A Copa: escravos de nossas paixões?

escravidao

Disse o filósofo iluminista escocês David Hume que nossa razão é escrava de nossas paixões. Faz sentido. Muitas vezes nossa razão não consegue ser superior aos nossos sonhos e ilusões. Quando essas paixões são ainda alimentadas por uma tsunami midiática devastadora (com comerciais, anúncios, histórias de vida dos jogadores do Brasil, imagens, reportagens, vídeos, canções sobre a Copa e uma atitude festiva promovida por finalidades comerciais) não há mastro, nem Ulisses que resista ao en-canto das sereias (ou dos sereios, melhor dizendo, porque celebramos apenas o futebol masculino como se as mulheres não jogassem o mesmo esporte).

Mas mesmo assim, venho aqui confessar que não consigo superar vários ‘já-entendis’:

1. Já entendi que o dinheiro colocado na organização da Copa (algo como R$30 bilhões) não poderia revolucionar a saúde e educação no nosso país. Mas continuo não entendendo porque, se esse dinheiro (que não é desprezível) podia ser mobilizado, porque não o alocamos antes para construir, equipar e qualificar, escolas e hospitais? Porque investir na alegria e no orgulho nacional quando ainda existe tanto sofrimento?

2. Já entendi que a corrupção na FIFA é endêmica e que o lucro que ela vai ter é um ‘custo’ a ser pago pela honra de termos os jogos ‘na nossa casa’. Mas continuo não entendendo porque tivemos que aceitar tudo que veio da FIFA, da mudança da lei que proibia a venda de bebidas alcólicas nos estádios até o cancelamento de descontos a estudantes e idosos, passando pela isenção de impostos a FIFA. Continuo sem entender porque as leis da FIFA são mais poderosas do que as leis dos países (nem o Conselho de Segurança da ONU se mete muito nas leis dos países!) e porque todos parecem aceitar isso com tranquilidade.

3. Já entendi que o despejo de talvez 250 mil  (ou seriam 170 mil?) pessoas para construir instalações necessárias a Copa era fundamental para viabilizar alguns projetos urbanísticos. Mas continuo sem entender porque esse problema não foi resolvido prioritariamente, com vantagens concebidas a essas pessoas que parecem terem se tornado invisíveis nesse momento (assim como em uma ditadura onde temos os ‘desaparecidos’) muito antes dos jogos começarem.

4. Já entendi que Deus precisou de 6 dias para fazer o mundo (no sétimo ele descansou, verdade?) e que devemos ficar contentes com as obras que já foram realizadas para a Copa, e que as que foram planejadas mas ainda não executadas serão feitas ‘a tempo’ como parte do ‘legado’ deixado para o futuro. Mas continuo sem entender porque se disse que essas obras seriam necessárias ‘para a Copa’ e porque agora minimizamos o fato de elas não terem sido feitas. Prometemos que tudo seria feito dentro do previsto, mas tem muito que está ainda sendo terminado de última hora e outro bom tanto que não ficará pronto. Não entendo porque pagamos por obras superfaturadas, que não serão entregues a tempo, que estão levando a produtos de qualidade duvidosa, causando ainda a morte de muitos operários, que são praticamente ignorados -como se morrer gente no trabalho fosse algo normal.

5. Já entendi que estamos em um momento de festa e que nossos noticiários apenas refletem essa ‘grande celebração’ do povo brasileiro. Mas continuo sem a mínima ideia do porque estamos noticiando apenas o bonito, enquanto toda a imprensa estrangeira, da BBC na Inglaterra ao El País da Espanha, estão mostrando um Brasil de filas, protestos, atrasos e desculpas, que não estamos vendo no nosso noticiário nacional.

6. Já entendi que o futebol é uma -se não a maior- de nossas paixões nacionais e que esse é um momento histórico. Mas não entendo como podemos viver em um país, no qual assistimos diariamente emergências fechadas, escolas sem professores, pessoas sendo humilhadas entrando em ônibus em condições degradantes, taxas de homicídio de países em guerra, e não temos nenhuma paixão pela promoção da dignidade humana, dedicando todos nossos esforços para uma vida feliz e decente para todos. Não entendo como mudar tudo isso não poderia ser histórico para a gente.

7. Já entendi que são apenas os ‘maus brasileiros’ (com ‘complexo de vira-lata’ e ‘elitistas’ que não apreciam a importância que o futebol tem para nossa cultura e nossos valores) que são contra a Copa nesse momento.  Mas não entendo como o querer estar em um país que coloque mais as coisas em perspectiva, pensando não só hedonisticamente na alegria do gol, mas no combate a injustiças inaceitáveis que são estruturais, no momento em que as sereias cantam, no momento em que as paixões se exaltam, pode ser qualificado como ‘complexo de vira-lata’.

Repito para mim mesmo que esses fatos e percepções não são importantes. Por que eu não entendo os ‘já-entendis’? Devo ser um idiota, perfeito ou não (não faltará gente que chegue a essa conclusão rapidamente ao discordar de algo dito aqui, disso tenho certeza!) Deveria ser natural pensar que o orgulho nacional, a emoção na hora do hino, a alegria do gol e do sentimento de vitória, a satisfação de ser respeitado internacionalmente em um esporte tão importante em tantos países, seria suficiente para torcer para o Brasil. Mas não consigo. Penso…. a paixão da Copa e as sereias, as sereias e a Copa. E depois? E minha memória do que houve antes? Difícil entusiasmar-se quando a razão atrapalha. Vai embora razão, vai!!

Vivemos em um país que sonha com a inclusão e justiça social, mas na hora da Copa, despejamos, roubamos, desperdiçamos, ignoramos, violamos direitos, nos submetemos e fechamos os olhos ao que não interessa. Pois o que interessa é a paixão do gol. Mas ela é tão fugaz…. Somos de fato apenas escravos de nossas paixões. Escravos e escravas.

 

 

 

 

 

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