Ao DD (dia do Duílio)

 

asterix

O facebook nos convida diariamente a enviar aquele ‘parabéns’ rápido as pessoas que desfilam na lista dos aniversariantes. Algumas vezes essas linhas cumprem com maestria protocolos de civilidade. Muitas outras vezes, no entanto, as poucas linhas que possamos escrever apazigua nosso breve momento de tristeza de não estar perto de pessoas queridas. Frequentemente, esse espaço é inadequado. Foi o que eu senti hoje ao ver que era aniversário do meu querido Mestre Duílio (bom, tecnicamente falando ele é PhD, mas falo em ‘mestre’ como uma expressão carinhosa).

O Professor Duílio foi o meu professor de Introdução a Economia I, lá em 1984. Mas ele foi muito mais do que um mero professor de introdução a economia. Já corria a fama, antes mesmo de eu me matricular, que as pessoas sofriam muito no seu curso, que tinham que ler muito, que ele era muito exigente, que poucos, ou quase ninguém tirava 10 no seu curso. Lembro do meu primeiro dia de aula com ele no qual muitos de nós entramos totalmente apavorados na sala-de-aula. E o que vimos? O terror? O desespero? O medo? Não, vimos o amor…..O amor de alguém que falava com paixão sobre a teoria econômica, o amor de alguém que usava a mesma teoria para dar sentido ao mundo ao seu redor, o amor, transformado em humor, que dá graça à vida. Lembro da minha primeira aula como uma experiência revolucionária. Foi um ‘kabum!!’

Sabe aquele momento na vida em que você vê algo que dá sentido à sua vida? Pois bem, a ‘aula do Duílio’ fez isso comigo, assim como fez com tantos outros. Leve em consideração que meu pai era economista e a minha mãe tinha estudado economia (ainda lembro de ler textos de economia para a minha mãe enquanto ela lavava a louça do jantar). A economia não era de toda estranha para mim quando decidi fazer economia. Mesmo assim, a ‘aula do Duílio’ re-significou a ideia de ser economista para mim.

No final do curso, percebi que todos os boatos, tudo o que diziam…..eram a pura verdade! Nunca li tanto na minha vida (até aquele momento), nunca trabalhei tanto fazendo listas, sofrendo para entender alguns conceitos complexos já para um aluno de primeiro semestre, lendo a história do pensamento econômico como ela era, a microeconomia, a macroeconomia, os fundamentos de uma disciplina que moldaram não somente futuros interesses meus e de meus colegas mas que instilaram em todos nós valores de pluralismo metodológico e tolerância que sempre marcaram (com muita ironia, é verdade) as posições do Duílio. Demorei quase dois anos estudando economia para aprender coisas verdadeiramente novas além do que o Professor Duílio foi capaz de nos ensinar em um semestre.

O conhecimento, no entanto, é perecível, mas os valores que ele nos deixou como alunos, bom, esses, pelo menos para mim, foram marcantes. O valor da excelência, de ter orgulho de saber o que você fala, o valor do uso do raciocínio, de descobrir o que vai além das aparências, o valor do humor, de mostrar que a vida com suas ironias (e como a economia não é uma das maiores ironias da humanidade?) é muito mais divertida, o valor do estudar duro, o valor da competência, entre outros, todos foram estimulados na ‘aula do Duílio’. São valores que somente podemos honrar trabalhando para chegar perto, pois de fato estão longe do nosso alcance. Para isso faz falta talento, um talento que poucas pessoas como o Duílio têm igual.

Então ao invés de desejar somente um ‘feliz aniversário’ eu queria propor que o dia 8 de julho fosse o DD – o dia do Duílio, e desses valores que ele carrega por onde passa e que faz com que o mundo seja um lugar com mais esperança para se viver.

 

PS: anos depois quando o Duílio foi nosso professor de Economia Política e nos reuníamos aos sábados pela manhã para ler o Marx, ví na casa dele uma edição do Asterix em uma linguagem muito estranha, o catalão….

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One thought on “Ao DD (dia do Duílio)

  1. Cheguei aqui. Flávio. Chorei, ri, chorei de novo, fiquei em estado de êxtase, júbilo, alegria facilmente conversível em lágrimas. Sorri. Ri-ri-ri. Teria que escrever outro tanto, ou mais, para comentar cada gota de tuas referências elogiosas e -temo- razoavelmente verdadeiras. Claro que nem de tudo lembro com muita clareza. E ficam enigmas talvez para sempre. Mas a resposta a um deles agora ficou clara para sempre: quem te influenciou a gostar da língua catalã e, como tal, procurar uma garota que a falasse com desenvoltura.

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