O dia da matemática?

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A qualidade da nossa educação matemática está na 136a posição segundo dados do Fórum Econômico Mundial. Já no 3o ano do ensino fundamental 57% dos alunos não tem o nível adequado de matemática (ANA, 2014), passando para 64% dos alunos no 4o ano (UNESCO, 2014) e chegando a 90.7% no final do ensino médio (SAEB, 2013). Ou seja, começamos a ‘desaprender’ matemática desde cedo. Se somos um desastre no ensino da matemática, por quê deveríamos celebrar o dia da matemática?

Pior: a matemática hoje é um fator de humilhação, de incapacitação, de erosão de auto-estima, de nossas crianças e jovens. A matemática, como é ensinada, não apenas nas nossas escolas públicas, é responsável pelo exército de ‘analfabetos funcionais da matemática’, como mostrou a  Pesquisa Instituto TIM/Círculo da Matemática sobre a matemática dos adultos. Então por quê celebrar aquilo que nos faz sofrer? Por quê destacar aquilo que nos faz menos?

A resposta é simples: a matemática que nos oprime também é a que pode nos liberar; a matemática que promove a desigualdade (pois pouco mais de 20% das mulheres no Brasil entram em profissões que precisam de matemática), também pode gerar justiça social; a matemática que exclui os alunos/as da escola, é a que pode gerar inclusão; a matemática que atrofia o crescimento econômico (40% da baixa produtividade da nossa economia é explicada pela baixa nota do Brasil no teste PISA com jovens de 15 anos) é a que pode criar um novo futuro para todos com futuras gerações mais produtivas. Mas a matemática não é importante apenas para o mundo que vivemos, ela é importante também para o mundo que queremos construir, com mais cidadania, com pessoas que entendam melhor o mundo onde vivem, onde os números dos noticiários representem algo para elas.

Não há futuro para o nosso país sem investimentos expressivos em educação de qualidade. A matemática está no centro da busca por essa melhoria de qualidade. Devemos celebrar o dia da matemática como quem celebra o dia de nossa independência, pois esta nela efetivamente a nossa independência: a independência da pobreza, de desigualdade, dos baixos salários, da indiferença política, do ethos subdesenvolvimentista, das pedagogias educacionais abstratas que não preparam os professores para as salas-de-aula e de políticas públicas que não empoderam efetivamente as pessoas. Parafraseando Manuel Pina, que dia não será aquele em que transformarmos nosso 0 (zero) em matemática no ‘Oh!!’ mais bonito, do sonho mais fraterno de uma sociedade mais justa?!?

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