Être, ou ne pas être Charlie, c’est ne pas là la question

As opiniões das pessoas sobre os atentados da semana passada em Paris se dividiram em linhas ideológicas previsíveis. Mais do que isso, moldaram seus julgamentos de modo a deixar pouco espaço para a tolerância e para o diálogo. Depois de uma semana lendo artigos e posts, parece que somente restou aos mortais escolher entre um dos dois campos: o do ‘je suis Charlie’ ou o do ‘je ne suis pas Charlie’. Ser ou não ser Charlie, eis a questão!?!?

Eu bem que me esforcei para simpatizar com um dos lados, de modo imediato, instintivo, sem pensar, como uma reação visceral, impulsiva (teria sido tão mais fácil!), mas não consegui. Inicialmente, confesso que me choquei com o ‘je suis Charlie’ pois conhecendo um pouco a revista, sempre a achei divisiva e duvidosa, de um humor muito obcecado com a questão religiosa, nunca foi uma revista que gostei muito. Mas depois entendi que o ‘je suis Charlie’ representava mais do que um apoio à revista ou mesmo uma simples demonstração de solidariedade à morte horrível de jornalistas: ao invés foi parte de um movimento pela liberdade de imprensa e de ideias -condição inalienável de qualquer sociedade democrática. Como então não ser Charlie?

Em certo sentido foi fácil entender as mensagens de ‘je ne suis pas Charlie’ se dirigidas aos atributos duvidosos da revista. Mas por outro foi difícil fazer sentido sobre como as pessoas que se sensibilizaram em relação a esse caráter ofensivo da revista (que não era somente contra os muçulmanos) não apreciaram o significado do valor da liberdade para a vida democrática. Quando ‘navegar na democracia é preciso’ não se pode transigir com a liberdade.

Mas qual liberdade? Será que a liberdade de ofender conta? Será que podemos ofender a quem desejarmos? Dentro dos monoblocos ‘être ou ne pas être’, quem saiu em defesa da liberdade se sentiu compelido mecanicamente a defender a liberdade de ofender. Mas essa liberdade não existe legalmente nem no Brasil nem na maioria dos países democráticos do mundo. Crimes de ofensa e calúnia existem assim como históricos de prisões por crimes de injúria. A liberdade negativa é fundamental para o exercício da democracia, como já dizia Isaiah Berlin. No entanto, as contradições se multiplicaram e pessoas de bom senso que enxergaram as limitações e provocações ‘do Charlie’ jogaram o valor das liberdades para debaixo do tapete; por outro lado os defensores (e defensoras) da liberdade ignoraram direitos civis (como o direito de não ser ofendido em função da raça, cor, gênero, etc).

O que parece marcar esse debate na minha modesta opinião é que todos conseguem estar errado em algum ponto. A linha ideológica que separa as pessoas apesar de distante parece tão frágil, e a rejeição ao campo oposto (sim, vindo de um mundo ‘shakespeareano’) é tão forte, que nada floresceu entre o mundo dicotômico do ‘être ou ne pas être’. O que floresceu foi o oportunismo político, o radicalismo (dos dois lados), a incompreensão, a visão parcial, incompleta das condições necessárias para uma tolerância democrática.

John Rawls tomou um ‘atalho’ ao excluir a religião das fontes de valores presentes nas sociedades liberais (e não dar qualquer papel as teorias abrangentes de valores), mas a religião é uma parte da vida que não tem como ser ignorada. Mesmo quem não tem religião acredita em fundamentos não-negociáveis para uma boa vida em sociedade (mesmo que não sejam metafísicos). No meu caso, confesso que como Católico sou ‘fraquinho’ (vou pouco ou quase nunca à igreja). Mas sinto que os ‘direitos humanos’ são a minha religião. Imagino qual seria minha reação aos cartoons do ‘Charlie’ se eu fosse muçulmano. Se meus valores fossem diferentes, baseados em princípios menos seculares e universais e mais religiosos. Seguramente não sairia matando ninguém, mas é provável que ficasse tão indignado como quando vejo alguém humilhar outra pessoa pela sua cor ou pela  sua pobreza ou o seu gênero. Como os amantes da liberdade podem não ver isso?

Adam Smith estava certo: a empatia (que ele chamava de ‘simpatia’) é fundamental para a construção das relações sociais. Ou como Martha Nussbaum diria, mais contemporaneamente, as ’emoções políticas’ devem ser baseadas em um círculo de entendimento amplo. Parece razoável supor que relações civilizadas entre as pessoas devem combinar liberdade e respeito. Qualquer mundo que mude esse frágil balanço está condenado a formas autoritárias de vida política e social. O que muda é apenas o tipo de opressão. Ser ou não ser Charlie, essa não é a questão.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s