O discurso de formatura inacabado

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Agora já posso falar. Um médico disse que destruí a cartilagem entre meu pé e minha perna. Outro agora investiga se tenho algo ‘quebrado’ ou ‘rachado’. Foi o resultado de caminhadas intensas e corridas que fiz no final do ano passado. Seja como for, tem doído muito. Ontem à noite na Cerimônia de Formatura dos alunos e alunas da turma de Economia 2016/2 da UFRGS não foi diferente. Senti, no entanto, que, na capacidade de paraninfo da turma, não deveria ir de tala ortopédica e disfarçar o possível. Acho que consegui. Não foi difícil no geral pois a alegria de todos foi contagiante. Mas não achei que consegui dizer tudo o que havia pensado dizer para meus queridos alunos e alunas no meu discurso de formatura. Então vai lá o que ficou entalado:

Mesmo sabendo dos desafios profissionais que vocês terão pela frente, não quis focar nisso, mas em questões pessoais e sociais. O que aprendi de economia até agora me faz acreditar que as mesmas condições econômicas e materiais que nos trazem conforto nos alienam muitas vezes do viver-bem: viver com mais tempo para a gente se divertir, para jogar conversa fora, tempo para ter tempo para nossos pais, nossos filhos, amores, amigos e pessoas queridas. Em condições agudas de desigualdade como vivemos no nosso país somos pressionados a ‘ter’ para exercitar o nosso ‘ser’. O consumismo nos distancia da boa vida pois buscamos (inconscientemente) respeito e consideração das demais pessoas pelas nossas relações de posse. Essa é uma tensão permanente, a qual economistas como Adam Smith e Marx já tinham nos alertado, mas que em condições extremas de desigualdade, causa vítimas (mais evidentes) não só do lado da pobreza mas também daqueles com um bom ponto de partida na vida, como vocês.

Vivemos uma época de individualismo radicalizado. Uma época na qual vemos pessoas protestando contra o ‘politicamente correto’ (como se não existisse uma razão de ser para tratar as pessoas com respeito e dignidade). Vivemos uma época de xenofobia. Vivemos uma época na qual pessoas não têm vergonha de negar a discriminação de gênero e a racial. Vivemos uma época em que governos parecem não ter mais comprometimento com direitos humanos e sociais. Acompanhamos manifestações constantes de ódio, de intolerância e agressão não somente nas redes sociais mas nas redes reais, no cotidiano. As pessoas tiram não apenas da sua vida ‘virtual’, mas da ‘real’ qualquer referência a pontos de vista divergentes. Vivemos em bolhas. E aprofundamos a intolerância. A incompreensão. A violência urbana nas grandes cidades brasileiras é surreal, com cenas de barbárie legadas ao armário da indiferença, pois não sabemos o que fazer delas. Vivemos o ‘pior dos tempos’, nesse sentido, o ‘inverno do desespero’, como diria Charles Dickens.

Mas é aqui que tudo que aprendemos de economistas como Amartya Sen, sobre a importância de sermos autônomos, (senhores e senhoras do nosso próprio destino) é fundamental para podermos construir uma nova história. E para isso precisamos lembrar que o ser humano é maior do que a economia. Esta é apenas um ‘meio’ para fins maiores do bem-viver. Precisamos colocar em perspectiva que antes de qualquer arranjo econômico vem a consideração, o respeito pela individualidade e humanidade em cada um de nós. Resolver a crise (ou as crises) não é mais importante que o respeito que devemos ter pelo outro. E em nossas vidas privadas isso tem que ser vivido. Não podemos comungar da generosidade e humanidade no mundo das ideias se nosso cotidiano formos egoístas auto-centrados. Precisamos resgatar a ‘simpatia’ (empatia) Smithiana, que nos confere não somente o elo fundamental entre os seres humanos mas a busca de uma sociedade estabelecida em relações um pouco mais imparciais e menos injustas.

Desejo que vocês cultivem essa consciência das tensões entre o material e o moral e a busca por uma vida livre e digna. Não vai ser fácil. As desigualdades são sempre naturalizadas. Vai depender de cada um de vocês, no seu cotidiano, dentro de suas casas e no resto de suas ações, superar  o ‘pior dos tempos’, que traz consigo o pior das pessoas. A economia que empodera é também a que aliena. Que vocês saibam resgatar o humano e o ‘melhor dos tempos’, como diria Dickens, em tudo aquilo que farão.

 

 

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