A carne fraca, o idh fraco e a sociedade fraca

 

 

temer

Vergonhoso. Constrangedor. O dia seguinte ao anúncio da operação ‘carne fraca’ mostrou muito, de forma escancarada, o país no qual vivemos; deixou claro para quem os governos trabalham, quais são as prioridades públicas e o quão irrelevante somos enquanto população. No dia seguinte e pelos próximos dias da semana os noticiários foram dominados por manchetes culpando a Polícia Federal por falta de evidências, por generalizações, mostrando o ‘drama’ da perda de mercados com as consequentes dificuldades para o país.

Mas um segundo, por favor. Quem é o país? Não é preciso nenhuma operação carne fraca para saber que a nossa indústria alimentar está longe de ser boa. De ‘danoninhos’ com substâncias proibidas por pediatras, a frangos com excesso de antibióticos, com frutas e vegetais com níveis de agrotóxicos acima do que a OMS permite, com embutidos com excesso de nitratos, com bolachas com excesso de sal e açúcar, queijos reprocessados, leite com uréia, e por aí vai. E quando temos uma oportunidade de melhorar a fiscalização e ter uma investigação séria sobre os alimentos oferecidos à população, o que acontece?

Temos uma discussão totalmente desvirtuada, fora do eixo, centrada apenas nos interesses ‘que importam’; os da indústria, claro, de suas exportações bilionárias. E a saúde do povo brasileiro? Por que ao invés de dizer que a ‘carne é forte’ não aproveitamos esses indícios da operação carne fraca para varrer as 4850 unidades produtivas? E por quê não aproveitamos isso para ter uma discussão séria sobre a indústria alimentar brasileira? Depois de tanta minimização e absurdos (como pessoas defendendo na televisão que cabeça de animais é um ótimo ingrediente do ponto de vista nutricional) foi fácil esquecer que essa foi a operação da PF que envolveu o maior número de policiais da história (1100 policiais para cumprir 309 mandatos judiciais). O ‘novo enredo’ de que a operação foi ‘somente sobre corrupção’ pois a ‘nada se quer dizer sobre a qualidade do produto’ é um retrocesso ao debate inicialmente levantado, por pura pressão econômica e política.

Poucos noticiários deram voz à sociedade civil, às associações de consumidores ou mesmo à população na rua. O foco emocional das notícias durante toda essa semana foi nos estragos comerciais e na perda de empregos (como se essa fosse de verdade uma preocupação por trás de toda essa discussão). A alta cúpula do governo se comportou como se fosse parte do departamento comercial de algumas das empresas envolvidas. E a mídia? Comprou tudo como lhe foi vendido. Assim como na divulgação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) essa semana que lhe foi dito que estávamos na posição 79o do ranking antes e que continuamos nela e ninguém questionou uma vírgula.

Mas realmente estávamos? Não precisa acreditar em mim. Olhe os jornais de 2015 quando se anunciou o último IDH antes desse e verá que o país estava na posição de 75o. O que isso significa? Que caímos 4 posições. Mas a interpretação da estagnação é boa pois não mostra o quão fraca é a nossa carne. Mantém as instituições em harmonia sem a ‘perda de mercados’. Não vou entrar aqui nos aspectos técnicos sobre como as estatísticas do IDH são atualizadas antes de fazer a conta da evolução do ranking anual, pois já postei muito sobre isso no passado. O meu ponto aqui é outro: é sobre a nossa mídia, nossa fraqueza como sociedade que come o que lhe dão. Sobre governos que não são cobrados por fazer o seu trabalho, que é (ou seria?) pensar e agir pelo bem-estar da população. É sobre uma sociedade fraca, onde o IDH é fraco, a carne é fraca, os governos são fracos e o único que é forte é a vontade e o poder de quem realmente manda no país.

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2 thoughts on “A carne fraca, o idh fraco e a sociedade fraca

  1. Análise impressionante. Penso que maior desmoralização do Brasil no exterior é muito mais a desigualdade, a corrupção, a degradação ambiental do que o impacto de más notícias (más? como ressaltas, é hora de melhorar a qualidade dos produtos consumidos internamente) nas exportações.

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