Reforma do Ensino Médio: um caso de ‘planejatite atrófica’?

 

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Os sintomas são comuns: políticas com pouco ou nenhum debate público; sem uma estratégia; sem um horizonte de realização temporal; quase sempre uma carta de ‘fins desejados sem os meios necessários’; curto-prazistas; de implementação ignorada; estruturadas em um modelo top-down e com baixo grau de institucionalização. A Reforma do Ensino Médio proposta essa semana parece mais um caso de uma das principais doenças que afeta a política pública brasileira: a planejatite atrófica!!

Em poucos dias muito já se falou sobre a Reforma do Ensino Médio anunciada essa semana. Ela contém alguns aspectos positivos como o aumento da carga horária de 800 para 1400 horas e uma maior flexibilização do currículo. De fato, é imperativo que mudemos nosso discurso sobre escola integral no Brasil e reconheçamos que ‘escola integral’ não deveria ser a exceção, mas a norma. Ou em outras palavras: temos no Brasil uma escola ‘pela metade’ com 4-5 horas (formais, porque na prática é bem, bem menos) de aula por dia quando deveríamos, como faz o resto do mundo, ter uma escola de 7-8 horas. Mas nunca fizemos isso, talvez como sintoma da planejatite atrófica, pois para colocar todas as crianças na escola com metade dos recursos necessários criamos os cursos de meio-turno, colocando um peso injusto principalmente nas famílias mais pobres que não têm para onde enviar os seus filhos no contra-turno e que frequentemente não tem condições de ‘educarem’ seus filhos, ajudando com os temas, como outras famílias de classe-média fazem (ou não, o que explica também a queda do desempenho de alunos das escolas privadas em avaliações nacionais recentes).

Flexibilizar o currículo é reconhecer os/as alunos/as como agentes, como indivíduos que têm interesses e um certo grau de autonomia para julgar o que é melhor para eles. Mas essas escolhas têm que ser limitadas pois a escola não deve servir apenas para satisfazer interesses privados, ela não é um ‘passa-tempo’, mas um meio de socialização (humana e cognitiva) fundamental para a coesão da sociedade e para a criação de um ‘ambiente de igualdade de oportunidades’. A escola não forma apenas capital humano para o mercado, ela forma cidadãos/ãs.

Essas duas características acima parecem positivas. Mas a planejatite atrófica não deixou o governo pensar em um horizonte de planejamento para a construção dessa nova escola. Ignorou tanto a construção literal (pois mais escolas precisam ser construídas) como a construção pedagógica (deve competir à classe do magistério estruturar essa flexibilização curricular). Tampouco deixou, de modo transparente, claro de onde vão sair e qual a magnitude dos fluxos financeiros necessários para a realização desse programa, mais um sinal da planejatite atrófica!

Tratou o problema (do baixo desempenho dos/as alunos/as do ensino médio) como se fosse uma questão educacional isolada que fosse independente do ensino fundamental. Tomemos o caso da matemática: o problema é que 90% dos jovens que terminam o ensino médio saem sem os conhecimentos adequados de matemática. Então, ‘vamos mudar o ensino médio para que isso não aconteça, certo?’ Errado! Já no 4a ano, 64% das crianças vão mal na matemática um problema que se nota também no exame internacional PISA (com jovens de 15 anos, que em tese deveriam estar terminando o ensino fundamental) no qual o Brasil ficou em 58o lugar na última edição (entre 65 países) com 67.1% dos alunos com baixo desempenho. A matemática se constrói da base, o melhor investimento, como já diria o Professor James Heckman, é o inicial, pois ele é o mais produtivo. Pouco adianta tentar ensinar o complexo se o simples não foi apreendido.

Questões estruturais são normalmente olimpicamente ignoradas pela planejatite atrófica. Para que se preocupar com o fato de que nossos professores ganham apenas 50% do que ganham professores em outros países mais desenvolvidos? Para que se importar com o fato de que 40% deles tem um segundo emprego no Brasil? Por que estressar com o fato de que alocamos para alunos/as do ensino fundamental apenas 30% do que recebem alunos de países desenvolvidos como investimento? Melhor focar naquilo que não custa muito, ou que custa, mas não sabemos bem quanto. Claro que o aprendizado não é uma função linear do gasto, mas não se pode usar isso para minimizar o fato de que precisamos investir mais na educação. Melhor focar na esperança de que ‘pessoas de notório saber’ vão querer dar aula? Sério?? Melhor não discutir a debandada da profissão que está acontecendo em alguns estados brasileiros ou do fenômeno do adoecimento dos professores. Mas quem está doente é a nossa política pública: planejatite atrófica, sem erro, levando à atrofia do nosso futuro!

 

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