Ocupa tudo?

ocupa_ri-1370138

Se Voltaire estivesse vivo diria “Discordo das ocupações, mas defenderei até a morte seu direito de fazê-las”. Essa lição básica do autor do “Tratado sobre a Tolerância” já afundou há muito tempo no mar de ofensas, ódio, desprezo e falta de respeito que virou o ‘debate público’ no nosso país. De fato, nunca vi marcas tão claras de uma cultura de ‘hate speech’ cruzando os mais diversos campos ideológicos. O ódio não é monopólio de ninguém. Nas redes sociais as pessoas recheiam seus comentários sobre as ocupações com xingamentos e mais ódio, descaracterizando a posição dos outros. O único objetivo é desqualificar quem pensa diferente, de tal modo que -com o campo arrasado- sobre unicamente a sua opinião.

Nosso contexto histórico é a PEC 55 (antiga PEC 241 com a nova numeração pois passou para o Senado), dado que uma oposição a essa PEC tem sido dita como a principal razão das ocupações. Mas poderia ser qualquer outro. O meu ponto é que o mérito da PEC não importa no que estou dizendo aqui (não é que a PEC não importe, já falei sobre ela em outro post). O que importa é a nossa atitude em relação ‘ao outro’, ‘ao diferente’ e aquele que nos desafia a dizer o contrário do que pensamos. Existem problemas concretos sobre como ocorrem as ocupações, como o que acontece na UFRGS, de diretórios acadêmicos que ocupam o mesmo espaço fisico terem deliberações diferentes, mas não vou entrar nisso aqui.

Quem são os ocupadores(as)? Você acha que eles são estudantes baderneiros, desocupados, esquerdistas, manipulados por partidos políticos, instrumentalizados, inocentes úteis em uma guerra ideológica? Você acha que eles nem sabem bem o que é uma ‘PEC’ e nem entendem as razões do que estão fazendo? Você acha que as pessoas que os apoiam o fazem para manterem seus privilégios como professores de universidades federais? Você não vê nenhuma razão nesse movimento que pretende ir contra a única chance de salvação (de controle de gastos públicos) da economia brasileira depois do descalabro fiscal dos governos do PT com déficits bilionários insustentáveis?

Ou, por outro lado, você acha que os ocupadores(as) estão de fato lutando pelo bem comum? Que estão, dentro do seu mundo -que é a universidade- exercendo uma forma de protesto pacífica, ordeira, legítima por algo que interessa não somente a eles, mas à sociedade como um todo, pois congelar em termos reais os gastos com saúde e educação (entre outros) sem mexer na estrutura de privilégios de uma estrutura tributaria regressiva é retirar direitos duramente adquiridos pelos mais pobres nos últimos anos? Você acha que é um absurdo jogar a polícia de choque nos estudantes quando a polícia não os protege da violência urbana?

O meu ponto aqui é que tanto faz, pois todas as pessoas têm direito, em uma sociedade que se diga democrática, à sua opinião. Mais ainda, que a falta de respeito a opiniões diferentes tem implicações dramáticas de busca de um ‘monolítico moral’ na sociedade indesejável, pois não democrático. Como John Rawls já nos explicou devemos abrir mão de ‘doutrinas abrangentes’ em democracias em prol da pluralidade de vozes. Isso não quer dizer que você não tenha sua opinião, nem que não a defenda, mas que não considere um ‘idiota’ outra pessoa apenas por ter uma opinião diferente.

O fenômeno brasileiro no contexto das ocupações é uma pequena manifestação de um problema mais geral das sociedades contemporâneas de distância social. As razões para isso têm sido discutidas por sociólogos e filósofos como Richard Sennett no seu “A Queda do Homem Público” no qual ele mostra como a vida nas cidades tem nos privado do convívio com ‘diferentes’ (o que tem nos tornado mais sectários) ou então nos “Tempos Líquidos” de Zygmunt Bauman que explica a racionalidade de reagirmos com agressão a argumentos diferentes dos nossos. Diana Mutz no seu “Escutando o outro lado” mostra com estatísticas como acabamos falando apenas com iguais, evitando argumentos diversos.

Não vou comentar exemplos ou instâncias especificas desse discurso de ódio que tenho visto (nem um que me envolve ao assinar uma carta de professores do departamento de apoio ao direito de ocupação dos estudantes). Mas saliento seus elementos analíticos. Assim, quando sua critica é do tipo ‘geral’ (os petralhas, os coxinhas, etc), ou quando ela ‘demoniza’ o adversário, imputando a ele(a) motivações que você não tem como comprovar, ou quando você procura desqualificar o diferente, colocando alguma característica que o/a desabona, ou quando oferece uma análise desengajada sem nem citar o argumento oposto….bom, quando faz tudo isso, em maior ou menor grau está cometendo um discurso de ódio (ou ‘hate speech’). Se tem cheiro de ódio, gosto de ódio, cara de ódio, barulho de ódio, textura de ódio….comece a suspeitar que pode ser ódio.

Não se sabe se a frase mais famosa de Voltaire foi realmente escrita por ele. Mas seja como for, nunca ela foi tão necessária:  “Eu não aprovo o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dize-lo”. Seja de que lado você estiver sobre a questão das ocupações, pense se não está fazendo um discurso de ódio. Procure enxergar o outro como seu amigo(a), veja se isso mudaria algo. A verdade simples é que não há verdadeira solução (uma que seja estável, pois envolva o consenso) sem diálogo. Se lutamos por alguma causa justa não faz sentido ser injusto com os outros.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s