O pior da derrota para a Alemanha

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Perplexidade. Descrença. Vexame. Vergonha. Humilhação. Seleção reduzida a pó. Fiasco. Demolição. A página mais escura. Suplício. Pranto. ‘Mineirazo’. As palavras usadas foram muitas. O sentimento de frustração, de decepção, de fracasso, estampado nas lágrimas dos brasileiros foi uma consequência de uma situação que surpreendeu a todos, até mesmo aos alemães. A dor associada ao que aconteceu, seja como queiramos qualificar, não deve ser ignorada. Mas não foi o pior que vimos.

Muitas famílias tem historias de vivência do ‘Maracanazo’ de 1950. O sonho de um Brasil diferente, vivendo um momento distinto, alimentou para muitos (principalmente para os mais velhos) a ilusão de uma compensação afetiva pela dor de nossos antepassados. Finalmente, uma nova Copa no Brasil. Não, não desta vez. Muita frustração, mas não foi o pior que vimos.

Muitos entenderam que os (talvez) R$30 bilhões gastos para a Copa eram um preço natural para trazer ao país e para seu povo a sua maior paixão, o futebol. Preços altos afastaram o cidadão comum dos estádios, mas mesmo assim, Fan Fests e o clima geral de festa parecia dar mesmo ao cidadão mais pobre o sentido de proximidade do evento. Os investimentos prometidos em infraestrutura se materializaram muito parcialmente, mas quando a bola começou a rolar, tudo passou a valer a pena pela paixão. A perda dessa alegria foi um golpe duro. Mas não foi o pior que vimos.

O pior que vimos, na minha opinião, foi ver os brasileiros deixando o Mineirão durante o intervalo do jogo. O mesmo povo brasileiro que acha bonito ‘cantar a capela’ que ‘verás que um filho teu não foge a luta’, saiu de mansinho, como se tivesse entrado no estádio para comprar um produto (que não foi entregue). O pior foi a vaia e os insultos no estádio ao time. O pior foram as brigas entre torcedores brasileiros ainda dentro do Mineirão. O pior foi a vulgaridade de nossos locutores que de um segundo a outro passaram de elogios infundados a críticas injustas do tipo ‘eu já sabia’. O pior que vimos foram ônibus queimados (18 em São Paulo e em Curitiba, mas os números são inexatos), torcedores alemães agredidos, briga e confusão em várias Fan fests (como na de Recife e de Salvador), tumulto nas ruas (como em Copacabana) e uma atitude de distanciamento do torcedor de sua seleção. O pior que vimos foi nossa incivilidade, nossa falta de resiliência, de solidariedade e o reconhecimento de que o verniz da nossa sociedade é muito superficial.

O pior que vimos também foi a marketização do evento ser introjetada nos ‘sentimentos morais’ dos torcedores e o ato de torcer (tão falsamente exaltado pelo marketing como razão para consumo) ter virado um ato de consumo -transformado em revolta pelo produto/serviço não ter sido entregue. O pior que vimos também foi o abandono imediato da mídia. De repente, todos aqueles comerciais, jingles, toda aquela poesia que nos acompanhava de modo intenso há três semanas, nos abandona, como um amigo que nos abandona no momento mais difícil, como se dissesse, ‘só queria me aproveitar de você enquanto me convinha’.

O pior que vimos é que tivemos que nos olhar no espelho. Dormimos com o Dr Jekyll (o médico) antes do jogo e acordamos com o Mr Hyde (o monstro): um Brasil onde quem organiza as relações sociais, incluindo o futebol, é o consumo e onde todos desejamos viver no melhor país do mundo, mas ninguém acha que tem nada a ver com isso. As pessoas saíram do estádio como saímos da vida cívica. Não vai ter eleição que cure isso. Não vai haver um ‘acordar para nossos problemas’. A única coisa que podemos aprender é que há ainda muito a aprender para melhorar a civilidade no nosso país. Isso deveria nos dar uma dor muito maior.

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