“Senhor, dá dinheiro pra mim comer?”

guarulhos

As fomes no Brasil são múltiplas. Estava no aeroporto de Guarulhos, no ainda novo e chique terminal 3, em uma lanchonete, chegando de uma viagem e esperando para começar outra. Escuto uma sequência nas minhas costas de ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’, ‘senhora, dá dinheiro pra mim comer?’, ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’….e o silêncio servindo como moldura para o próximo ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’ E quando chegou a minha vez, assim como os outros, respondi com um sorriso amarelo que ‘não’, colocando em marcha a metralhadora verbal do ‘senhor, dá dinheiro pra mim comer?’ Logo eu que já me resolvi a dar algo, mesmo que pouco, para quem quer que me peça (a menos que não seja uma situação de risco). E até agora estou pensando porque fiz isso.

As razões para não dar qualquer dinheiro para o rapaz, que devia ter 18-19 anos são compreensíveis. Primeiro, o rapaz poderia estar mentindo, poderia querer o dinheiro para algo menos essencial do que comida, como por exemplo para drogas. Segundo, o rapaz escolheu vir a um aeroporto, lugar com turistas e pessoas com dinheiro (pelo menos mais dinheiro do que a média da população) e o pedido pode ser visto apenas como uma tentativa de explorar a boa fé alheia. Terceiro, o rapaz era jovem e sem nenhuma deficiência aparente, poderia estar trabalhando se quisesse, poderia se imaginar. Quarto, o rapaz chegou de surpresa e é bem provável que tenha assustado a todos com o inusitado do seu pedido em um ambiente ‘novo e chique’ do terminal 3. Por último, pode ser que depois da primeira resposta, todos tenham apenas reagido sem pensar, como ‘seguindo a manada’ e sem razões tenham recusado por ser o comportamento pré-julgado inicialmente como correto.

Mas o quão sólidos são esses argumentos? Será que podemos considera-los acima de qualquer dúvida? Primeiro, a humanidade é muito complexa para que possamos predefinir suas necessidades. ‘Comida é pasto, bebida é água….você tem fome de quê?’ Quantas vezes já vimos pessoas deixarem de comer para comprar algo que lhes dê (ou seja entendido que lhes dê) dignidade? Garotos que passam fome para comprar um boné de marca para se sentirem respeitados? Pessoas que enfrentam as tensões do endividamento para comprarem bens de consumo duráveis para criarem um sentimento de alegria nas suas famílias? Pais e mães enfrentando privações para darem tudo o que podem aos seus filhos? Quem sabe, na vida de quem não tem nada -ou que carrega um ou muitos passivos emocionais- o valor de suas necessidades? Não deveríamos prejulgar na hora de dar o dinheiro.

Segundo, é verdade que o rapaz veio ao aeroporto. Mas onde mais ir para encontrar pessoas para as quais um par de reais não faça diferença? Muitas vezes pessoas pobres são barradas em restaurantes e em shopping-centres. Quem não lembra das lojas dos shoppings fechando pelos ‘rolezinhos’? Onde mais ir? Já sobre se sentir ‘explorados’, somos realmente explorados e roubados tão mais pelas nossas instituições públicas, que nem percebemos. Essa mesma pessoa que estava pedindo o dinheiro, quando (espera-se) finalmente possa comprar algo para comer vai pagar um imposto indireto que é extremamente regressivo e injusto, pois tributa mais as pessoas mais pobres, como proporção do que têm.

Terceiro, por que parece natural que jovens pobres devam trabalhar para comer quando não esperamos o mesmo dos filhos(as) da classe-média que podem continuar estudando até 24-25 anos (ou mais, dependendo do curso)? E achamos isso natural para eles/as? Por que não queremos que nossos filhos trabalhem até terminar uma faculdade e achamos que os filhos ‘dos outros’ (pobres, obviamente) têm que trabalhar ‘para sustentarem seus luxos’? O que são luxos para um adolescente ou um jovem que muitas vezes busca apenas o respeito a sua individualidade e identidade? E que culpa tem esse jovem de ter nascido pobre? (pois se não tivesse nascido pobre seria muito improvável que estivesse pedindo).

Quarto, susto não é desculpa para ‘não pensar’. O susto significa apenas que no default temos uma reação de bloqueio de alteridade. O susto significa que estamos preparados para ignorar, desconsiderar, acreditar na mentira e na maldade, porque ela vem de um jovem com características estabelecidas. Mas o que teria acontecido se tivesse entrado um jovem com outras características sociais, econômicas e étnicas? Será que a resposta seria a mesma? Em que sentido a nossa ‘preparação para negar’ a existência e necessidade daquele jovem não é uma manifestação de estereótipos que construímos? E com isso, me permito perguntar, se essa negação não é uma forma de racismo? Teríamos agido igual se outro jovem (tipo ‘loiro de olhos azuis’) tivesse feito o mesmo pedido?

Por fim, os comportamentos ‘de manada’ são os mais irracionais possíveis e consistem em uma ‘razão sem razão’ ou sem fundamento. São sem dúvidas elementos de ordem prática, pois definem um agir, mas raramente encarnam comportamentos reflexivos. E por isso não são propriamente razões: podem explicar, mas nunca justificar.

A pobreza do rapaz que fala para ‘mim’ comer reflete suas várias pobrezas e abandonos que são reiterados a cada momento, em olhares desconfortáveis, desconfiados, alguns mesmo de desprezo. Sem apoio da família, podemos imaginar, e abandonado pelo Estado, é também ignorado pelos semelhantes. Em retrospecto, não há nenhum argumento para a minha negação do qual eu possa me orgulhar. Talvez alguém que me leia tenha melhores argumentos. Não digo que não existam. Eu apenas não os tenho. E lamento. Essa é uma lição para ‘mim’ aprender.

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