Desculpe Neymar?

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“Desculpe Neymar, mas nessa Copa eu não torço por vocês”. Com essas palavras, Edu Krieger inicia um vídeo ( https://www.youtube.com/watch?v=pChBIBDZm5w) que já passou em suas várias versões de 1 milhão de visualizações e que é a ponta de um iceberg que esconde uma profunda divisão e ambiguidade na sociedade brasileira sobre a realização da Copa do Mundo. O mundo está procurando entender o que passa com o Brasil. O “The Wall Street Journal” (05 de junho) aposta que teremos “um carnaval, mais do que um protesto” pois nossa população generosa consegue divertir-se apesar de endemicamente desapontada. A “The Economist” (07 de junho) prefere tratar da corrupção institucional que marca o futebol e explicar assim a desilusão com o ‘jogo bonito’. A “Reuters” (06 de junho) retrata como os brasileiros não entraram ‘no clima da Copa’, mostrando dados do ‘Pew Research Center’ de Washington de que 61% dos brasileiros/as desaprovam a Copa no país. Mas o que realmente está passando? Não há no momento um debate sério, apenas troca de acusações, sentimentos de frustração e condenação de ambos os lados.

As críticas mais comuns à Copa focam no custo de oportunidade do dinheiro gasto, que poderia ter sido utilizado para outros gastos públicos mais necessários, como saúde e educação. Outras reclamações são misturadas com protestos gerais sobre o estado da economia, com crescimento menor que o esperado e o medo da inflação. Há aqueles que reclamam de obras de mobilidade urbana que não foram terminadas. E há também quem veja no momento uma oportunidade para protestar pois os olhos do mundo estarão no Brasil (incluindo aqui desde sindicatos até mesmo aos políticos da oposição). E o que dizem aqueles que criticam aos críticos da Copa?

Em primeiro, reclamam muito do oportunismo político, pois fecha os olhos ao que foi feito, mesmo que tenha sido menos do que o planejado. Depois, aponta incoerências intertemporais nas reclamações, do tipo: ‘por que não protestou antes, quando a Copa foi dada ao Brasil’? Há igualmente aqueles que dizem que temos ‘complexo de vira-lata’ e que agora as críticas são fúteis pois ‘o que tinha que ser roubado já foi’ e o dinheiro que tínhamos que gastar, já foi gasto. Mas quem tem a razão? O que suspeito é que todos têm um pouco de razão e que ao mesmo tempo ninguém tem razão, pois o que parece estar acontecendo é um fenômeno diferente.

Os protestos não são pelos 30 bilhões de reais que talvez custem a Copa (US$ 11-12 bilhões). De fato, esse número é apenas um lado da moeda, pois se levarmos em conta as estimativas dos recursos extras vindos do turismo (algumas consultorias falam em R$ 7 bilhões) mais os talvez 25 mil empregos diretos gerados, mais os valores em impostos, etc, talvez (e digo talvez muitas vezes pois isso são apenas estimativas), o valor gasto não seja tão significativo, até mesmo porque não poderia mudar o que acontece na saúde e educação do país que custam juntas anualmente mais de 440 bilhões de reais.

As reclamações pré-eleitorais relativas as incertezas da economia procedem, mas elas não são peculiares a uma Copa do Mundo. Se por um lado podem alimentar um clima geral de insatisfação, por outro as perspectivas não parecem tão dramáticas nesse momento (mesmo que 2015 já seja dado como um ano ‘de ajustes’ – leia-se isso do pior modo possível). As obras prometidas não foram terminadas, ou estão sendo terminadas ‘no momento’, mas o fato é que todas elas estão trazendo melhorias, difícil uma reclamação vir tão forte por algo que se nota vai melhorar a vida das pessoas logo, logo.

Do outro lado, difícil explicar as manifestações generalizadas somente por ‘oportunismo político’, pois vem envolvendo, desde o ano passado, grupos que normalmente não tem esse tipo de interesse eleitoral. Fácil explicar porque as pessoas não protestaram ‘antes’: simplesmente porque se acreditava que o país estaria em outra situação (em todos os itens citados) há sete anos atrás, para não falar que sempre se pensa (possivelmente por razões evolucionárias) que o futuro sempre será melhor que o presente. Já sobre o ‘que já foi roubado já foi’, melhor nem comentar, pois esse argumento não parece ter sido muito feliz.

O que parece que acontece é um fenômeno de escolha social: a mobilização em torno da Copa está sendo percebida por muitos brasileiros como sinal de sua irrelevância social. Não é que os 30 bilhões façam grande diferença, mas se eles existiam, por que não foram antes colocados em setores cruciais para o bem-estar da população? Se padrões ‘tipo FIFA’ poderiam ser executados por nossos governos, por que estão sendo implementados para o bem-estar dos visitantes e não das pessoas que vivem aqui? Se existiam padrões de mobilidade urbana, sanitários, de transporte, etc, por que não antes, para a gente? Se um país pode mobilizar-se com tanta força para promover um evento, por que não se mobiliza para modificar realidades tão duras, que causam tanto sofrimento a tantos brasileiros? Se quando a FIFA demanda ela é atendida, por que quando um cidadão qualquer reclama ele ou ela não é tão prontamente atendido?

É esse sentimento de irrelevância que parece ser a origem de um grande sentido de injustiça presente na sociedade brasileira e que não tem a ver com nenhum partido específico, mas com todo um sistema em funcionamento. A remoção de milhares de pessoas (algumas estimativas falam em 170 mil famílias) para obras da Copa é parte disso, assim como a ‘limpeza’ das cidades dos mendigos (noticiada pelo El País) para receber os turistas, assim como a truculência e intolerância da polícia com os movimentos sociais.

A maioria esmagadora dos brasileiros vai assistir a essa Copa como sempre assistiu às demais: pela televisão. Não há dúvida que os gols que serão marcados pelo time Brasileiro darão muitas alegrias a todos, mas possivelmente quem estará nos estádios serão aqueles mesmos para os quais o país já funciona, além de claro, uma elite internacional (diretores de empresas, celebridades, etc) que virá ao país para se divertir. Nesse momento o cidadão comum é bombardeado por todos os lados por um comercialismo agressivo e campanhas que estabelecem vínculos afetivos com o evento, ‘porque assim se ganha mais dinheiro’.

A Copa já está acontecendo. Já vivemos um momento histórico. Podemos quase nada. Somos meros observadores de um mundo feito para poucos. Mas podemos ser honestos com nossas verdades e dizer como realmente nos sentimos perante as situações que vivemos. O maior legado que essa Copa pode deixar aos brasileiros não são as obras, nem mesmo o dinheiro dos turistas, tampouco a história de uma desejada vitória nacional, mas a clareza de que o cidadão está cansado de ser invisível e irrelevante aos olhos públicos.

 

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