A reinvenção da economia política (Zero Hora, 9 de abril de 2017)

rico-e-pobre

Vivemos tempos de grandes embates econômicos e políticos. São tempos de contrastes, de antagonismos, de velhas teorias aplicadas a novos problemas. Vivemos tempos de extremos e de dicotomias: ou você é de esquerda ou é de direita; ou defende a justiça social ou a eficiência econômica; ou acredita no poder do Estado ou no dos mercados; ou se guia pelo bem comum ou pela liberdade; ou segue (estereotipicamente) Marx ou von Mises. A economia política, precursora da economia contemporânea, parece sepultada de um lado sobre o véu da economia qua ciência e de outro sobre a economia como uma coleção de dogmas de grandes pensadores. Nesse contexto, Thomas Piketty permanece uma incógnita, um OVNI acadêmico, para todos aqueles presos às suas velhas ideias. E a explicação para as dificuldades em classifica-lo é simples.

Piketty é um economista que tem luz própria. O seu pensamento é difícil de ser enquadrado dentro das velhas doutrinas. Não é por ter sido o autor do best-seller ‘O Capital no Século XXI’ que ele é marxista. Não é por trabalhar com séries históricas e regressões que ele é um econometrista mainstream. Não é por defender investimentos pesados em educação e capital humano que ele é um liberal clássico. Não é por propor uma regulação de mercados financeiros especulativos que ele é keynesiano. Ele é antes de tudo um economista extremamente preocupado com a democracia e com sua erosão por crescentes níveis de desigualdade social e econômica. Diferentemente dos economistas tradicionais ele defende que ‘não existem leis econômicas, mas séries de experiências históricas’, com especificidades, aleatoriedades, imprevisibilidades e institucionalidades peculiares.

O mundo visto por Piketty é caracterizado por profundas desigualdades de renda e de riqueza. É um mundo com estruturas tributárias arcaicas, ineficientes e injustas que penalizam os mais pobres mas que são muito generosas com grandes fortunas e multinacionais (especialmente leniente com patrimônios privados em paraísos fiscais). É um mundo onde políticos são ‘inquilinos hipócritas do poder’ excessivamente bem-remunerados; onde o socialismo é apenas ‘decorativo’. É um mundo onde canais de notícia, controlados por bilionários, seguem com ‘seu fluxo incessante de informações emburrecedoras’.

Piketty é moralmente sensível ao desperdício de dinheiro publico com grupos privilegiados e ao ‘egoísmo míope’ da política internacional de países europeus que envelhecem à espera dos resultados desastrosos do aquecimento climático. Para ele as múltiplas faces da desigualdade não corroem apenas a democracia de países ocidentais, mas alimentam também o terrorismo, o nacionalismo, a islamofobia e demais conflitos religiosos no mundo.

Apesar de tudo isso, ele se define como um ‘otimista’ e constrói seus argumentos na interface entre a economia e a filosofia política. Ele defende a progressividade tributaria, o investimento pesado na educação, na formação profissional e na ciência e tecnologia. Engana-se contudo quem pensa que ele é um nacionalista. Para ele não há a possibilidade de construirmos sociedades melhores sem a cooperação internacional. Ele defende também um novo modelo de financiamento da proteção social para a França e Europa que não seja todo em cima da massa salarial do setor privado (um ponto de vista interessante e original para tempos de debates sobre a reforma da previdência no Brasil). Outras soluções financeiras propostas por ele, como a mutualização de dívidas públicas, estão na raiz de uma refundação democrática da zona do euro. Nas suas mãos assistimos a uma simbiose entre elementos políticos e econômicos cuja materialidade é dada por propostas de revisão da arquitetura tributária, orçamentária e financeira dos países que demandam a construção de novas instituições democráticas e parlamentares. Não existe hoje nenhum economista no mundo como Thomas Piketty. Temos muito a aprender com ele e a reinvenção da economia política para o século XXI.

 

 

 

 

 

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s