IDH: a nossa responsabilidade

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A interpretação de que o Brasil ficou estagnado no seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) por conta da maior recessão da sua história é no mínimo deturpadora. Ela omite profundas questões estruturais da economia e da sociedade brasileira passando (involuntariamente ou não) a mensagem de que com a volta do crescimento o país voltará a andar nos trilhos do desenvolvimento humano. Mas isso é equivocado e enganador.

O IDH é um índice que sofre de duas inconsistências metodológicas que resultam em um sério problema quando combinadas. A primeira é que o IDH foi feito para ser divulgado no curto prazo (anualmente) mas a grande maioria das suas variáveis é de longo prazo. De fato, frequentemente sabemos o valor da ‘expectativa de vida ao nascer’ apenas por modelagem, pois dados novos saem apenas nos censos, o que no caso brasileiro significa a cada 10 anos. Similarmente, as variáveis educacionais, como ‘ o número de anos médios de estudo’ (das pessoas acima de 25 anos) têm variações quase imperceptíveis no curto prazo, com alterações substanciais anuais devidas apenas a ocasionais ajustes metodológicos. Assim, apesar do IDH ser divulgado anualmente ele oferece poucas novidades devido a sua estrutura de longo-prazo.

A segunda inconsistência metodológica é que o IDH foi criado para ‘desbancar’ a renda como o grande fetiche das nações ao introduzir outras dimensões de desenvolvimento, como a saúde e a educação junto à renda. Mas na prática o índice dá um peso implícito maior à variável que tem mais escala para se movimentar, que é a renda (mesmo suavizando seu peso com uma média geométrica). Desse modo, quando juntas as duas inconsistências levam ao paradoxo de que o indicador que foi feito para substituir a renda como ícone de qualidade-de-vida acaba frequentemente sendo regido por ela.

Mas isso somente na fachada. No fundo, o IDH mostra que algumas sociedades são estruturalmente desiguais (como o Brasil que perde 25.6% do seu IDH devido à desigualdade), machistas (onde as mulheres ganham em média apenas 60% da renda dos homens), onde são desrespeitados alguns direitos básicos como o direito à vida (nossa taxa de homicídio de 24.6 por 100 mil pessoas é das mais altas do mundo) ou o direito à infância (8% das crianças trabalham no Brasil) e onde a provisão de bens públicos essenciais é feita com baixa qualidade e densidade (temos 18.9 médicos a cada 10 mil habitantes, a metade de alguns países vizinhos como o Uruguai e Argentina; gastamos -pouco e mal- apenas 1/3 do que países desenvolvidos gastam por aluno em nossas escolas publicas do ensino fundamental).

É equivocado e enganador pensar que a solução destes problemas estruturais depende somente do crescimento econômico. A raison d’être do IDH é tratar de liberdades básicas, direitos, desigualdade, discriminação, empoderamento, respeito e justiça social. Assim, é essencial lembrar que crescimento econômico é apenas um meio e não um fim do desenvolvimento. A economia deve servir à sociedade e não o contrário. O IDH não ‘estagnou’ ou ‘parou de avançar’ devido à recessão mas sim devido à inconsistência e ineficácia de nossas instituições e políticas públicas, ao nosso descaso estrutural à vida humana e à nossa falta de solidariedade como nação. Não devemos responsabilizar a falta de crescimento econômico pelo nosso baixo IDH quando a responsabilidade é nossa como sociedade.

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