas, etc), ou quando ela ‘demoniza’ o adversário, imputando a ele(a) motivações que você não tem como comprovar, ou quando você procura desqualificar o diferente, colocando alguma característica que o/a desabona, ou quando oferece uma análise desengajada sem nem citar o argumento oposto….bom, quando faz tudo isso, em maior ou menor grau está cometendo um discurso de ódio (ou ‘hate speech’). Se tem cheiro de ódio, gosto de ódio, cara de ódio, barulho de ódio, textura de ódio….comece a suspeitar que pode ser ódio.

Não se sabe se a frase mais famosa de Voltaire foi realmente escrita por ele. Mas seja como for, nunca ela foi tão necessária:  “Eu não aprovo o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dize-lo”. Seja de que lado você estiver sobre a questão das ocupações, pense se não está fazendo um discurso de ódio. Procure enxergar o outro como seu amigo(a), veja se isso mudaria algo. A verdade simples é que não há verdadeira solução (uma que seja estável, pois envolva o consenso) sem diálogo. Se lutamos por alguma causa justa não faz sentido ser injusto com os outros.