O Teorema da Impossibilidade de Bolsonaro

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Suponhamos que o presidente Bolsonaro queira ser um bom presidente. E que para isso ele acredite que precisa ser ‘determinante’ na implementação de suas bandeiras políticas. Mas suponhamos também que ele não tenha as condições políticas para tal, pois bons presidentes precisam (para serem ‘determinantes’ nas escolhas coletivas de suas sociedades) de capacidade de diálogo e criação de consensos para governar –o que nunca foi muito a praia dele. Suponhamos que presidentes que não consigam governar precisem de grandes ‘cala-bocas’ na oposição, como o crescimento econômico (que aparentemente deixam todos contentes) ou um grande apoio popular (exógeno, por simpatia mesmo). Suponhamos que quando os presidentes não têm um desses ‘cala-bocas’, que tentem substituí-los por outros. E que quando não conseguem nenhum, ficam sem condições de governar. Suponhamos que presidentes que não conseguem governar, se estão em um período de tranquilidade da vida nacional, apenas envelheçam no cargo, com atitudes decorativas.

Mas, suponhamos, que quando a vida nacional enfrenta dificuldades e desafios, os quais presidentes que não conseguem governar não sabem como enfrentar, que eles busquem comprar a ‘determinação’ necessária de todos os modos, alimentando, se for preciso, a corrupção de parlamentares. Essa estratégia, no entanto, pode não ser viável e/ou pode não ser sustentável, se a corrupção for um processo sem limite que exponha demasiadamente o presidente. Sendo esse o caso, e continuando o desejo do presidente ser ‘determinante’ na escolha social, suponhamos que reste a ele somente o caminho dos ditadores (‘de máxima determinação’) para eles. Suponhamos, contudo, que quando presidentes tentem ser ditadores, eles procurem garantir o apoio das forças armadas e que quando isso se revele uma impossibilidade, na ausência das condições acima, que eles estejam sujeitos à força da lei através do mecanismo do impeachment, o qual, por sua vez, é fortalecido por toda a trajetória de suposições acima. Mas suponhamos também que processos de impeachment façam parte de um xadrez político de natureza sempre incerta.

Colocando juntas todas essas suposições podemos deduzir que a presidência de Bolsonaro, sempre foi uma impossibilidade para ele e para a nação, pois carregava em si a ambição de uma agenda ‘determinante’ e um alto grau de vulnerabilidade a fatores externos. Não sendo chegado à arte da política e formação de consenso, colocou todas suas esperanças na governança sem diálogo, através do crescimento econômico. Sofrendo um choque externo (a pandemia) que inviabilizou a sua única saída, apela ao populismo. Não sendo isso muito efetivo, apela aos corruptos de plantão (trajetória essa que pode ser muito custosa para ele). E na ausência dessa materialização, resta a ele a tentativa de introduzir uma ditadura no Brasil. Contudo, apesar de seus elogios às ditaduras, não parece que ele tenha as características um ‘bom ditador’ (perdoem pelo oximoro) pois ele não mostra, por exemplo, muita ‘determinação’ em suas políticas de nomeação e demissão, que são sempre titubeantes. Também parece que os militares não querem pagar os custos adicionais de assumir oficialmente um poder que na prática já o exercem, se não de todo, pelo menos em parte. Há assim um espraiamento da ‘falta de determinação’ do presidente que perpassa todo o sistema político. Vivemos, assim, uma crise de governança, de falta de ‘equilíbrio’, como dizemos na economia, com vários cenários que não se encaixam para a possibilidade de um governo Bolsonaro. E é isso que faz a crise ser a crise séria que é: a sua impossibilidade de solução.

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OBS1: O título desse artigo brinca com o tema de um dos teoremas mais elegantes e instigantes da economia moderna, que foi elaborado pelo prêmio Nobel Kenneth Arrow (1951) que mostrava como vários axiomas bastante razoáveis de escolha social não poderiam ser satisfeitos simultaneamente a não ser pela presença de um ditador. Axiomas tais como: ‘se todos os indivíduos preferem uma situação ‘x’ a uma situação ‘y’, então toda a sociedade deve preferir x a y’ (conhecido como ‘Princípio de Pareto’) ou ‘a escolha social sobre qualquer conjunto de alternativas deve depender somente das preferencias sobre essas alternativas’ (conhecido como ‘independência das alternativas irrelevantes’), não podiam ser satisfeitos junto com o axioma de ‘ausência de um ditador’ e ‘domínio irrestrito’. Sobrava o ditador. A literatura gerada por esse teorema foi imensa e contribuiu ao prêmio Nobel dado a Arrow em 1972.

OBS2: Notem que não falei nada sobre as manifestações pessoais do presidente, desde quando era candidato.