O ‘reco-reco’ e a qualidade da educação

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Educar é um ato de amor. Não o amor romântico, mas aquele amor pelo qual se tem pelos filhos/as. Não há, aparentemente, um nome para esse tipo de amor. Para o amor do querer ver alguém crescer, se desenvolver, ser feliz, sem querer nada em troca. Mas é disso que se trata quando falamos em educar. E se isso for verdade, não pode haver educação de qualidade sem o ‘RECO-RECO’.

Uma educação que se preze deve começar com o RE-conhecimento dos alunos/as como sujeitos de valor. Dentro do ambiente escolar, cabe à sua administração e aos seus professores agirem de tal forma a passar a mensagem aos seus alunos/as que eles são importantes, que são amados, cuidados, que serão protegidos. Difícil imaginar que os próprios alunos/as vão considerar válido o investimento do seu tempo na escola se eles/as não se considerarem dignos desse investimento. Quanto maior o desmantelamento das famílias, quanto maior for a violência fora e dentro das escolas, mais importante é o professor reconhecer seus alunos/as como sujeitos de valor. Mas isso parece muito abstrato, não? O que pode então ser feito de concreto? Aprenda o nome dos seus alunos/as; pergunte como eles/as estão; considere-os/as; sorria, cumprimente-os/as, estabeleça uma relação de reconhecimento com eles, como nos diria Axel Honneth. Nos conta ele, assim como a Profa Adela Cortina, que a violência que vemos (na sociedade e nas escolas) pode ser uma forma da busca pelo reconhecimento feita por crianças e jovens que sofrem o desamor de suas famílias.

Uma vez estabelecidos os laços humanos, cabe ao professor CO-mandar o que ensina ao invés de ser comandado pelos conteúdos. Isso não significa que não use manuais ou mesmo apostilas. Isso quer dizer que cabe ao professor/a dominar plenamente o que ensina para que possa deixar o protagonismo da sala-de-aula aos seus alunos. O professor antes de tudo precisa ser alguém que é professor porque gosta de estudar. Infelizmente no nosso país os livros são caros e os professores são baratos e estes não podem comprar livros e aperfeiçoarem-se de modo espontâneo. Mas estudar é preciso para que o professor não vire escravo dos conteúdos e possa conduzir suas aulas como uma conversa estruturada com seus alunos; isso é fundamental para humanizar o ensino.

O segundo RE é o RE-speito. Respeitar os alunos é diferente de reconhecê-los pois respeita-los envolve dar importância a sua voz como elemento pedagógico. Muitas vezes, mesmo quando os professores lançam perguntas aos alunos/as em sala-de-aula, ‘pescam’ respostas, passando de aluno/a em aluno/a buscando a resposta certa. Nesse caminho, podem ou não chegarem a respostas que querem; mas alienam, sutilmente, todos aqueles alunos/as que responderam e que foram abandonados/as pela sua atenção ao não nos darem a resposta que desejavam. Por que não perguntar aos alunos o porquê de suas respostas? Por que não perguntar ao próximo aluno/a se ele ou ela concorda ou não com o/a colega? Alienamos como professores (faço o meu mea culpa aqui) aos alunos, tiramos seu protagonismo em nossas pedagogias e depois reclamamos que eles deviam se interessar mais nos estudos. Os alunos precisam fazer parte do processo de construção do conhecimento. Até mesmo nas ciências e na matemática existem diferentes meios de se provarem axiomas ou de se testarem hipóteses científicas começando por caminhos ou estratégias distintas.

Por fim, o último elemento é a CO-mpreensão dos erros. Ensinar não é somente transmitir conhecimento. Nem tampouco, nessa linha, promover habilidades. Ensinar é entender a fonte dos erros, para ser capaz de construir várias trajetórias de aprendizagem a partir de pontos de partida diversos. O primeiro CO (de CO-mando da matéria) é fundamental aqui também. Mas sem CO-mpreender os erros, não se ensina, se passa conteúdos, mas não se coloca os alunos/as para pensar. O medo ao erro é a maior fonte da ansiedade e dos estereótipos criados em sala-de-aula e que as pessoas às vezes podem carregar por toda a vida. Criar uma cultura onde o errar faz parte do acertar é fundamental para pensar diferente: é fundamental para a promoção de uma cultura de um pensamento inovador, que já é e será ainda mais o motor das sociedades no século XXI. Mas os alunos somente não terão medo de errar se ao errarem seus professores não mudarem de opinião a seu respeito, isso é, se forem amados, no sentido de serem RE-conhecidos..

O RECO-RECO funciona assim, tudo junto e misturado. Funciona pela prática, funciona pela repetição, que forma os hábitos, como nos ensinou Aristóteles. O RECO-RECO segue a lógica da prática e pode marcar uma cadência pedagógica, formada por elementos psico-emocionais com importantes implicações sobre a qualidade da educação.

É importante, no entanto, reconhecer, que escolas e universidades se tornaram hoje em dia espaços vulneráveis à violência reinante na sociedade brasileira. Desse modo, não devemos esperar o fácil. Devemos preparar-nos para o difícil dentro de um contexto de ‘escolas e educadores resilientes’. A única força que pode movimentar o reco-reco e fortalecer o produto das escolas resilientes é o amor. O amor pelo próximo, pela humanidade, aquele que nutre a compaixão, a empatia, o reconhecimento e o respeito que motivam o esforço e o aperfeiçoamento pedagógico.

Deixo aqui registrado o meu profundo agradecimento ao Prof Ronaldo Mota, Reitor da Universidade Estácio, pelo convite em participar do Painel de Abertura do seu Fórum Docente 2017 com Éric Bettinger de Stanford e o ex-ministro Fernando Haddad onde algumas dessas ideias foram apresentadas.

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