E se nada der certo?

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A pergunta era boa. O problema foram as respostas. Considerar cenários alternativos, mesmo negativos é importante tanto para o planejamento da política pública como para nossas estratégias de desenvolvimento pessoal. Pode ainda ajudar no fortalecimento da resiliência pessoal. Chegar assim para jovens prestes a enfrentarem a pressão de um vestibular e pedir a eles que considerem o que aconteceria em suas vidas ‘se nada desse certo’ não parece um problema em si.

O que os jovens em questão responderam é em parte o reflexo do apartheid social no qual vivemos, mas custamos em admitir. Muitas daquelas pessoas que esbravejaram com a resposta desses jovens não gostariam, acredito, que seus filhos/as tivessem as profissões retratadas por eles. Por quê? Porque no nosso país ter uma dessas profissões, que são dignas nelas mesmas, significa ter uma condição de vida indigna, pela massacrante concentração de renda e riqueza que produzimos e reproduzimos.

A posicionalidade dos julgamentos não pode ser ignorada. Vivemos em um país com vários pesos e várias medidas. Ser um porteiro, por exemplo, é um trabalho digno, como qualquer outro, que pode ser muito divertido. Mas não se o residente do prédio não lhe cumprimenta, não se as pessoas não lhe olham na cara, não se ninguém conversa com você e lhe pedem para fazer coisas sem um ‘por favor’ ou ‘obrigado’. Não é digno nem divertido se no final do mês o seu pagamento está longe de suficiente para comprar o básico para uma vida decente. Quem gostaria isso para seus filhos/as? Veja que o problema não estar em ser porteiro, mas quem dele/a se utiliza, com pouca humanidade e civilidade. A desigualdade desumaniza tanto quem vive na pobreza como quem se acha superior a vida cotidiana de seus concidadãos.

O problema pode ser da escola. Ou pode ser dos jovens. Ou pode ser de suas famílias. Ou pode ser da sociedade em que vivemos na qual naturalizamos visões de mundo profundamente desiguais. E como sociedade, nos espantamos quando olhamos no espelho e percebemos que somos ‘feios socialmente’. Para resolver mesmo esse, assim como outros problemas, precisamos ir além das aparências. A febre não é o que causa a doença. A febre é o sintoma. Para atacar o problema precisamos pensar em como reproduzimos desigualdades no nosso país. Precisamos pensar para quem a economia funciona. Para quem se governa. E o quão ‘feio’ e insustentável tudo isso nos parece quando nos olhamos socialmente no espelho nesse tipo de situação. Usando outra metáfora: nossa indignação não deve voltar-se isoladamente ao mensageiro, mas ao sistema social que produz as mensagens.

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